O tempo estimado da leitura, o esvaziamento da palavra: do risco ao consumo
Por causa de alguns devaneios que eu ainda não entendi direito — e, provavelmente, não vou conseguir entender-, senti falta, nos últimos tempos, de voltar a escrever textos argumentativos, que talvez possam ser entendidos, de alguma forma, como jornalísticos. Sou formada em jornalismo, mas, ainda durante a gradução, não me sentia nenhum um pouco movida a exercer a profissão no mercado mais tradicional. A vida caminhou para os lados mais imprevistos e, de fato, não trabalho dessa maneira. No entanto, escrever prevalece sendo não só como o que mais gosto de fazer, como tendo achar que é o que faço melhor. Nos últimos meses, tenho acompanhado o aumento do uso do medium e pensando em fazer alguma conta aqui, em que eu talvez pudesse publicar o que não teria muito espaço nem nos meus livros, nem em artigos acadêmicos.
Acontece que o tempo aqui ainda é muito diferente daquele que eu gostaria, de fato, habitar. É assustador ler em um texto cuja página, no topo, avisa o tempo gasto com aquela leitura. Fui buscar mais informações no site e encontrei essa nota: “At the top of each Medium story, you’ll see an estimated read time. Read time is based on the average reading speed of an adult (…). We take the total word count of a post and translate it into minutes, with an adjustment made for images”. Em realidade, creio que isso me apavora ainda mais que alguns discursos que escutei em redações de jornalismo, sobre tempo de produção, tempo de divulgação de um texto, tempo de apuração. Até mais que o dia quando ouvi de um editor que “estava apurando demais”, embora trabalhasse com bastante tempo até o deadline. Esse tempo estimado da leitura, apresentado logo junto ao título, amendronta porque parece apontar não só para um certo lugar de leitura e compreensão do texto funcionalizado pela necessidade — devo ou não perder meu tempo lendo isso, compensa, será rápido, o que esse texto pode me agregar? — como parece uniformizar a experiência de cada um com um texto. Acho triste pensar que, naquilo que parece ser uma rede social para compartilhamento de textos mais longos, não possamos ainda viver e esperar que algo de um texto nos impeça de ir até ao final. Alguma coisa, um pequeno mistério, uma imagem forte, uma palavra desconhecida cuja importância interrompa a leitura. Ler, às vezes, pode ser um soco no estômago, uma garganta travada, as mãos trêmulas, a impossibilidade de continuar o texto porque há muita força ali, alguma dor, alguma alegria que se queira manter suspensa, não arriscar suprimi-la na página seguinte, na frase que virá. Uma palavra pode convocar uma imagem que queiramos evitar, tentamos esquecer, tememos reviver demais com o receio que se gaste. Uma palavra é perigosa. É um risco.
Apresentar um texto com o seu título junto com o tempo gasto com ele parece esvaziar um pouco a possibilidade do desconhecido, acreditar que um palavra chega a mim da mesma maneira que alcança você ou alguém que esteja a muitos quilômetros de distância, com que talvez nunca conversemos pessoalmente, mas nos encontremos digitalmente. É colocar os textos, nossas palavras apenas na lógica do consumo: o tempo de leitura é o tempo da necessidade, da satisfação, daquilo que é gasto com algum objetivo específico. É apostar na utilidade, querer otimizar a possibilidade do prazer. É dizer outra vez, com muita recorrência, que não há tempo. Não há mais tempo, mas o atropelo e o gasto de qualquer segundo. Tenho pensado muito nisso. Nesse sentido, algo que também me intriga e me deixa receosa são as stories do instagram. Até onde eu entendia — e onde ainda desejo permanecer -, registrávamos uma foto, um vídeo para que não nos esquecêssemos, para que algo se mantivesse ai, conosco, antes que se perdesse. Agora, parece que guardar, permanecer, reter é desnecessário, quase um desperdício: talvez, não haja HD o suficiente para tudo que desejemos dizer; talvez, já não seja necessário mais dizer nada. A certeza da destruição e do apagamento é a liberdade que aprisiona: tudo será esquecido, não haverá mais vestígios, ninguém se lembrará e, em presentes sem pressuposto futuro, pensar no que registramos se torna vão. Se temos o cronômetro de um texto, também temos o limite das imagens: nenhuma deles parece poder se estender muito, senão perderemos o tempo. Embora, cada vez mais, parece-me estarmos vivendo antes a impossibilidade de qualquer presente, sob a ansiedade de desperdiça-lo. É preciso ver tudo e se esquivar do tempo de uma palavra: uma palavra escrita parece demorar mais tempo para provocar quaisquer estímulos.
Em um tempo longíquo, ouvíamos que não deveríamos julgar um livro pela capa. Agora, tendo achar que talvez seja aquele em que devemos, quem sabe, questionar e indagar o tempo de leitura que acompanha um texto. Tal como alguém com a esperteza o suficiente para ignorar as bulas de remédio e, de repente, descobrir-se mais doente do que sentia.

