10 COISAS SOBRE EMPREENDEDORISMO (E VIDA) QUE APRENDI NO CHILE

Ano passado passei quatro meses no Chile, em dois bootcamps de empreendedorismo. De março a maio fui para participar e dar um boost em habilidades que até então me eram nulas, como vendas e programação. De outubro a dezembro fui para organizar o primeiro bootcamp de empreendedorismo totalmente voltado para o público feminino, chamado Athena.

E agora, em 2 de abril de 2016, recebo em BH a visita do Skinner, o "anjo da guarda" que me fez amadurecer dez anos profissionais em quatro meses, e vamos fazer por aqui a Exobase, evento em que participei em novembro de 2014 e onde, pra mim, tudo começou.

E tome uma foto dos meus últimos dias no Chile em dezembro passado, só pra você entender o quanto esse texto, que eu publiquei em meados de maio de 2015, é importante pra mim — e pode ser tão importante pra você também.

Salar no deserto de San Pedro de Atacama

Agora vamos lá, sem mais delongas, para a lista que dá título a esse texto:

1. Você só precisa ser você pra fazer amigos

Sou dramática pra caramba, então pra passar dois meses no Chile eu tive que fazer uma festa de despedida. Na realidade, as pessoas se despediram de mim mesmo, porque eu voltei outra pessoa, mas isso não vem, agora, ao caso. O que vem ao caso é que eu reuni meus amigos preu poder ir embora com um pedacinho de todos, porque eu morria de medo do que eu iria encontrar.

As pessoas vão gostar de mim? As pessoas vão me tratar bem? As pessoas vão me querer por perto?

E eu nem me incomodava com o contrário porque eu me conheço, eu gostaria das pessoas, trataria bem as pessoas e iria querer as pessoas por perto, mesmo sem conhecê-las.

Mas mesmo com o coração aberto fica difícil, às vezes, entender que existem outras pessoas que, assim como você, vão aceitar o outro do jeito que ele é.

Lá no Chile eu descobri que não é preciso maquiar personalidades ou gostos para ser aceito, porque quem tem que te acolher, quem tem que gostar de você, vai gostar desse jeitinho mesmo. Isso me serviu pra construir amizades, mas é a mesma coisa para outros tipos de relacionamento, como o amoroso, por exemplo. Não mude pelos outros, porque você vai conquistar as pessoas exatamente do jeito que você é.

2. Vinho chileno não dá ressaca

Item autoexplicativo.

3. Você só precisa de amigos, vinho chileno e 40m quadrados pra unir o mundo pela paz mundial

Sempre gostei de receber pessoas em casa. E não só duas ou três: muitas pessoas. Quando morava em uma casa grande, ficava bem chateada quando não tinha gente por aí, zanzando pelos cômodos. Minha grande alegria era hospedar amigos ou amigos de amigos que precisavam fazer algo em BH.

Depois me mudei para a casa dos meus primos e, em seguida, para a casa das minhas amigas. Nos dois casos vivi em apartamentos bem pequenos, que acomodariam muitas pessoas caso a gente colocasse todos os móveis nos corredores. Portanto, passei mais de quatro anos sem fazer as festas que eu gostava.

Chegando no Chile, tive um apartamento ainda menor. E descobri que se é preciso colocar todos os móveis no corredor, que seja. Ou, pelo menos, a mesinha de centro. Ela vivia no corredor, e todo sábado eu tinha 30, 40 pessoas de 11 nacionalidades ou mais tomando vinho e dançando na minha casa. Incomodei os vizinhos e recebi ameaças de multa do porteiro, o que me transportou no tempo: aos 28 anos, me senti com 18. E vi que eu sentia falta das bagunças mais do que podia imaginar. No fim do bootcamp ganhei o prêmio de melhor dançarina. Minha sala de 40 metros quadrados foi a melhor pista de dança em que já pisei.

4. Disciplina é a chave

Sonhar alto é legal mas, sem disciplina, um sonho será só um sonho. Pra sempre.

Eu era mestre em querer as coisas e esperar que elas caíssem de paraquedas no meu colo, pela simples constatação de que eu as merecia. Por exemplo: sempre disseram que eu escrevo bem, então eu vivia esperando pela grande ideia surgir no meio da noite e, depois de pensar bastante nela, começar a escrever um livro.

Aí um belo dia você acorda e percebe que nada vai acontecer por mágica, porque até a mágica dos mágicos não passa de uma ilusão (filosófico isso). Se eu não sentasse a bunda na cadeira e começasse a fazer alguma coisa, nada sairia.

