O POLITIZADO

Um conceito se sustenta com bravura: a suposição de politização do povo gaúcho, quase sempre dividido em dois lados, maragatos ou chimangos. Mas o que é ser politizado? Será que realmente somos mais esclarecidos e participativos do que os habitantes de outros Estados?
Politizada: uma moça indignada com o Congresso Nacional e com o buraco da rua de casa.
Politizado: um senhor idoso que defende um partido e abraça uma ideia.
Politizada: uma mulher que trabalha com ações coletivas.
Politizado: um rapaz mesário do processo eleitoral que quer exercer cidadania.
Mas, afinal, em meio a tantas possibilidades, o que é ser politizado? É inegável que o Rio Grande do Sul tenha um cenário político distinto do restante do país, como sua própria história arma. Porém, não há algo que nasça dentro do gaúcho e o torne automaticamente politizado.
“Politizado é relativo. É mais politizado do que quem?”, provoca Luiz Alberto Grijó, professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O gaúcho faz política em diversas frentes — e tal multiplicidade abre o caminho para se pensar se é possível comparar os vários graus de participação. Organiza atos de repúdio e discussões acerca de determinados temas, cria comitês e coletivos e consegue tornar tradicionais fóruns com temáticas que abordam cidadania. O que se percebe, ao longo da história, é que, gradativamente, foi se construindo uma ideia de diferença, que o Estado apresenta especificidades em relação ao restante do Brasil quando o assunto é mobilização política. Grijó aponta que, em consequência destas peculiaridades construídas, fazia-se a ideia de que o Rio Grande do Sul seria distinto e qualitativamente melhor do que os outros Estados em outras experiências, lugares e contextos.
Um buraco de rua é o suficiente para mobilizar as pessoas, por exemplo. Moradores de determinado local podem se organizar para buscar a resolução deste problema próximo e momentâneo, configurando assim um modelo mais inicial de cultura política. Associações de bairro, ligadas ainda a problemas emergenciais e efêmeros, mas que apresentam também uma organização maior em torno de fatos diversos, evidenciam uma cultura de politização mediana. Se houvesse uma escala para apurar o grau de politização, o ponto mais alto de medida de cultura política seriam as ações que unificassem uma cidade toda, por exemplo, na busca por direitos e solução de problemas. Situações pontuais como estas descrevem um mecanismo que permite, de certa forma, medir politização.
A cultura política estudada pelo campo da Ciência Política estabelece uma gradação que vai da lógica paroquial, passa pela lógica subjugada e imediata e segue até a lógica universalizante, conforme explica Tarson Núñez, pesquisador em Ciência Política da Fundação de Economia e Estatística (FEE). “O primeiro nível, e mais básico, é o da cultura paroquial que congrega o cidadão que só conhece os seus próprios problemas individuais e da sua localidade. O segundo nível, um pouco mais elaborado, apresenta uma cultura política subjugada, na qual o indivíduo não se restringe somente ao imediato e ainda orienta sua decisão política e os valores com base na hierarquia, em posição de submissão aos que governam. E o terceiro nível, mais aperfeiçoado, coloca o cidadão numa cultura política participativa e consciente. Este indivíduo é quem tem uma análise mais racional e conhece melhor o universo da política”, explica.
Mem de Sá, em sua obra A Politização do Rio Grande do Sul, aponta que a formação da consciência política gaúcha é tomada pelas pessoas a partir das escolhas políticas de seus chefes, se tornando fiéis a isso e morrendo com esta convicção. Grijó analisa que, sob este ponto de vista de que abraçar uma ideia ou um partido é o suficiente para tornar as pessoas politizadas, não trair determinada liação política por parte de governantes de tipo “caudilhesco” e “militaresco” bastaria para ser um cidadão de atividade política considerável, obedecendo assim o que for ordenado por algum político.
Como o Rio Grande do Sul é “grenalizado”, as pessoas tendem a pensar que ele é politizado. A veemência na defesa de um lado ou de outro configura a identidade deste gaúcho. Outro indicativo é a cidadania que se relaciona com a politização a partir da objetividade do sistema de representativo, ou seja, a percepção de que o mandante (cidadão) vota racionalmente nos mandatários (candidatos eleitos), durante o processo eleitoral. “Esta é uma ideia absolutamente fictícia, pois ninguém vota pensando apenas no interesse coletivo. Nem nos Estados Unidos, nem na Bélgica e nem na Noruega, que são países desenvolvidos”, observa Grijó.
