Escrito menor
A vida não é sobre cores.
É sobre Trump e chacinas, violência doméstica e feminicídio, é sobre abuso e poder. A vida parece sempre discorrer sobre a insistência dos crédulos em um lugar comum feliz, cheio de respeito e harmonia enquanto o ser humano desmorona e descumpre sua parte no contrato. A ganância desmesurada, o medo recorrente: medo de tudo, medo da vida, medo da morte, medo da dor, medo de sentir.
A estrada é sinuosa, sem acostamento, e sinais de fumaça povoam o horizonte: não somos natureza, não sentimos natureza. A arte, por sua vez, é uma vergonha a ser despejada em algum lugar escondido e nossos laços, por não servirem aos interesses menores, precisam ser desfeitos. Não se tem identificação com o absurdo, há um descompasso eterno que habita nossa jornada. A felicidade, há muito tempo, me deprime de tantas maneiras, que me sinto encolher só de falar dela. É uma obrigação desmesurada, associada ao ter, ao possuir, ao conter, ao suprimir. Pessoas apagam a própria existência: voos chocantes aos 11 anos, sufoco planejado, choro da família. Daí vem o silêncio. Não sei como se pode julgar um comportamento assim, em face ao absurdo não há razão para ficar, também não há razão para partir.
A vida, definitivamente, não é sobre cores. Neste escrito afogado silencio o lado brilhante de se ver, silencio a beleza que eu poderia encarar. Mas silencio consciente e com a razão de me apegar ao cansaço deste peso imenso de existir, com o direito de fechar os olhos e ouvidos aos benditos e aos risos.
Hoje toda metáfora me é cinza.
