Mas o que faz um Futurista, afinal?

Lala Deheinzelin
Feb 9 · 4 min read

Em 1995 participei de uma conferência visionária e inspiradora sobre o terceiro milênio, que reuniu o astronauta Edgar Mitchell, o físico Peter Russell, a bióloga evolucionista Elisabet Sahtouris, entre outros conferencistas nacionais e internacionais. Era o Imaginária, produzido pela fabulosa jornalista Mirna Grzich no Sesc Pompéia. Esse foi um momento transformador para mim, pois pela primeira vez presenciava um evento que não se limitava a levantar problemas ou simplesmente discutir questões, oferecendo de fato alternativas e soluções para um mundo melhor e sustentável.

Foi por causa deste evento e o contato com pessoas que trabalhavam criando condições para que outros percebessem que tudo é possível, que me interessei por Estudos de Futuro e acabei me tornando também futurista. No mesmo ano me associei à World Future Society e em 1999 respondi à chamada para uma publicação comemorativa à virada do Milênio. Se não me engano, fui a primeira e única brasileira selecionada, tornando-me praticamente a primeira futurista do país.

Pouco tempo depois me juntei a outros estudiosos, como Arnoldo de Hoyos e a amiga Rosa Alegria, para fundar o Núcleo de Estudos do Futuro, vinculado à PUC de São Paulo e ao Millennium Project da ONU. O NEF sempre teve algo diferente em relação aos outros nodos da rede Millennium. Trabalhamos a partir dos pilares da Educação e Consciência, buscando fazer menos previsões e focando sempre na criação de ferramentas para transformação. Essa inovação nos rendeu boa reputação, apesar da pouca estrutura.

Mas o que faz um Futurista, afinal?

O futurista Jerome Glenn foi certeiro ao ser questionado em um evento do NEF. Indagado sobre o motivo de não ter abordado questões estratégicas do momento atual, respondeu que o estudo sobre aquecimento global e seu impacto foi feito no início dos anos 70 e publicado em 73. E que o outro trabalho, sobre a importância da educação e do desenvolvimento de uma nova consciência, era do início dos anos 80. Ou seja, é como se o futurista fosse o remédio para uma doença que as pessoas ainda não sabem que têm.

“Eu apenas vejo o que está lá, mas ainda não foi percebido” (Peter Drucker).

O futurista desenvolve a habilidade de enxergar infinitas possibilidades. Ele converge vários pontos de vista para mostrar que é possível fazer muito mais do que imaginamos. Compreende dinâmicas, está preparado para uma visão macro, fazendo uma leitura do presente e suas ameaças e oportunidades. Sabe, principalmente, que o mundo poderia ser muito diferente se mais pessoas tivessem essa visão. Como disse outro futurista, Peter Drucker: “eu apenas vejo o que está lá, mas ainda não foi percebido”.

Entendendo que o caminho para desenvolver essa visão de futuro é estimular a percepção, em 2008 criei o movimento Crie Futuros. Peter Drucker também disse que “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Assim, o Crie Futuros surgiu como um processo para nutrir visões positivas de futuro, trabalhando a percepção de que eles são completamente possíveis.

Com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional ao Desenvolvimento, o Crie Futuros criou inúmeros futuros desejáveis ao redor do mundo e muitos deles já se tornaram realidade. A prova viva é o livro “Desejável Mundo Novo” (português/ inglês e coreano), de 2012, que apresenta futuros materializados desde sua edição.

A essência do meu trabalho como futurista, então, é encontrar ferramentas, linguagens, maneiras de ser, que possam traduzir esse desejo de passar do provável ao possível e, melhor ainda, ao desejável. Por isso, sintetizei toda minha experiência profissional nos mais diversos setores e escalas na Fluxonomia 4D, uma metodologia que combina Estudos de Futuro e Novas Economias. Um passo-a-passo para o desenvolvimento sustentável, aproveitando a abundância de recursos, pessoas, conhecimento e possibilidades. É preciso apenas enxergá-las.

Se você se interessa pelo tema, convido para se juntar a alguns dos futuristas brasileiros na celebração do Dia Mundial do Futuro. Estarei com outros futuristas, a convite da Rosa Alegria, num bate papo interativo para lançamento da plataforma Teach the Future Brasil. Será no dia 01/03, sexta, das 9h às 12h, no auditório da inovaBra Habitat, em São Paulo. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no link: https://www.eventbrite.com.br/e/o-futuro-que-se-aprende-na-escola-tickets-55698890882

Lala Deheinzelin

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Futurista, pioneira da economia criativa no Brasil. Saiba mais em www.laladeheinzelin.com.br e www.fluxonomia4d.com.br

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