Quem enxerga que politização é pensar a coletividade e exercer sua cidadania constantemente tem maior compreensão política e mais instrução. Mas, infelizmente, nem toda a população tem a oportunidade de compreender este cenário desta forma. E isso não é culpa do povo. O sistema político é pensado para que as pessoas não enxerguem com clareza o que é plano de governo e o que é plano de Estado, por exemplo. “Os candidatos, que conhecem o jogo político muito bem, não têm interesse em esclarecer estas questões para a população, porque, de certa forma, isso os prejudicará. A relação destas pessoas com a política é votar em alguém que vai conseguir algo para elas. E a culpa é da pessoa que ela não pensa no coletivo? Não é! Porque aquele que está lá pedindo o voto para ela não tem o interesse de que o cidadão entenda melhor o coletivo”, explica Grijó.
Ainda que a história explique boa parte da identidade vista como politizada do gaúcho, outros fatores — que dizem respeito à cultura política existente em terras sul-rio grandenses — ajudam a compreender o significado contemporâneo das manifestações políticas. O cidadão gaúcho, que conta com uma herança coronelista, também é um sujeito colonizado. Imigrantes alemães e italianos que chegaram ao Rio Grande do Sul traziam consigo não somente a busca por um pedaço de terra, mas também a cultura do cooperativismo. É possível perceber que o cidadão rio-grandense não entenda politização como algo fundado apenas em ideologias partidárias. Ou seja, que exerça sua cidadania e envolva-se com o coletivo por meio da lógica paroquial para atingir o nível político universal. Desta forma, a mudança é estrutural e de caráter reformista.
Entender o fenômeno também passa por um mergulho histórico, em busca das raízes de alguns traços do comportamento político local. A cultura política gaúcha coronelista teve o início de sua configuração em meados do século 19. Reforçou-se em 1898, a partir da Primeira República, no período de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, porque o sistema brasileiro possibilitou uma maior autonomia das unidades federativas. “Neste mesmo período, os gaúchos — e, principalmente, quem se apresentava como liderança à frente do cenário político e econômico, isto é, a elite da região — percebia que o Estado estava a alguns passos atrás das outras regiões do Brasil”, conta Grijó.
Dadas as suas especificidades, os gaúchos construíram, ao mesmo tempo, uma resistência e uma busca pela própria autonomia. A forma como a soberania é constituída no Rio Grande do Sul está fortemente associada a um autoritarismo que surge do governo e também da sociedade em geral. A expressiva atuação de líderes militares existentes, pelo fato de o Rio Grande do Sul ser uma região fronteiriça, além de palco de guerras e revoltas e apresentar peculiaridades quando comparado ao restante do Brasil, impulsionam esta tendência. O cenário político era sempre de enfrentamento. O ímpeto do gaúcho, sob a perspectiva dos comentaristas da corte, era sinônimo de barbárie. “Todo mundo, toda hora, brigando, se matando e se degolando, para eles, era coisa de bárbaro. Não era atitude de cidadão civilizado. No entanto, sob o ponto de vista que alguns rio-grandenses, como o político Assis Brasil, esta conduta era um distintivo de bravura, de destemor e de que o Rio Grande do Sul é uma espécie de baluarte da nacionalidade na região platina”, explica Grijó.
A mitologia que se estabelece em torno da ideia do cidadão gaúcho politizado tem bases fortes na identidade construída no século 19 pelas camadas mais altas da sociedade e se consolida com outros fatos recorrentes e recentes. A polarização também é outro elemento que representa o processo identitário do gaúcho. A escolha do lado. Maragato ou chimango. Federalista ou Republicano. Inter ou Grêmio — numa análise mais simplória e rasa. No entanto, Grijó diz que, historicamente, este fato abarca diversos aspectos e não se centra simplesmente em compreender dois lados. “As coisas jamais aconteceram desta forma. Elas são muito mais complexas. Elas tendem, sim, a se polarizar em momentos eleitorais acirrados ou de crise política, mas está não é uma característica específica do RS”, esclarece.
