Três tempos

Três Tempos

Há três dias, na feira, comprei um abacate bem maduro. “Esse é para comer hoje, freguesa”. “Sim, sim, quero bem mole, de amanhã não passa, obrigada”.

Eu jantaria guacamole com pão se, infelizmente, não me encontrasse contigo e fôssemos a um restaurante perto da sua casa. Naquela noite, às sete, o teu telefone tocou longamente. Você atendeu com olhos secos, voz murcha e pigarro. “O pessoal vai tocar aqui em casa. Amanhã pode ser? ”. “Ah sim, claro, combinado”. Dormi de imediato em frente à TV, numa inesperada tranquilidade. Na noite seguinte repeti o telefonema, ainda que com a angústia de soar ávida e precipitada. Você atendeu com voz jovial: “oi. Aparece aqui se estiver a fim”. Cheguei ao seu portão às nove com um vaso de girassol, petiscos para os gatos e uma garrafa de vinho caro que só eu bebi. O coração sobressaltado e o tatear nas palavras ornamentou o jantar silencioso. Comemos, limpamos os pratos, afagamos os três felinos, tomamos banho, tiramos as roupas para dormir e, sem ruídos, risos, abraços ou boa-noite, adormecemos.

Amanheci em ausência revolta, corada de sangue pelando, o corpo doendo onde você tocou semisonâmbulo. As farpas ditas e as caladas à véspera fincando na pele a cada passo. Dezenas de pequenas navalhas afiadíssimas. A condescendência de coração grande e ébrio da última noite latejando como ressaca. Muitas taças de vinho, mudez e meu mar revolto rebentando furioso na areia. Eu em sua cama gigante à deriva, sem bússola ou leme.

Rememoro o beijo de despedida com gosto de Listerine, mecânico e asséptico. O sexo árido. Tudo o que você não é. O avesso que sou só para te agradar. Quem é sua namorada? E então quem sou eu?

A tarde calou. A noite agonizou, ensurdeceu, desfez os laços dos dedos e votos. Acordei com fome e taquicardia na alta madrugada. Nenhuma notícia sua. E então o mantra repetido à exaustão: não telefonar numa hora muito inadequada — posto que todas seriam embaraçosas. Havia outro: ser emocionalmente autossuficiente. Ouvir tua voz alijada, vacilante e embaladora seria a fraqueza fatal. Mordo os lábios até sangrar, olho para o teto, escrevo a você uma mensagem sucinta de fim. Meu fim. Término: autoria de Débora Roque, 22 de abril de 2013.

A luz da cozinha quase feérica feriu meus olhos. Na fruteira, o abacate passado estava já tomado por drosófilas.

A mensagem não foi recebida na hora. Nem pela manhã. Nem seis meses depois. Como antevendo cada um dos dias seguintes, sentei na cadeira da mesa, descasquei o fruto e o piquei em vários quadradinhos. Comi com colheradas vorazes de açúcar para não sentir gosto amargo e escurecido de atraso.