Geração Mamonas Assassinas

Júlio Rasec, Samuel Reoli, Dinho, Sérgio Reoli e Bento Hinoto: eu sei que vou amar por toda a minha vida

Amanhã de manhã completam-se 20 anos que eu acordei em um domingo de manhã e vi minha mãe e a Eliana vidradas na televisão. O que aconteceu?, perguntei. “O avião dos Mamonas caiu ontem”, elas disseram. E, para uma criança de 9 anos, isso não era realmente uma ameaça. Caiu, liga de novo o avião, sobe e segue a vida. Mas aí, alguém (ou a televisão ou uma delas) falou: “morreu todo mundo”.

Há quem diga que morreram no “momento certo”: jovens, no auge da fama, com recorde de vendas que ainda não foi batido por nenhum artista brasileiro — e que provavelmente nunca será, em tempos de acesso à música cada vez mais independente da compra de um disco.

Mas eu não.

Eu acho que, se estivessem vivos, os Mamonas teriam surpreendido a cada disco, e seriam muitos, tamanha a genialidade daquele primeiro. Você sabia que a maioria das músicas que ainda são tocadas à exaustão em festas de formatura, casamento, aniversários e bloquinhos de carnaval foram feitas em poucas horas, no chão do estúdio, entre uma gravação e outra?

Acho, também, que ninguém teria se cansado deles. E imagino se eles teriam filhos, e o que os filhos deles estariam ouvindo. “Meu pai só faz música de besteira, por isso eu só ouço coisa boa, tipo Restart”, falaria algum deles, mostrando que a piada é mesmo coisa de DNA.

Os Mamonas foram a minha primeira banda favorita. Tive o privilégio de ver um show deles ao vivo, chance que eu perdi com Amy Winehouse, minha primeira cantora favorita…

Por 20 anos não há um 2 de março que eu não me lembre do 3 de março e de tudo o que aconteceu dali pra frente. O importante, hoje, não é apenas reviver a última memória da banda, tão dolorosa, mas também exigir respostas das autoridades para o que realmente aconteceu naquela longínqua noite, o que tirou a vida daquelas pessoas — e a vitalidade de um país inteiro.

Por 20 anos eu me lembro, sempre, de uma música que foi feita para outros artistas que morreram lá longe, mas que pra mim cabe muito bem no contexto da minha própria perda:

“And the three men I admire the most
the father, son and the holy ghost
they caught the last train for the coast
the day the music died”.

Eu adoro Beatles, mas nunca os vi. Também gosto de Bowie, de Dylan, Thin Lizzy, de Legião Urbana. Paralamas do Sucesso, Titãs, Biquíni Cavadão. Raimundos. Gosto de tudo isso, e muito mais. E tenho certeza que gosto por muitas razões, mas a maior de todas é por ter conhecido, primeiro, a maior banda do mundo.

A mais divertida, genial, tão grandiosa que não coube nesse planeta, teve que ir embora.

Eu sou da geração MAMONAS ASSASSINAS. Sempre fui e sempre serei. Com 9 anos, com 29 anos e com todos os anos que ainda me restarão antes de encontrar meus ídolos de novo e poder exclamar: “finalmente! Já estava mais do que na hora de recomeçar a baixaria”.