Um texto de aniversário para mim mesma

a partir de hoje, eu tenho dezoito anos.

algumas pessoas vivem me dizendo que nada vai mudar.

mas se eu tenho dezoito anos, isso quer dizer que a minha depressão me acompanha há cinco. também quer dizer que, apesar disso, eu estou fazendo mais um ano de vida.

fazer dezoito anos significa muito pra quem quase não chegou a fazer dezesseis e, por pouco, conseguiu completar dezessete.

eu sinto como se tivesse perdido minha adolescência pra minha depressão e ansiedade. eu não tenho como resgatar essa parte de volta. mas eu tenho o resto da minha vida, e eu espero chegar lá.

eu não sei exatamente como ou por que eu estou fazendo dezoito anos. eu não sei como me acharam a tempo – duas horas mais tarde seria tarde demais – em 2015 ou como eu acordei vomitando tudo em 2016. minha mãe diz que eu estou aqui pra ajudar as pessoas. eu espero que sim, e tento viver a partir disso.

é por isso que eu exponho minha doença nas redes sociais: porque eu já quis esconder. porque eu morria de vergonha. porque eu achei diversas vezes que estar doente me fazia menos desejável. porque eu não queria ser alvo de pena ou preconceito. porque esse é um assunto tabu. porque eu já achei que estava sozinha, que todos eram “normais”, menos eu. porque eu me odiava por dizer antidepressivo, ansiolítico e estabilizador de humor ao invés de antibiótico ou relaxante muscular quando alguém perguntava sobre meus remédios. porque eu odiava quando contava pra alguém que tinha que viajar pra consulta médica e, ao perguntarem o porquê, eu respondia “psiquiatra”.

hoje eu sei que nada disso era justo comigo mesma, e se eu puder evitar que alguém se sinta assim, eu irei.

eu não acho que a minha depressão tenha um propósito. eu não posso transformá-la em algo positivo, mas eu tenho tentado fazer algo positivo sobre ela.

eu tenho dezoito anos e isso significa que eu consegui chegar à vida adulta. eu não sei expressar em palavras o peso (bom) que isso tem na minha vida.

eu quero agradecer a todas as pessoas maravilhosas que me ajudaram a chegar aqui. meu psiquiatra e minha terapeuta.

a meus pais, que me viram nos meus piores momentos, sentiram cada dor comigo, e nunca, jamais, nem uma vez sequer, me culparam por isso ou me cobraram coisas que eu não era capaz de fazer.

à minha família, que sempre me encorajou e me ofereceu apoio.

a todos os meus amigos, que, sem exceção, conseguiram enxergar além da depressão e não se esqueceram de quem eu era quando ela tomava conta. que sempre entendiam quando eu recusava os convites pra sair e mesmo assim nunca pararam de chamar. que sempre me ouviram quando eu precisei falar e nunca diminuíram ou invalidaram minha dor só por nunca terem passado por ela. eu sei que não é fácil ser amigo de uma pessoa deprimida e eu jamais os culparia se vocês tivessem desistido. mas, por mim, vocês aprenderam. todos. sem obrigação nenhuma, sem eu nunca ter pedido. essa é a maior prova de amor que eu poderia receber e eu nunca, nunca mesmo, vou conseguir demonstrar minha gratidão. eu amo cada um de vocês tanto, mas tanto, que não sei como meu coração aguenta.

queria também agradecer a meus antigos professores do ensino médio e à direção por fazerem mais do que seguirem a lei, por também serem compreensivos e me ajudarem tanto quanto podiam. eu queria ter estado mais presente. sempre que alguém me chamava no canto pra perguntar se eu estava bem ou dizia para as minhas amigas que sentia minha falta e perguntava sobre mim, eu me sentia importante. obrigada, mesmo. isso sempre fez diferença.

a depressão é o pior buraco negro de todos, que faz de tudo pra sugar a nossa luz. às vezes, eu me confundo com a ideia de proporção. buracos negros são assustadores, mas o universo sou eu.

talvez eu seja a prova viva de que einstein estava errado, talvez dê, sim, pra escapar.

eu sei que eu e a depressão travamos uma guerra dos cem anos, mas hoje… hoje é meu aniversário, eu oficialmente cheguei à vida adulta e essa batalha eu ganhei. é muito bom estar aqui pra ver isso acontecer.

pra mim, fazer dezoito anos significa que a vida continua

a luta continua

e eu também.