sem título, 2017

coloquei os pés na cidade numa quinta-feira fria e chuvosa com uma amiga, duas malas, pratos, livros, maquiagem e algumas roupas. aqui dentro, quase tudo branco. como o cubo ou a tela. coloquei as malas no canto, forrei a cama e olhei pela janela. o sol das cinco descia quente pintando o edifício viadutos de laranja. no ponto de ônibus, um homem chupava um sachê de ketchup, que, em poucos segundos, sem cerimônia, resolveu cuspir muito perto dos nossos pés. chegamos, talvez.

mas precisava chegar com meus próprios pés e no dia seguinte repeti um trajeto traiçoeiro. dessa vez, nada. andei mais um pouco e o frio e a garoa castigavam, mas não havia sangue. não mais. eu já sabia. uma foto ou duas denunciavam e deus e o mundo pareciam saber que, provavelmente, eu tinha chegado.

no sábado, cada coisa em seu lugar. uma ou duas suculentas, me apresentar para o porteiro, comprar frutas e leite pro café da manhã. um chuveiro novo e lâmpada para o abajur. um passeio pelo bom retiro e o branco começava a ganhar cor. hoje caminhei pouco, amanhã caminho mais. domingo feira, café na padaria. metrô.

desci as escadas rumo à liberdade e um vídeo agora perdido dá conta de que foi mais ou menos ali que meu joelho começou a doer. não dobrava mais. em um estalo meu joelho enrijeceu, e cada próximo passo era mais dolorido que o anterior. um dia ouvi que não era a caminhada, mas o obstáculo. não parei. desci ladeiras, subi, desci mais um pouco. a dor era absurda, mas são dois os pretextos — um curso e a caminhada. e um terceiro oculto. pode ser que eu demore pra chegar.

fez muito frio e a dor se repetiu por três semanas. resistiu à pronto-socorro, remédio, compressas geladas, yoga etc. mas eu sei bem, não houve repouso. ao todo são oito plantas, quatro almofadas, um tapete, utensílios de cozinha, uma mesa de canto que montei sozinha, um pequeno espelho. foram alguns museus, galerias, centros culturais, litros de café e bolos muito caros e pouco satisfatórios. aquele sorvete, um hambúrguer por semana e religiosas idas à feira de domingo e terças-feiras de copan e tacos em dobro. ladeira porto geral rua josé paulino liberdade e daiso japan quando tem visita.

encontros inesperados, bons, ruins, pro-vi-den-ci-ais — faltam alguns. tantos prédios que subi até o topo com a esperança de poder olhar de cima e entender qualquer coisa que a falta de altura falhe em comunicar. algumas escadarias que desci, degrau por degrau, devagar, pelo simples prazer de sentir a dor e poder dizer erguendo a cabeça — não haverá repouso, hei de chegar. como que declamando qualquer coisa que nunca vou escrever. caminhar é pertencer e me apropriar, penso enquanto desço a rua augusta depois do cinema. navegar é preciso, viver não é preciso.

o joelho cedeu e a dor passou com o mesmo mistério que veio. não existem mais desculpas, ainda que nunca tenham existido. sou cumprimentada com um sorriso no café da cesário mota, da nestor pestana, e da general jardim. nesse último, passo uma vez por semana e bato papo e compro mais uma planta e em muito breve serão nove ou dez ocupando esse balcão que por pouquíssimo tempo esteve branco. converso com o porteiro sobre cerveja e a caixa da padaria que reclama não ter folga. na feira, sou a menina na barraca da melancia e na do peixe. um homem deitado na calçada me chama e pede um sorriso, diz que sou linda e que carregaria minhas sacolas, mas estamos indo em direções opostas.

na outra ponta da avenida, dentro da padaria do olivier, é ele próprio que, ao me ver no meio da multidão, caminha em minha direção, pesa as mãos sobre os meus ombros, abre um sorriso largo e exclama com seu sotaque por detrás dos pequenos óculos coloridos: “voltaste!”.

acho que sim.

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