We can

já me senti uma pessoa muito pequena porque acreditava que precisava ser suficiente: suficiente pra igreja, suficiente pros meus amigos, suficiente pra passar com média acima de 8 na faculdade, suficiente pras relações onde estava e assim por diante até entender que eu não preciso ser suficiente pra nada e ninguém. eu preciso e precisava ser suficiente pra mim, porque só eu sei quais são/foram meus piores dias, porque só eu sei quais dias em que quis sumir do mapa, quais as vezes em que quis explodir feito uma homem-bomba, quais as vezes em que só pude contar com minha própria respiração me guiando para um momento à frente de calma e conforto.
eu. sempre eu. fui sempre eu. toda a vida eu.

eu, quando tive um colapso emocional. eu, quando passei mal no domingo por causa de mais uma dessas pessoas que você encontra acidentalmente e de repente já não é mais o mesmo. eu, quando consegui levantar, lavar uma louça, beber dois litros de água, ir à academia, retomar a vida e puxá-la pelo pescoço. eu que tive de espremê-la na parede e pedir que me devolvesse a paz. eu, sempre eu.

o que está e sempre estará entalado na minha garganta, no entanto, é aquilo que faço com todas as minhas dores. porque absolutamente tudo que passei e eventualmente vou passar só é ainda mais material para meu cérebro. eu vou digerir cada pequena coisa que me afeta e me queima e eu vou escrever sobre isso. pra minha morte ou vida, ainda não sei, tudo que posso fazer da minha dor é criar textos, formar ideias e dizer: eu felizmente sangro.

quando olho para todas as pessoas com as quais me relacionei e penso no quão bom tentei ser para elas, eu sinto muita paz. porque antes de tentar ser bom para alguém, eu fui bom pra mim. eu me concedi tempo e espaço. eu me dei abrigo e fui minha própria casa. então não tentar ser suficiente pra elas foi uma questão que eu sempre regurgitei e aprendi a lidar. hoje, sinto que sou e posso ser suficiente nas minhas relações porque, honestamente, eu sou tudo isso comigo mesmo. a boa notícia desse texto é que você também não precisa se esticar como um elástico para caber em alguém. você não precisa continuar dentro dessa casa escura onde você se alojou só porque acredita que não conseguirá sair para a rua e apreciar o sol. você tem a si mesmo, tão grande e maior que todas as expectativas depositadas nos outros.

domingo eu passei muito mal porque a gente nunca sabe ou entende que a dor pode vir e assentar na janela a qualquer instante. de qualquer pessoa. por qualquer coisa. daí que ela vem e quando olho para minhas mãos e me sinto sujo, eu respiro, paro e impreterivelmente agradeço: acontece que me conheço suficientemente pra poder escrever sobre tudo que me dói e tirar uma lição disso.

não é aquele velho clichê de que a dor ensina. ou talvez seja.

mas sempre que passo por um processo doloroso e que envolve um lance mais emocional, eu realmente penso: “isso vai fazer sentido daqui um tempo?” “isso tá me ensinando a ser melhor?” e vida que segue.

talvez tudo esteja meio confuso mesmo, mas eu só queria dizer que sempre tive e sempre terei eu. você sempre teve e sempre terá você. pessoas machucam, mas você pode e deve ser a pessoa que mais importa no processo de cura e reconciliação. você… só você. você vai se lembrar desse texto todas as vezes em que for abruptamente ferido por alguém. eu quero que você se lembre do quão bom, gentil e útil a si mesmo você consegue ser. do quão honesto, verdadeiro e sensível às suas próprias percepções você pode e deve ser. que você é muito bom e merece alguém igualmente bom. e que não te recobre suficiência porque suficiência é uma equação matemática: começa e termina em nós mesmos.

e, ah: faça da tua dor um texto. uma música. uma vontade de ser maior. porque eu estou e sou maior do que antes e eu realmente acredito que você também pode ser.

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