Contorno direto
Sem muito mistério de sua função, a Avenida do Contorno envolve 8.815.382 m² de cidade. O resto do Brasil não acontece lá. O Brasil tem 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
Entre escritórios, botecos, restaurantes e negócios de família,ou não,por esse asfalto muito se mede, constrói e faz nessa cidade.
Também é ali que se tem registro da história mais triste da vida de um povo.
E não pense que é um título fácil de se ganhar nesse perímetro.
Não é a mulher negra com pés tortos que manca acompanhada de um cachorro apoiando todo seu peso em um osso desforme que pressiona uma camada de pele. Enquanto se arrasta por seus caminhos causa a agonia de quem repara, mas segue seu caminho com uma sacolinha de pedinte e seu bichinho a frente.
Muito menos os meninos que se revezam entre as portas de lanchonetes pedindo restos de comida aos que pagaram por elas. Seja qual for a resposta, garrafinhas de plástico com água ou não, lhes acompanham para debaixo da próxima marquise onde se juntam em bandos.
Também não são os ônibus lotados de pessoas espremidas entre suas paredes de lata descendo de qualquer, seja lá o território de fora da Contorno, que precisam chegar ali pelo maravilhoso privilégio de orbitar em volta dela enquanto não vendem suas horas de vida.
Não são os adolescentes de uniferomes de seletos colégios segurando mais forte seus celulares ao passar por tanta gente estranha. Não são as mulheres assediadas. Não são os jovens zumbis rumo à falácia do sucesso. Não é a idosa com sacolas de qualquer coisa recebendo mais uma negativa e um comentário de dó.
Em um prédio, claro que nessa avenida, está a Comunidade Cristão da Zona Sul que avisa sem rodeios em uma faixa: “Estamos intervindo pelo Brasil”.