Desistência é uma palavra forte

“Onde você vai?” escutei ao fundo. 
Pode não parecer muita coisa mas eu tinha um objetivo muito específico: queria ser a primeira pessoa a comprar um pão quando a padaria abrisse. Era um frio da madrugada, uma neblina e meu Deus, como eu odeio neblina!
Frio de vento. 
Pode não parecer muita coisa mas naqueles últimos dias ser o primeiro em qualquer fila me valeria de muito. 
Então eu saí, não era tão estranho que eu estivesse ali naquela calçada a essa hora com esse frio, se eu não deixei claro, eu tinha um objetivo. 
Levou um tempo até eu sacar que a velha mendiga falava comigo. Porque ela não olhava para mim, morro de agonia de gente que fala sem te olhar. Falar para o mundo todo mas só você escutar… parece-me um grande desperdício de potencial. 
Ela falou vários nadas ou vários tudos e eu só queria comprar um pão. Até que ela disse que eu era solitário. Essa seria a hora bonita da Epifânia do texto. Mas não tem. Aliás, esse é um relato chato e raso do dia que eu quis ser a primeira pessoa em meio ao frio a comprar um pão e aconteceu da velha mendiga estar ali no mesmo lugar que eu.
As vezes a vida é esse grande nada. De encontrar gente que está ali. Com objetivos ou sem nenhum.
Esse pão é de serragem, essa cidade é de fumaça, meus sonhos eu não lembro e na verdade ninguém me perguntou onde eu ia.
Acordei numa sala com paredes e esse espelho.
Eu realmente não tenho motivo nenhum para dar bom dia mas eu sei sorrir de um jeito tão real que é meu talento. E me parece um grande desperdício de potencial não fazê-lo. Esse é meu único objetivo. Não sei se eu já te disse mas quero frisar que eu tenho um objetivo. 
A velha? Passou falando vários nadas e vários tudos, inclusive que eu era solitário. Passou. Passa.
A casa dela é isso aí a rua, o frio, os perdidos de agasalho.
O pão? Eu comi. Ninguém se importa se era o primeiro. O resto do dia eu até me arrependi “que merda de objetivo”. 
Se quer saber de um segredo, minha preguiça não deixou eu ir na padaria. A velha eu imaginei. E foi o maior diálogo que eu tive no fim de semana inteiro fora desse espelho.
Aí deu nessa segunda e eu tive que sorrir esperando a outra sexta. Talvez esse seja meu objetivo. 
Não vou chamar de desespero, isso custaria uma vivacidade de sentir pena que eu não tenho. Inventei em mim que esse estado se chama permanentemente: esperança niilista, porque estou esgotado para tudo que minha pele não sente.