Vestígios

Todos os dias ela se olha no espelho à procura de um fio branco na cabeleira. Ainda não.

Bigode chinês, código de barras, pés de galinha. Nada disso.

Mal de Takotsubo, hematomas sem razão aparente, perda de apetite. Nem vestígios. A sua resiliência física é imbatível, não há mal que deixe rastros.

Não vê ninguém há uma semana. Tampouco abre as cortinas das janelas. A poeira da casa aumenta, não espirra, mas morre de asco. Os cães precisam comer. A grama já tem de ser cortada. As flores pedem água. Os alimentos da geladeira estragaram e precisa jogá-los fora. O gato exige atenção, a roupa suja acumula no cesto. Deve pôr o lixo para fora. Recebe como um zumbi a assistência técnica para consertar a Internet. Ano-novo: esperemos o próximo.

Não pode jantar pipoca de microondas de novo. Faz uma sopa de tubérculos, ainda que não consiga se manter de pé. Dá parabéns aos amigos do Facebook que não procura há uns oito anos. Entrega o trabalho no prazo. Faz quatro refeições por dia. Se descabela, mas logo doma a juba e a língua. Pede desculpas. Lixa as unhas, passa hidratante no corpo todo. Lê poesia e sublinha os trechos mais bonitos para reler depois.

Não se lembra de quando rezou pela última vez, e muito menos de quando gozou. O namorado está fazendo uma longa viagem. Gostaria de se afundar na tristeza. Beber gin com benzodiazepínicos. Não tomar banho. Deixar os amigos preocupados com a falta de retorno. Pensa em tudo isso num quarto escuro, sente as lágrimas salgadas na língua. É fácil sucumbir. Sorri.

O celular apita. Se levanta vagarosamente, veste um macacão novo, passa maquiagem e um perfume cítrico. Encontra quatro amigas, bebem vinho branco e comem ostras. Todos a acham bonita. Ela pensa que é melhor não falar sobre o abandono. Os dias sem motivo, o desespero, a alma cinza. A tragédia oculta.

Gargalha. Sai luz de seu rosto. Ninguém desconfia de que ela bem poderia ligar o gás. Tomar uma caixa de tranquilizantes. Cortar os punhos. Pular da janela.

(Foto : Laís Alcantara /Graffiti : Grazie)

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