Uma facada no bom senso
O textão de hoje é especial para os amigos jornalistas e professores (de jornalismo ou não).
Há um tempo o New York Times publicou um artigo de um jornalista contando a sua experiência de ter lido as notícias apenas em jornais impressos por 2 meses. Segundo ele, se afastar das redes sociais no consumo de notícias possibilitou que ele ficasse longe de teorias da consipiração, análises sem fundamento e as nossas já conhecidas “fake news” logo após o tiroteio em Parkland, nos EUA.
Ontem, após a facada no Bolsonaro, esse artigo não saía da minha cabeça.
Vi amigos no Facebook e no Twitter compartilhando, curtindo e dando retweet em informações falsas e de gosto duvidoso.


Vi análises e mais análises se multiplicarem minutos após o fato. A cada meme recebido no whatsapp via também uma observação com ar de editorial, artigo de opinião, postada no Facebook. Mas uma coisa me assusta: muitas feitas por jornalistas e professores (que representam a grande maioria dos meus amigos nas redes sociais).


Vou aproveitar essa oportunidade para compartilhar um dado da minha dissertação de mestrado.
Eu fiz uma pesquisa com 158 pessoas sobre a confiança na imprensa durante o impeachment da Dilma. Entre os que responderam à pesquisa 33 eram jornalistas (21%). Quando responderam a questão “Eu acredito que o que a imprensa publica é verdadeiro” 14 dos 33 jornalistas discordaram da afirmação. Nenhum jornalista concordou completamente com a frase. Frente à afirmação “Eu acredito que a imprensa brasileira é imparcial”, nenhum jornalista concordou com a afirmação e 21 dos 33 marcaram “discordo completamente”.
Outro dado que eu achei importante dessa pesquisa (muito embora eu sei que 158 pessoas não representa um número significativo o bastante para ter caráter estatístico) é que 25 dos 33 jornalistas que responderam não sentem que suas visões e opiniões são representadas pela imprensa.
Ontem, assistindo ao desdobramento do atentado sofrido por Bolsonaro, essa informação da minha dissertação também não saía da minha cabeça.

Eu acredito na imprensa. Já escrevi aqui algumas vezes sobre como acho extremamente importante que se confie em fatos e que se acredite em quem os reporta. É o que mantém a democracia em cheque. A imprensa tem papel fundamental em garantir direitos e responsabilizar governantes por seus atos.
É preciso confiar na imprensa. Mas, ainda mais importante hoje em dia, é preciso assumir a responsabilidade sobre aquilo que reproduzimos e compartilhamos.
Não me surpreende que as redes sociais tenham sido tomadas por teorias da conspiração, acusações de teatro e piadas com a facada em Bolsonaro. Me surpreende que formadores de opinião tenham participado desse circo.
E aí vem a noção de que as pessoas, nem mesmo os jornalistas, confiam na imprensa. Não acham que a imprensa reporta os fatos como são. Não veem suas opiniões refletidas nos jornais e revistas… Se nem mesmo quem produz as notícias acredita naquilo com o que trabalha há algo de muito errado.
Então vamos à conclusão desse textão: você é responsável por aquilo que publica. Seja no Medium, no Facebook ou no jornal de amanhã. Por isso, faça isso de forma consciente.