Conclusão: um projeto que estava intocado há mais de dois anos (começado em 2010) começou a ganhar vida e recebeu um gás enorme nos dois meses em que eu estive lá. Mas não foi só isso: a partir de então, não deixo nada acumular. Vasilhas na pia têm carência de no máximo uma hora após o uso para serem limpas, 12 horas pra serem guardadas. Se um e-mail vai me tomar menos de 2 minutos para ser respondido, ele não ficará como não lido na caixa de entrada.

E por aí vai.

Pra te ajudar um pouquinho, aqui listo as quatro ferramentas da disciplina que aprendi com o livro “The Road Less Traveled”, pra que você já vá se familiarizando com os termos da única coisa que é realmente capaz de mudar a sua realidade:

Adiamento de gratificação
Aceitação de responsabilidade
Dedicação à realidade
Equilíbro

Se você não quiser esperar (eu espero que não queira) pra saber o que é tudo isso até eu falar, vem aqui.

5. Não saia da cama se não for pra ser incrível

#BeBacon é um conceito que eu implementei pra vida. Está no Book of Awesome e significa, simplesmente, ter vontade de fazer as coisas melhores, todos os dias.

Como diria Mário Sérgio Cortella, "capricho é fazer o melhor que você pode, nas condições que você tem, até ter condições melhores de fazer melhor ainda". Ser bacon é ter capricho, seja na sua vida pessoal, profissional ou no jeito com que você trata o mundo ao seu redor.

O mundo está cheio de pão, de gente sem graça, fazendo mais do mesmo sem nenhum questionamento. Se você quiser ser pão, se poupe tempo, energia e dinheiro, e fique em casa! Mas se você quiser ser bacon… o mundo é seu.

6. Você não sabe o que é ser empreendedor até empreender

Sempre fui uma pessoa muito feliz e realizada com carteira assinada, sem fazer poupança por crer no poder do FGTS, sem temer perder o emprego porque eu teria o seguro.

Sempre fui essa pessoa até não ser mais, até ser mordida por um bichinho escroto que me falou que a vida ia ser mais difícil, eu ia ganhar bem menos grana no começo (um começo que pode durar anos, inclusive), mas que eu ia ser mais feliz e realizada.

E cá estou, empreendendo. E com uma qualidade de vida muito superior à época em que eu era funcionária, mesmo tendo menos dinheiro.

Abrir CNPJ não é pra todo mundo. Não vou tentar evangelizar ninguém na cultura do empreendedorismo porque sei que existem perfis diferentes, e nenhum empreendimento dá certo se todo mundo ali na equipe quiser abrir empresa. Do contrário, cada um estaria fazendo sua própria empresa e ninguém jamais teria um time.

O balanço entre os perfis é necessário, mas isso não significa que o funcionário também não tenha a alma empreendedora. Não tem aquela de “se você não trabalhar pra você você vai estar trabalhando pelo sonho de outras pessoas”. Na real, tem, mas não em tom jocoso. Em tom de: se você não trabalhar pra ajudar o outro em seu sonho, ele nunca conseguirá sozinho, e você pode ser tão dono do sonho quanto ele. Duro mesmo é trabalhar pra gente que não tem propósito algum em situações onde você nunca sairá do mesmo lugar nem em cem anos de trabalho… Mas essa é outra história.

Esteja você no perfil empreendedor-abrir CNPJ ou empreendedor-carteira assinada, você só vai saber que é alguma dessas coisas quando se arriscar. Pode ser que tente e veja que não é sua praia, o que é ok. Não ok é ficar parado por medo de sair da zona de conforto, mesmo sentindo que você seria muito mais feliz fazendo outra coisa.

7. Não seja "o fodão". Seja "o antifrágil".

Não é necessário que você saiba tudo sobre todas as coisas na hora de empreender, e sim que aprenda a ser perene aos desafios do tempo.

Ser antifrágil é, inclusive, ser perene aos desafios da vida. É conseguir permanecer de pé mesmo com furacões te cercando por todos os lados. Uma noite, ano passado, troquei mensagens com uma amiga que me disse que está muito feliz, mas que mesmo quando ela fica bem triste ela consegue tirar disso alguma energia para fazer o que é certo, o que a faz bem. Esse é um desenho do conceito de antifrágil.

O que, inclusive, não significa que você não deva nunca mais ter fragilidade ou demonstrar fragilidade, porque você deve. Só tem que aprender quando você é vítima e está fazendo alguma coisa quanto a isso ou só está se fazendo de vítima porque isso é bem mais cômodo.

