Sobre o Apego e Desamor em Tempos Modernos

Estou a exata meia hora sentada na frente do computador encarando um layout duvidoso no illustrator. Bon Iver no spotify faz minha trilha pelo fone.
É inverno, e parece que um dos mais rigorosos. Ainda mais aqui, uma cidade serrana.
Faz uma semana que tudo aconteceu (não sei ao certo, perdi a noção do tempo). Em nove anos morando sozinha, é a primeira vez que preciso realmente voltar para casa dos meus pais.
Sem um puto no bolso, eles compram meus cigarros, ouvem todos os dias minhas lamentações. Sem amor próprio, sem dignidade, sem filhos, sem casar, sem emprego fixo, sem perspectivas. Mas com um grande E AGORA?
Eu com 30 anos, voltei para casa dos meus pais, com algumas roupas, dois pares de sapatos, uma câmera, um ukulele, um celular, e o que é mais impensável e maluco pra eles, minha cachorra (apresento a vocês Lilica). O resto ficou nosso apê.
Hoje tentei voltar para casa, mas ela está exatamente como tinha deixado. Vazia, escura, ainda com todas as fotos penduradas, as lembranças ecoando por cada milimetro do chão, por cada poeira na estante. A cama ainda desarrumada, o armário vazio… Não consigo ficar sem me debulhar em lágrimas…
Faz 1 semana, é normal, dizem, logo logo você está bem, dizem.
Nessas aventuras noturnas, li um artigo onde uma psicologa dizia que só nos tornamos mulher depois de uma grande decepção amorosa, outro dizia que o luto é real, é como se a outra pessoa tivesse realmente morrido e outro que dizia que a dor de uma separação é comparável a sofrer um acidente de carro todos os dias. Ironia não, logo eu que tenho pavor de acidente de carro.
De fato ninguém morreu, não é uma calamidade pública, surto de doença misteriosa, guerra, bombas, ataques, violência, zumbis, dinossauros, dragões ou algo que realmente mereça a atenção de alguém que não seja eu mesma.
É alguém só indo embora, abandonando o barco.
Parafraseando meu pai:
“ Imagina que está em um bote com alguém, remando e percorrendo um caminho. O bote fura, a água começa entrar; entre um desespero e outro não se sabe o que fazer, então o outro abandona o bote, e sai nadando pelo mar alto. Você fica no bote, e talvez a melhor coisa a fazer seria tampar o buraco não? Então você tampa o buraco e segue o caminho. O bote para de afundar a água para de entrar.”
É esse alguém decidiu seguir outro caminho, dessa vez não ao meu lado.
Por que não somos treinados a lidar com separações? É tão normal, vive-se, fazemos planos, a vida não encaixa mais? Então acabou, bola pra frente, tampa o buraco e vai, procura outra companhia pra remar junto, ou não também.
Seria perfeito não? sem crises, sem dor, sem sofrimento. Por que essa necessidade de conforto e carinho partindo de uma pessoa só, e esperar que vivamos felizes para sempre navegando por aí, quando na verdade não existe esse pra sempre.
Queria ter já ensaiado essa parte da minha vida, porque nunca previ que isso poderia acontecer, quer dizer sim, mas não agora, não comigo. Oi Universo você tem certeza que a essa realidade que estou é a certa? Tem certeza que isso é o certo?
Você precisa de auto estima, disseram, precisa se valorizar, disseram, não lembro quando acordei e percebi que já não te amava mais …ele disse.
Pronto, a vida passa pela frente. Eu analiso cada detalhe, cada fala, cada ato. O que eu podia ter feito? O que não devia ter feito? Como devia ter feito?
A vida está aí pra provar que nada é pra sempre sem luta. Eu parei de lutar? aceitei a realidade e deixei acontecer?
Não se pode mudar o que aconteceu, por mais que queira ainda não inventaram a tal sonhada máquina do tempo. Ninguém sabe como voltar no tempo… Mas quer saber? ainda bem… Senão todos iam voltar, erros não iriam acontecer, aprender o certo ou o errado, o suportável ou tolerável, o que fazer. A vida perderia a espontaneidade, tudo ia ser feito e refeito milhares de vezes, e mesmo assim ainda não sairia do jeito que se quer.
Ah o martírio, como adoramos assumir culpas e sofrer, com todos os sinais na cara de que tinha algo errado. Ignora-se, anula-se.
Não é necessário achar culpados. Existem duas pessoas em uma relação, não quer dizer que os dois são culpados, mas por motivos de uma série de fatores de vida, convivência e afins, acaba, tudo pode acabar um dia, eu só tinha esquecido disso por um tempo.
A comodidade, o conforto e a segurança, não deixa enxergar a relação quanto mais a eu mesmo. Estava definhando a meses ou anos, perdida. A diferença que agora estou perdida sozinha.
Um relacionamento tão longo fadado ao fracasso em tão pouco tempo, ou a mais tempo segundo ele. Talvez já enxergasse isso, mas fechar os olhos tenha sido a pior culpa.
Ainda estou na casa dos meus pais passou-se 2h, entre um cigarro e outro, um remédio e outro.
Uma semana seria o tempo mais que perfeito para o sofrimento, a dor. Mas o vazio, esse vazio meu amigo, não vai embora, a sensação de terem arrancado meu coração e não colocaram nada no lugar. Todos os planos, todas as perspectivas interrompidos na pior hora.
E agora? quem sou eu? onde estou? o que estou fazendo com a minha vida? o que devo fazer? o que devo sentir? o que devo ser?
Você deveria estar com sentimento de liberdade, disseram, você pode ser e fazer o que quiser, disseram, você tem que pensar só em você, disseram. Estou apaixonado por outra e parece que a conheci de outras vidas, ele disse…
