Yellow

quando você ama alguém, suas células começam a cochichar sobre quanto tempo sua íris vai demorar até dilatar. você o vê atravessando a rua para chegar à sua porta e seus olhos iniciam um carnaval: é o amor chegando até seus brônquios, passando por todas as suas sinapses, devorando cada medo que possa vir tomar conta de você.

quando o amor chega pra você, seu desejo é levar todos os sintomas para casa. você quer levar o seu amor para longe das multidões, você tem medo de deixá-lo perto de muitas pessoas, sua agonia em vê-lo ser maltratado aumenta: é egoísta, claro que é, mas ele também tem medo de muita gente, quando todo o mundo grita e não produz som algum.

quando você ama, a cama fica maior para caber. as xícaras são usadas por ambos, onde qualquer um pode encostar a boca, a véspera da alma, um pedaço do peito e da entrega.

você aluga um espaço dentro de si para que ele possa descansar dos problemas do mundo. é você e ele, longe de todas as tragédias cotidianas que acabam com os casais em plenas sextas-feiras.

quando você ama alguém ou está em estado de amor, todo o resto perde uma certa admiração. não que agora você tenha perdido o olhar colorido sobre o mundo. mas é que, agora, você tem um motivo para voltar pra casa. seus caminhos já não são sozinhos — embora não haja problema em ser. seu percurso tem a memória do amor esperando você para jantar, organizar as meias por ordem de cor, iniciar uma discussão.

o amor tem sabor de vida.

você vai saber que estará vivendo-o intensamente quando se pegar ouvindo alguma música no metrô da cidade e, então, seus olhos cintilarão. seu coração acelerado, o quente da sensação do amor te invadindo, você propenso a querer faltar ao expediente simplesmente porque precisa voltar para ele.

você vai sentir o amor abraçando suas órbitas quando se sentir sozinho em meio à multidão. porque só ele é capaz de sentir sua pele, o gosto macio da sua liberdade querendo pular a janela, o êxtase de quando vocês dois fazem amor e, de repente, já não são dois, mas um: unidos, unificados, uníssonos.

porque ele te remete ao sabor da vida explodindo pelos cantos.

porque ele viu em você uma cura para todas as vezes que o mundo foi tão mau que seria capaz de cortá-lo.

porque você viu nele uma cura para todas as vezes que o mundo te cortou.

porque ambos têm medo de multidões, metrôs cheios, lugares onde se fala muito, mas pouco se ouve.

porque ele te ouviu dentro de milhares de pessoas que gritavam, quando você mal abria a boca por medo — então, ele chegou até você, olhou no seu olho, pediu permissão para entrar.

a vida, em doses cotidianas, é isso: sua voz encostou na dele e suas células se conversaram. nenhum grito externo poderá apagar aquilo que chamam de amor.

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