(re)tomada

no início havia a prosa e o cinema, e o teatro e a poesia. a prosa e o cinema habitavam, instalados. mas o teatro era emoção, e a poesia era hermética, e os dois eram um espelho do qual eu corria sem olhar para trás. mas a vida.

a vida bateu de frente e eu comecei pelo waly.

porque com o waly eu comecei em dois mil e oito. o waly me a apresentou à segunda culpa mais duradoura que já mantive na vida. porque eu dormi e dormi muito por mais ou menos uma hora e meia ou coisa assim até que tive que acordar. porque martes tá em peixes e eu te devoro. e o waly me apresentou ao desejo. mas àquele desejo desenfreado e escancarado, aquele desejo feroz e animal e antropofágico. aquele que diz que tenho fome de me tornar em tudo que não sou. que marcou mais que a tatuagem que hoje sustento no ombro esquerdo.

waly disse mais algumas coisas sobre máscaras e o outro e mais um pouco sobre fome, mas me disse principalmente para descansar. da minha obsessão. me prometeu que qualquer dia eu voltaria, mas que seria melhor esquecê-la. atendi.

descendo por todas as ruas, escolhi um desafio quase como deboche. escolhi o gullar. paradoxo em grego, rejuvenesça. poema sujo, trens, buenos aires e trechos de música da adriana calcanhoto. até comecei a assistir um documentário, mas parei no meio. porque ele parou também, não foi? e terminamos nosso relacionamento de forma civilizada, de maneira que ele agora dorme todos os dias de frente pra mim, perto do pizarro e do pitella.

aliás, os dois que acenaram de longe, direto da estrada empoeirada e me avisaram que o pessoa tava por ali como quem não quer nada, de smoking e cartola num café qualquer de lisboa (talvez comendo um pastel de belém, ouso). sentado e me esperando, acredite. me fazendo lembrar de qualquer coisa importante e me mantendo em pé. me pedindo pra pesquisar sobre metafísica e pensar no esteves. me contando que poesia pode ser remédio sem contraindicação. mas na falta de bula, os efeitos colaterais são desconhecidos.

acontece que não vim aqui pra falar sobre nenhum deles. mas dela. cinco parágrafos enrolando como os cinco ou quase meses que demorei pra chegar no fim da jornada. No Desejo. porque eu perguntei sobre ela assim como quem não quer nada, como quem achava que os dez chamamentos de setenta e quatro já haviam feito estrago suficiente e mal imaginava que em noventa e dois as coisas seriam mais ou menos como em dois mil e dezessete.

mas hoje eu sei. porque ela me pôs em contato com o que há de mais animalesco dentro de um corpo embalado à vácuo. dentro da casca que jurei que não quebraria e que por milagre ainda permanece ilesa. ele colocou entre aspas e depois finalizou com dois pontos e um parêntese e eu achei que seria qualquer coisa mais pornográfica e menos visceral. mais suor e menos carne e osso e veias. mas era tudo.

era eu e aquela noite que durou pouco e durou também um par de meses ou alguns anos ou uma vida, dependendo do parâmetro. era o espelho e ver-te e tocar-te e tomou-me e o instante e a eternidade. e o desejo e também O Desejo. foi como se estivesse lá, mas aqui. eu li em pensamento e depois em voz alta e a todo momento eu usava minha visão por completo, da única maneira possível. e meu corpo se contraia em espasmos involuntários e falta de fôlego.

penso que ele já sabia. penso que foi tudo calculado num grande complô daqueles dignos dos livros do oulipo que venho lendo. como um jogo de xadrez e o caminho possível do cavalo, ou como um romance que começa e depois começa de novo. penso que eu tinha que ler hoje, e só hoje. porque hoje eu entendo de desejo e Do Desejo e sei que sonhei o penhasco quando tinha o jardim aqui ao lado. embora, distraída pela espera, ainda pense.

por que haverias de querer minha alma na tua cama?

mas me responde em poesia.

porque me encontro hermética, e a prosa, como percebes, já não mais me basta.

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