para marília

quando eu te conheci você tinha acabado de chegar de nova york e eu me apaixonei. você tinha uma bota igual a minha. uma blusa igual a minha. uma bolsa igual a minha. você dava festas na sua casa e estava sempre sorrindo. você gostava de maquiagem e tinha uma irmã com um nome parecido com o meu. a gente assistia seriado juntas, assistia aos jogos da copa, e você continuava dando festas na sua casa. passamos o ano novo juntas.

você foi pra são paulo no ano seguinte fazer o curso que eu queria, e talvez eu tenha sentido um pouco de inveja, mas fiquei tão feliz por você. quando você voltou eu te apresentei pro meu chefe. você começou a sentar do meu lado e depois não e eu adorava te ver todos os dias. a gente tomava drinks quinta-feira à noite com mais alguns amigos. depois eu fui dar aula e você foi ser feliz e a gente continuou tomando drinks quinta-feira à noite. mas as festas na sua casa diminuíram.

você foi a primeira pessoa que apareceu quando eu tive um março complicado. você sentou do meu lado e prometeu estar sempre por perto. você ouvia tudo que eu tinha pra dizer com uma atenção que eu jamais conseguiria dar à alguém. você dizia que não sabia nada da vida, mas você sabe tanta coisa.

você me ensinou a sempre comprar roupa nova, e usar no dia seguinte. você me ensinou a diminuir minhas expectativas, tão mal fundamentadas. você me ensinou a lidar com imprevistos. você me apresentou pra nossa terapeuta. você fala o que pensa e o que eu peço, você briga, e você é feminista. você disse que eu ia adorar o livro da maria. eu li. você me pediu pra escrever sobre o livro da maria.

amiga, a maria parece a gente. ela nasceu no rio de janeiro uns quinze anos antes de você dar o ar da graça, mas ela toma remédio e pensa tanto. ela gosta de viajar e acaba indo sempre pro mesmo lugar. ela tem pavor de voar de avião e gosta de frio. eu não sei se ela passou na primeira prova pra tirar a carteira de habilitação. ou se ela sabe dirigir. ela adora o pai dela, mas tive a impressão de que em algum momento eles se afastaram. ela tem três irmãos mais velhos, mas acho que prefere um que se chama otávio. e parece que tá brigada com a irmã. mas elas se amam muito, dá pra perceber.

a maria gosta de comprar roupa, gosta de girls, e da lena dunham. teve uma hora que eu comecei a achar a maria um pouco trivial, mas aí eu percebi que tava fazendo com ela a mesma coisa que faço comigo. uma vez eu disse pra um professor que gostar do woody allen faz de mim uma pessoa muito pouco interessante. ele me olhou que nem você quando eu disse que tava pensando em ficar um ano sem comprar. ele também me disse que nem sempre a gente termina o filme com o amor da nossa vida, e eu entendi que o meu primeiro namoro tinha acabado. mas o seu filme é tão bonito.

a maria escreve pra TPM, e a gente adora revista. ela aparece na TV e também interrompe os outros sem parar, que nem eu e você depois de um cosmopolitan e meio, ou mesmo sem qualquer incentivo. será que ela também conta coisas que não pode. a maria é assim, fala da vida como se fosse cinema e me faz perceber que existe graça em sofrer dessa coisa nossa. que faz doer o estômago. que paralisa os músculos. que faz pensar tanto que dá sono. e a gente dorme mais do que devia.

a maria fala muito, assim como nós duas. e ela fala tudo. e depois de tantas coisas que achei em comum entre nós, eu percebi que faltavam algumas. a maria faz declarações para os amigos em letras escritas e eu nunca consegui fazer uma. aí eu decidi que faria uma pra você. mas você me pediu pra escrever sobre o livro da maria.