Livros e youtube

A ideia desse texto é colaborar com o debate sobre booktubers. Iniciado, dessa vez, por um post do colega autor e tradutor Ronaldo Bressane, questionando a prática de se cobrar por resenhas em vídeo.

By Tiff McGinnis aka Grande Dame

Quando consideramos o mercado dos livros com esse termo, mercado, passamos a entendê-lo melhor e, nesse contexto, a crítica literária e a imprensa tradicional têm perdido relevância em números, influência e alcance a cada dia. Ou seja, raramente tocam o leitor a ponto de impactar significativamente em pessoas querendo adquirir o livro abordado, ou, com menos eufemismo, em vendas. Ambas mantêm, obviamente, sua importância para formadores de opinião, para a análise da literatura como forma artística; mas assim como a academia, precisam encontrar formas novas de chegar ao grande público se quiserem se manter relevantes e assim, viáveis financeiramente, seja por investimentos públicos ou privados.

Os criadores de conteúdo online são um marco nesse caminho de diálogo com um público maior. Para citar alguns poucos, canais como Nerdologia (ciências), Tese Onze (sociologia), Entreplanos (cinema), os podcasts Xadrez Verbal, Anticast, Viracasacas e muitos outros têm feito um trabalho renovado do que poderíamos eventualmente chamar de divulgação científica, que passa desapercebido ou sofre preconceitos daqueles que julgam deter o discurso oficial sobre as suas áreas.

O booktube é um caso que vai além desse fenômeno e, como antigo livreiro, sou grande admirador desses profissionais. Pessoas comuns, das mais diferentes áreas, dividindo suas opiniões de leitura e criando uma relação de confiança com quem os acompanha. E, basta ler os comentários para comprovar, gerando interesse, empolgando jovens, renovando a curiosidade em velhos e novos leitores e gerando discussão em torno do produto que nos é tão querido, o livro.

O conteúdo por eles criado é repleto de opiniões pessoais, empolgação, interpretações diferentes do que está lá acontecendo e troca com o leitor. Mais de noventa por cento do conteúdo que produzem é orgânico, livros pelos quais se interessam, que os espectadores pedem, temas ou tags e, agora que estão dando os primeiros passos a caminho da profissionalização, recebem frequentemente críticas como a feita nessa semana.

A profissionalização sempre chega ao mercado editorial tardiamente, principalmente pelo véu de sacralidade que acompanha a literatura. E, embora por um lado eu veja a beleza do romantismo, por outro ignorar o aspecto comercial no sistema em que vivemos faz com que tenhamos uma área que vive à beira do abismo em diversas frentes. Trabalhar com influenciadores é uma realidade em todos os setores de varejo. Não podemos ver como um absurdo pagar para um profissional abrir câmera, estudar um produto, criar um roteiro, apresentar, editar e, além de tudo isso, alcançar um público engajado e que acredita nas suas opiniões. Aliás, em muitos casos, um público interessado que ultrapassa em número as revistas especializadas sobre o assunto que tem uma estrutura, anúncios (de editoras) e investidores por trás.

Assim como na mídia impressa, temos que saber diferenciar os bons profissionais dos ruins. Mas nos meus anos trabalhando com youtubers, vi muito mais bons exemplos do que situações ruins, todos deixando claro que não mudariam sua opinião no vídeos por estarmos pagando, avisando sempre nos vídeos que aquilo é um publieditorial e, inclusive aí, mantendo um relacionamento de transparência com quem realmente os interessa e lhes dá relevância: o consumidor do conteúdo.

É um momento do nascer de um novo poder, e ele assusta aqueles que estão acostumados com as coisas como sempre foram, inclusive dentro das editoras. As revistas e jornais impressos também criam publieditoriais; por que criticar quem os faz com mais engajamento, legitimidade e aceitação dos seus espectadores e ainda impacta positivamente na leitura? Só porque não se interessam pelo que o autor X ou Y escreveu? E, se formos entrar na seara do preconceito literário, temos que admitir eles estão anos luz a frente do que se viu de produção de conteúdo sobre literatura no Brasil até agora.

O novo vem, e devemos ter humildade para entender, aceitar, cocriá-lo e, o mais bonito, participar em um ambiente democrático: se não aceitarmos como está, podemos criar ou apoiar um canal em que acreditamos e ver se as pessoas realmente se interessam pelo que nos interessamos.

Nos últimos anos fechei mais de 200 publis referente a livros, vou deixar aqui só 1 para vocês mesmos julgarem.

ps.: esse texto começou como uma resposta à matéria da Clarissa Wolff na Carta Capital e ficou maior do que deveria, por isso postei aqui.