Como eram as conexões remotas sem wifi

(ou sobre as cadernetas de negócios dos nossos avôs)

O mercadinho do bairro que vendia fiado não resistiu ao tempo. O dono, que eu só conhecia por detrás do balcão, passou então a botar sua cadeira na calçada, de costas para as portas fechadas, e era sempre pontual no bom dia e boa tarde em nosso caminho de ida e vinda da escola.

Como o seu João, o seu Orlando também anotava num caderninho as vendas e trocas, o mercado de gado. As vacas do meu avô tinham nome, e ele as conhecia todas — malhadas, ciganas e estrelas. Às vezes, a gente madrugava com ele a ir tirar o leite delas e bebê-lo ainda morno recém-ordenhado.

Diz que o seu Aurélio tinha o mesmo costume. Eu não o conheci. Mas, na minha primeira visita ao sítio dele, com o neto, soube da política café com leite, entre vacas. Seu Aurélio, do interior de São Paulo, mantinha comércio com um senhor do interior das Minas Gerais, que eu gosto de pensar que era o seu Orlando.

O mistério das conexões remotas sem wifi havia me levado àquela roça de terra batida a mesma. A ameixeira de ameixas amarelas que só cresciam no pomar da minha avó tinham réplica ali. A paineira, majestosa, reinava por ali como havia conquistado súditos mineiros em outras primaveras. E a mangueira, sombra das brincadeiras de colher flores para enfeitar bolos de areia, dava frutos e lambuzava outras bocas, e mãos, que só se chupa manga com o que se é.

Acho que seu Orlando e seu Aurélio se conheceram por conta das vacas que criavam, embora a única evidência seja as anotações rabiscadas em cadernetas amareladas. Das terras de nuvens onde estão os dois, me mandaram passear acompanhada dele que adora aquele pedaço de terra que tanto lembra o lugar de onde eu vim. As conexões que vão além das notificações, e ficam.

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