Leitura #1 — Sócrates e Casagrande: Uma História de Amor
Há algum tempo tenho cultivado a leitura como hábito. Como em qualquer cultura, há alguma chance das condições climáticas implicarem em variações de desenvolvimento para se atingir a colheita. Minha meta não é nada ambiciosa: 24 livros por ano. 2 por mês, um a cada duas semanas. Parece simples, mas confuso pelos distúrbios de atenção na vida de uma capital, pode ser considerada glória das mais nobres. Nunca consegui atingí-la. A cada ano, supero a marca. Aqui, pretendo compartilhar um pouco do que aprendi em minhas leituras mais recentes. Acredito que esrevê-las é uma forma de solidificar a reflexão. Com sorte esses textos chegarão a alguém que em algum momento também cruzou com os mesmos livros que aparecerem nesse espaço e poderemos conversar sobre.
O livro
Sócrates e Casagrande, uma história de amor. E o amor, ao mesmo tempo em que envolve a admiração e a contemplação, carrega um peso igualmente proporcional de orgulho e julgamento. E assim se deu a história de Casão em relação à Sócrates, o filósofo-boleiro-sambista-pintor-militante-revolucionário.
Walter Casagrande Junior nasce no livro roqueiro e rebelde (soaria como um pleonasmo, não houvessem os roqueiros de direita), se afirma como grande centroavante e, ao final, inverte o papel paternal em relação ao seu fiel parceiro de Democracia Corinthiana. À parte de suas incontestes histórias de glória esportiva e suas participações na efervescência cultural e política de suas épocas, o que mais me tomou a atenção no livro foi a luta particular de ambos para preencher o vazio dos anos pós-carreira. As consequências dessa busca destruíram Sócrates e, não fosse por conta de uma humildade louvável em admitir seus demônios (que originou outro livro, inclusive), teriam demolido também o Casão.
Ciente dos percalços de viver sempre às custas do passado, Casagrande sofre como um irmão para tentar trazer Sócrates à luz de seus aprendizados, prevendo os resultados catastróficos de uma existência levada aos moldes das lendas que construíram e ficaram para trás — há uma hora em que é preciso seguir em frente.
Sempre tive nos dois figurões grandes referências morais e esportivas. Meus primeiros registros de corinthianismo remontam a um cabeludo carregando a bola pelos verdes gramados de derbys impossíveis. Seu nome — Casagrande — me despertava curiosidade e riso. Para quem também os tem em boa conta, a leitura permite uma conexão com seus lados mais humanos e imperfeitos, justamente o que, ao meu ver, os posiciona num papel mais íntimo conosco, meros admiradores. Não é à toa que fico particularmente incomodado quando Casão sofre provocações em relação ao seu vício.
Ler sobre o Corinthians, sobre os anos 80 e sobre a cidade de São Paulo, em particular, me levaram por uma jornada deliciosa a um passado pessoal distante, existente não somente nas memórias mais nascentes, mas também em estórias contadas desde cedo pelos tios, tias e avós. Em determinados momentos, foi possível voltar a um mesão de almoço de Domingo, no bairro da Lapa, onde a digestão acontecia e o tempo parava.
