Andando lado a lado estão os absurdos da vida real. 
Na rua ao lado da prefeitura, do outro lado do açougue de alguma cidade tem um IML. 
Quem ri é sádico. Quem chora é hipócrita. Quem não é vê é raso. Quem vê, continua em seu caminho até chegar em seu trabalho.
Prometeram ao legista o desafio mais completo de sua vida mórbida. Chegava do sul do país, da ilha intocada, da última gruta não habitada por humanos, o primeiro espécime de unicórnio. 
A criatura chegou, sem porte e com cortejo. 
Ativistas gritavam sobre o direito da vida (já tirada) do unicórnio. Morreu sem razões políticas.
Outro grupo se aglomerava para santificar a existência do milagre esotérico. Alguns desse mesmo grupo comercializavam mililitros de sangue, bile, lágrimas e esperma do bicho nem ainda comprovadamente real.

A fila de seus compradores seguia lógica do mundo, mais fácil pagar que conquistar valor.

Passando pela horda de jovens da moda, que subitamente eram especialistas em unicórnios e se estapeavam com qualquer autoridade (que de fato estava ali para manter em ordem a fila dos fiéis), o velho legista ainda se surpreendeu com dois ou três jornalistas que bradavam uns sobre os outros: “qual a legitimidade do unicórnio? Quem pagou pelo transporte? Quando se invadiu a ilha? Onde ele estava quando morreu? Onde estava o namorado da vítima e por que ele estava tão fora de forma?”.Entrou, não se deu nem ao trabalho de fechar os olhos para suspirar.

Sendo cachorro, mendigo, político ou unicórnio. Eram três cavidades: cabeça, tórax, tronco. 
Na agenda se dizia: Autópsia.
Nada de mais. 
Se concluiu ser um cavalo com um chifre atochado. Cena pouco bonita de ser. Ainda potro lhe colocaram o espinho, pelo nariz. Até rasgar sua couraça. E por isso, resistir a isso e ostentar em sua testa a marca do absurdo, lhe chamaram único.
O legista deu o boletim. Os fiéis se foram, os jornalistas publicaram sua disponibilidade para cobrir outra pauta, os modernos já não estavam lá. Mesmo porque, comprovar não traz novidade e razão fora de discussão não traz nada. 
O relatório foi jogado. Ali no papel trazia uma nota ao lado:

“Para se fazer uma autópsia o espécime deveria ter dissecado a si mesmo, tratou-se de uma necrópsia básica em criatura rudimentar com processos instaurados e supervisionados por mim.”

Dias depois me encontro aqui, morto. Alguém me abrirá em morte o que não fui capaz de expor em vida. Encontrando órgãos e não demônios.
De todo o episódio eu deveria ter aprendido a cultuar com eles, fúteis, essa minha igreja mais sagrada que os símbolos e se virou em nada espetacular. Comum e totalmente humano. 
E eu diria em culto: Vivi a esperar que não me consumisse totalmente a ponto de deixar algo que a morte não me levasse. Sagrada na minha autópsia é você, mesmo que só eu possa faze-la por mim, foi por fé.

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