8. Tenha no seu time pessoas mais inteligentes que você

Breaking Bad (but Good haha)

É muito importante construir times perenes, antifrágeis, que tenham figuras que sejam, de longe, bem mais inteligentes que você.

Isso não quer dizer que você tem o direito de ser completamente imbecil; pelo contrário: a regra da pessoa mais inteligente tem que valer pra todos. Na minha atual sociedade (que também poderia ser chamada de casamento), eu e Cínthia nos completamos. Tenho alguma experiência no que ela não manja muito e sou completamente tapada no que ela é foda. Assim, a gente consegue alinhar os pensamentos, as especialidades e, no fim, fornecer um produto com a maior excelência possível.

Além disso, eu quero sempre ser tão foda quanto ela é (jornalista e psicóloga é difícil de bater, hein!), o que me faz pensar que meu trabalho rumo ao que eu consigo fazer de melhor pode ir ao infinito e além.

9. Não tenha medo de bater em portas…

… afinal, se você não bater, elas continuarão fechadas do mesmo jeito.

Eu acho que essa frase é bem autoexplicativa, mas se você precisar ler um pouco mais sobre criar coragem pra falar o que você quer — e conseguir o que você deseja, esse texto sobre como eu bati na porta da Sheryl Sandberg com uma carta vai te ajudar muito.

Não bati na porta pedindo emprego, não bati pedindo favor, mas mesmo assim bati na porta. Pude contar com ela na jornada e agora, pelo menos, ela sabe quem eu sou. Vai que um dia precisa de alguma coisa por aqui, algo em que eu possa ajudar?

É o que eu sempre digo: se estamos a seis pessoas de distância de qualquer contato no mundo, eu mitei demais estando a zero pessoas de distância de uma das minhas principais referências empreendedoras e a uma sala de distância do Mark Zuckerberg. #zeraavida

10. No fim do arco-íris tem ouro. Mas quase ninguém tem paciência de caminhar até lá…

Só se dá bem quem se arrisca, quem tenta descobrir novos caminhos, simplesmente porque os velhos caminhos não estão apenas tomados como, também, é possível que você enfrente um bom congestionamento dentro deles. Afinal, é muita gente tentando ir por onde muita gente já foi. É seguro, é confortável.

É errado? Não! Mas arrisco dizer que também não é tão divertido e nem tão insanamente emocionante.

Quando chamada a ir pro Chile, tive uma escolha. Poderia ir e ver no que estava me metendo ou poderia declinar o convite e ficar. Seria bem mais barato, acredite. Também pouparia um montão de problemas (e descobertas) emocionais que eu tive durante o processo. Gastei uma grana preta. Chorei feito uma louca. Mas cada centavo foi muito bem pago, e nenhuma lágrima foi em vão.

No Chile eu fiz amigos, bebi vinho chileno, dei festas em casa (como não fazia há anos!!!), aprendi a ser disciplinada, a ter gana por ser bacon, entendi que tenho alma empreendedora, que tenho potencial para antifragilidade, que meu time é composto por pessoas bem mais inteligentes que eu. Aprendi que as portas se abrem pra quem bate, eventualmente (a do exemplo que usei nesse texto — e na apresentação — demorou oito meses para mostrar a primeira frestinha).

No Chile eu pude ver os pores-do-sol mais lindos, morar na praia (um grande feito para uma pessoa de Minas Gerais), me descobri tendo facilidade para construir algumas poucas linhas de código (e eu que achava que linguagem CSS era um bicho de 18 cabeças), aprendi a vender e a negociar, aprendi a amar o que estou fazendo e, acima de tudo, a respeitar a comunidade, o ecossistema em que me insiro.

No Chile entendi que minha missão na vida é ir pelas estradas por onde ninguém está indo e ver, só de curiosidade, o que é que tem lá. Não nasci pra parar, nasci pra estar em constante correria até o final dos meus dias. E também aprendi o conceito de travel hacker, e isso significa que eu vou continuar buscando estradas por aí mais rápido do que você (ou eu mesma) possa notar. Mas prometo que venho aqui contar tudo que estou aprendendo.

E, na real, espero que você também se arrisque. Se precisar, conta comigo!

"Até logo, meus amigos. Boa noite, vizinhança…" — último dia de bootcamp, em 7 de maio de 2015
***

Spoiler alert: toda essa estrada, como eu disse, começou num evento Exobase. Aqui em BH, minha cidade, ele será realizado em 2 de abril, e você pode ler mais sobre ele aqui.

Depois, ainda em abril, o evento passa por Curitiba, Brasília e Florianópolis. Mais detalhes pelo meu e-mail (lais@exosphe.re) ou na página oficial do evento.

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