De amor e de náusea

Rogo silêncio na cama enquanto a cidade ainda crepita ruidosa. Guitarra, teclado, pneus, buzinas distantes amplificadas pela dor de cabeça. A gata mia à porta trancada e busco forças para levantar e fazê-la entrar. Dói um pino inflamado no nordeste do crânio. Penso em gelo, serrote, vento na cara, dedo na garganta.

Esta cidade suga a energia vital, o élan e até a preguiça. Uma metrópole incansdescente, desgovernada. Troquei o cricrilar dos grilos por um amontoado de sons densos que, em dias bons, até parecem ondas quebrando na beira da praia. Rejeito a autoimolação e tento mudar a voltagem interna.

Como um mantra, entoo a lembrança da menina etérea de blusa cor-de-rosa e saia longa azul. Os lábios pintados de grená, a tiara no alto da testa. Rememoro o perfume doce enquanto me abraçava - em meu peito percebi que era tão pequena que poderia quebrá-la ou carregar no colo. Rescendia a flores e ervas quando lhe roubei um beijo, e voltar a esse instante tem efeito analgésico, quase antiofídico.

Bocejo de olhos fechados. Com os nós dos dedos esfrego as pálpebras e vejo caleidoscópios em preto e branco.

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