saturno retrógrado

gostar de astrologia é complicado. quando pergunto o signo de alguém tenho a impressão que a pessoa passa a me enxergar com longos cabelos cacheados, lenço com moedas nas bordas amarrado na cabeça, unhas postiças, sentada em frente à uma bola de cristal. um cheiro forte de incenso começa a invadir o ambiente. eu insisto, porque gosto da ideia de tentar saber o que vem pela frente. ou soltar um orgulhoso “por isso!” mesmo sem entender muito bem o que estou afirmando.

eu sou taurina. e ter o sol em touro é muito legal. gostamos de viajar, comer, gastar dinheiro, investir em bens materiais, comer, somos carinhosos, atenciosos. diz até que somos sensuais. e amamos comer. e comer bem. e gastar com comida. quando eu tinha treze anos era cruel. sem dinheiro na carteira e castigada pelas mudanças da adolescência, não conseguia me enxergar como uma nativa do meu signo, apesar de ciúme e possessividade serem duas grandes constantes. hoje, observo com alegria a carapuça começando a servir em alguns pontos.

tive muitos amigos do signo de áries. tive, no passado. provavelmente porque são arianos. me preparo, com calma, para amar minha prima mesmo quando ela estiver passando pela adolescência. taurinos eu amo fácil. talvez por ser egocêntrica, talvez por cumplicidade astrológica. gostamos das mesmas coisas, entendemos o comportamento um do outro e às vezes é quase como se não precisássemos dizer nada — como se dividíssemos a mesma casa.

aos que nasceram depois do dia 21 de maio, perdão. não sei lidar com nativos do signo de gêmeos. ao meu afilhado de coração, desculpas adiantadas. brigaremos muito quando eu decidir te levar pra conhecer a disney. brigaremos durante a viagem. você será inconstante e mudará de ideia, e eu não sei lidar com isso. você vai dizer que gosta muito de mim, eu vou comprar um cachorro quente, e quando voltar, talvez você diga que me odeia. prometo respirar fundo. sim, o kanye west nasceu dia oito de junho.

minha mãe é libriana. e que sorte! recebo com carinho (e de vez em quando pouco interesse, confesso) as intermináveis ligações com crises existenciais do tipo comprar o sapato azul ou o preto. ganho em troca infinita paciência. ganho em troca tantas coisas. ganho em troca a melhor amiga do mundo, que ainda posso chamar de mãe quando precisar de colo. acho graça no drama canceriano, gosto de algumas leoninas, ando apegada às aquarianas, e tenho calma de sobra pra lidar com todos as pessoas que nasceram entre meados de dezembro e meados de janeiro.

não satisfeita com o sol em touro, há alguns meses fiz meu mapa astral grátis no personare. descobri um ascendente em aquário. a isa estuda astrologia e explicou que o ascendente é um personagem, como nos colocamos pro mundo. quanto mais somos nós mesmos, menos somos o ascendente. então quando contrariei demais, fui muito racional ou teimosa, desculpa, estava escondida no meu ascendente. quando faço muito drama é porque minha lua é em câncer. ah, meu vênus é em peixes, o que ajuda a produzir a novela mexicana que é minha vida amorosa.

semana passada acordei chateada. trabalhei muito. passei por situações que alguém com um bom senso de oportunidade escreveria num papel e venderia como filme. não faria muito sucesso nas salas de cinema. enxergo alguém sentado na fileira da frente dizendo não-é-possível-isso-não-acontece-na-vida-real. queria uma explicação. divina, mística, racional, o que fosse. descobri que saturno tava retrógrado. andando pra trás há um bom tempo. e que naquela semana — logo naquela semana — ele tinha resolvido estacionar. e que, se tudo desse certo, dentro de alguns dias ele já estaria retomando seu curso natural. andar pra trás não deve ser coisa boa. tudo que vai, volta. aguardando a retomada do seu passeio, saturno.

mas não sei se alguma coisa que escrevi aqui faz sentido. gostar de astrologia é complicado.

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