A busca pela origem histórica deste processo perpassa, ainda, a Revolução Federalista. Em 1893, houve uma dissensão política, diz o cientista político Benedito Tadeu César. “Havia um embate muito forte entre uma visão liberal, oligárquica e a outra que busca centralizar tudo no Estado. Na República Velha, por exemplo, era o único Estado do Brasil onde existiam dois partidos políticos: Partido Republicano Gaúcho e o Partido Republicano Federalista”, explica.
Ser um Estado de fronteira e mais periférico colocava o Rio Grande do Sul distante do poder e fazia com que o indivíduo pudesse manifestar aqui, mais publicamente, sua indignação com o governo. Segundo Núñez, o gaúcho podia expressar seus pensamentos contrários ao governo sem sofrer punição, pois muitos deles, inclusive, tinham terras em outros países fronteiriços com o Estado, podendo assim se refugiar. “Os inconfidentes em Minas Gerais são um exemplo de contestação aos chefes de Estado, mas foram presos por estarem no ‘centro’ do país”, pontua.
Na época dos embates entre maragatos e chimangos, o envolvimento nas causas era compulsório. Núnez analisa que a história do Rio Grande do Sul se formou com base em conflitos políticos intensos, comparados aos outros Estados do Brasil. O que sempre houve foi uma tradição de participação política forte, porém desinformada. Ou seja, o peão estava lá na fazenda, e o fazendeiro convocava os seus subordinados às revoluções. Não era possível escolher um partido. Isto era feito pelo latifundiário. Ao peão restava apenas obedecer às ordens. “Isto não se relaciona com uma politização do indivíduo, mas com a natureza coronelista existente no Rio Grande do Sul, na qual as pessoas tomavam um lado, pois eram convocadas a fazer determinada função. Inclusive, alguns documentos comprovam que boa parte das pessoas se identificava pela cor do lenço, mas não sabiam o que queria dizer aquilo. Não tinham plena consciência pelo que estavam lutando”, pondera.
O gaúcho está muito voltado para dentro do seu espaço. Em 1920, no entanto, o regionalismo era expresso de outra forma. Era pensado de dentro para fora. Grijó explica que as instituições políticas gaúchas — que eram compostas, em sua essência, pela elite — organizavam a política em partidos muito esclarecidos, com uma suposta fidelidade política e partidária, lida como uma doutrina e não como uma ideologia. Para estes partidos, esta organização política pensada no Estado era diferente do Brasil e o país precisava deste mecanismo para o seu modo de fazer política ser efetivo.
Riograndensizar. Este foi o termo utilizado por um estudante de Direito, que em um comício em 1920 disse que era preciso “riograndensizar” o Brasil. No momento em que essas palavras foram proferidas, elas causaram estranhamento até mesmo nos políticos presentes. Porém, no manifesto lançado pelo então presidente Getúlio Vargas durante a chamada Revolução de 1930, a ideia reaparece. No dia 4 de outubro, o texto foi publicado pelos principais jornais da Capital que se findava com a célebre frase: “Rio Grande, de pé, pelo Brasil! Não poderás falhar ao teu destino heroico!”. Esta colocação é uma releitura da ideia de politização existente em solo gaúcho e que reaparece mais tarde em outros discursos. Esta máxima funciona para reafirmar o exemplo de politização que o Estado apresentava.
Políticos da atualidade reproduzem o discurso do confronto e da tomada de partido. “Aqui houve sempre — e muito mais — acirramento ao longo da história. Mas, em questão de politização,não enxergo o cidadão gaúcho lidando com a política de uma maneira diferente do país”, diz o deputado estadual Pedro Ruas (PSOL). Para ele, culturalmente, no Estado o povo é diferente. A cultura é muito mais semelhante a dos uruguaios e argentinos, do que próxima do restante do Brasil. Aqui, no Rio Grande do Sul, há mais capacidade de confronto, e isto não estaria ligado à politização. “Não vejo que o nosso povo seja mais politizado. Acho que, inclusive, perdemos para os nossos vizinhos do Uruguai e da Argentina, porque há um grau muito maior de conscientização nesses países”, diz Ruas. No entanto, esta visão não se mostra unânime.
