Você já leu os comentários hoje?

Costumam dizer que devemos ignorar os comentários em notícias da internet. Basta exagerar um pouquinho na rolagem do mouse que você abre os portões do inferno e lê inflamados comentários machistas, homofóbicos, racistas e preconceituosos em geral.

Pois estou aqui para dizer o contrário. Ainda mais se você trabalha com conteúdo. LEIA OS COMENTÁRIOS.

Não leia para passar raiva, nem para rir e apontar para o fulaninho que só fala bobagem. Leia para entender o que os seus leitores pensam e refletir se o que você está publicando tem a capacidade para dialogar com essas pessoas.

Em novembro o New York Times publicou perfis das pessoas que mais comentam em seus artigos. Um dos perfilados explicou que lê os comentários em busca de respostas para as perguntas que ele tem. Outro que se sente parte de uma comunidade quando comenta. Outra, e a mais relevante para mim, afirma:

Eu vejo que ninguém disse o que estou pensando. E aí eu penso ‘Eu não posso ser a única’

Eu acho extremamente preocupante que leitores encontrem respostas em comentários e não em textos feitos sob uma ética jornalista. Também acho preocupante que, em um ambiente considerado hostil, alguns se sintam parte de uma comunidade. Mas acho ainda mais interessante que os comentários partam de um sentimento de não representatividade.

Claro, não vou comparar o nível de educação e interesse de quem comenta em um artigo do New York Times com alguém que comenta em um artigo sobre a Geisy Arruda na página do UOL. Mas, independentemente do conteúdo do comentário, ele ficará sem resposta. E há comentários inteligentes no mar de reclamações contra o governo.

Como geradores de conteúdo, estamos incentivando os bons comentários?

Há quem argumente que aqueles que escrevem afirmações inflamadas no rodapé das reportagens não querem diálogo.

Os parágrafos escritos com a saliva cheia de bile criam uma barreira e é impossível estabelecer uma conversa com aquele que se opõe tão ferozmente a uma ideia.

Um artigo publicado recentemente na revista científica Science contradiz um pouco essa ideia. Pesquisadores americanos descobriram que é possível, sim, mudar a ideia de alguém sobre um assunto polêmico (no caso, transfobia). Para convencer alguém, por mais radicais que sejam suas opiniões, é mais eficaz ouvir e personificar o alvo do ódio. Discursos de ódio não vêm da razão e, portanto, não adianta usar a razão para combatê-los. É preciso usar a emoção.

Para mim, usar a emoção significa abrir um diálogo. Não significa apontar um dedo e dizer “você está errado”, mesmo que isso seja acompanhado de bons argumentos. Significa estar aberto para ouvir o outro lado e ser plenamente capaz de entender os motivos daquela conclusão. E isso não significa concordar com ela.

Enquanto não ouvimos de verdade o ódio irracional de quem faz questão de destilar xingamentos por meio de um teclado, fica impossível estimular uma mudança de atitude.

Um episódio recente do podcast This American Life colocou uma jornalista feminista que recebeu comentários extremamente maldosos em seus textos (e sofreu uma perseguição online) com o dito “troll”. O diálogo é bastante esclarecedor. O comentário, agressivo, cruel, desumano, foi feito por quem se sentia ameaçado, excluído e infeliz. Personificar aquele nome de usuário destruiu um troll.

Se, como comunicadores, o nosso papel é formar opiniões, ignorar comentários não é a melhor maneira de fazer isso. Fechar o site e bloquear a participação dos leitores, muito menos.

Eu sei, é difícil navegar pelo oceano de ignorância e preconceito que encontramos no fim da barra de rolagem. Mas, pior ainda é permitir que isso se torne a norma porque é lá que leitores encontram respostas, se sentem parte de uma comunidade ou se sentem representados.

Leia os comentários. Se não for para ouvir e dialogar com seus leitores, que pelo menos seja para criar arte:

PS: Vale compartilhar o levantamento feito pelo Guardian, que analisou os comentários banidos do site desde 2006. Mulheres e negros recebem o maior número de comentários que ferem as políticas do site.

PS 2: Concorda? Discorda? Quero conversar nos comentários ;)