O deputado estadual Gilmar Sossella (PDT), por exemplo, enxerga por outra perspectiva. “Não somos mais do que ninguém, mas somos diferentes. E por quê? Porque somos, sim, um povo politizado. Tivemos aqui governantes que se preocuparam com a educação do gaúcho”, aponta o parlamentar, fazendo alusão a Leonel de Moura Brizola, político gaúcho ligado às questões do trabalhismo e da educação. Ações de mobilização e que reivindiquem mudança parecem inerentes ao povo gaúcho. A história é capaz de explicar esta cultura. Somente aqui no Rio Grande do Sul é que se configurou — no período pós-ditadura e de surgimento do Partido dos Trabalhadores — uma intelectualidade militante. “O Rio Grande do Sul parece que não acompanha a mudança na estrutura social e não apresenta massa crítica operária. O PT, por exemplo, tinha força, mas era um partido de classe média comparado ao restante do Brasil. Não tinha uma base essencialmente operária”, pontua César.
Desde 1980 — quando estes acontecimentos começaram a assumir dimensões consideráveis — iniciou-se o surgimento de uma militância cidadã. O engajamento brotava realmente do povo e não provinha das ordens da elite que comandava a revolução no século anterior. Coletivos, associações e fóruns são exemplos de ações desenvolvidas e que criam uma cultura de politização e cidadania, consequentemente. Não diferente de todo o Brasil, o Rio Grande do Sul paulatinamente foi se mostrando descrente com a conjuntura política tradicional. Entre as tantas consequências deste fato, existe algo explícito no comportamento das pessoas.
O cidadão gaúcho politizado tem entendido um pouco mais sobre compreensão da postura cidadã. No entanto, a onda individualista do mundo globalizado traz confusão às ideias. No interior ou na Capital, a política foi sendo feita das mais variadas formas — mesmo o Rio Grande do Sul não sendo um Estado politizado e podendo ser facilmente lido como político. Nem todos os gaúchos exercem a própria cidadania, embora todos, em algum momento da vida, sejam convocados a votar. Política e politização são linhas paralelas. Para a obtenção do conceito pleno de politização, elas deveriam ser convergentes. No entanto, o processo político não precisa desta relação. Ele pode acontecer sem consciência e visão cidadã.
Mas, quem é o personagem riograndense que vota e que é essencial neste contexto? Também é importante enxergar o tema a partir do envolvimento com as formas mais institucionais de se fazer pública algo que se explicita a cada eleição. O eleitor gaúcho é uma mulher adulta e de Ensino Fundamental incompleto. No Rio Grande do Sul, 26% da população gaúcha votante tem entre 45 a 59 anos. Dentro deste grupo, se sobressaem as mulheres, representando 52%. Entre os dados educacionais, 36% dos votantes têm Ensino Fundamental incompleto, 19% Ensino Médio incompleto e apenas 5% têm Ensino Superior completo. O número de eleitores que estão compreendidos neste levantamento realizado em setembro de 2015 é de 8.392.033, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul. Ao discutir sobre escolhas políticas, há quem defenda a abstenção como uma expressão política, com base na ideia de que não votar representa uma forma de escolher. Nesta situação, de 2002 a 2014, os gaúchos sempre mantiveram a média de 15% de abstenção, o que, comparado a média nacional de 29%, é baixo.
O contexto social e histórico pode até explicar a máxima por tantos sustentada, mas a gura do cidadão gaúcho politizado não é clara. Um tanto determinista. Por vezes, engajado. Crítico. Ora, inspirado em ideias e em discursos revolucionários. Ora, ativo em obras reformistas. Aquele que almeja a educação, o trabalho e o cooperativismo. Leonel Brizola como exemplo. O garoto de 13 anos que defende o CTG como um partido. A jovem de 28 anos que nunca entendeu planos políticos semelhantes. A senhora de 50 anos que queria “um Brizola para mudar tudo o que está aí”. O rapaz anarquista de 30 anos que gere a horta comunitária de seu bairro. O senhor de 76 anos que se sente cidadão ao votar. O gaúcho politizado está em toda parte. Talvez, este personagem só não atenda às ideias convencionais.
Reportagem produzida para a disciplina de Projeto Experimental Livre, ministrada pelos professores Aline Custódio e Alexandre Elmi da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS. Este texto integra a publicação “Gaúchos — Uma história pouco convencional sobre o povo do Rio Grande do Sul” que é possível acessar na íntegra através do link bit.ly/2cuXhwn
