3º diagnóstico mental — ou como não enlouquecer já estando louco

Há uns dois anos, meus pais perceberam que eu já não era eu. Meu comportamento tinha mudado, oscilando entre acabei-de-vir-de-um-funeral e ganhei-na-loteria, assim como meu apetite (ganhei sete quilos nessa graça). Era estranho, de verdade.

Como seres preocupados com o meu bem estar (inclusive o mental), eles me levaram a um psiquiatra, mesmo que, na época, eu achasse que não precisava de um. Eu achava que estava bem.

Na época que isso rolava, eu trabalhava num jornal como estagiária. Meu turno era meio infeliz pra uma pessoa que sempre gostou de dormir cedo. Mas eu ia. O dinheiro certinho no fim do mês sempre era um atrativo.

Continuando. Minha consulta no psiquiatra tava “marcada” pras 16h, mas cheguei mais cedo, já que, teoricamente, seria por ordem de chegada. Lá pelas 19h, a psiquiatra deveria começar a atender, contou a recepcionista. Mas o atendimento da fila só começou às 21h.

Até esse horário, meu então chefe tinha me mandado uma mensagem perguntando se eu poderia ir mais cedo. Expliquei que não, que estava no médico e que, por ser ordem de chegada, eu não tinha muita previsão de quando seria atendida.

Ele disse que tudo bem, que eu estava dispensada do turno aquele dia e do plantão no domingo seguinte. No tanto que fosse mais cedo na segunda.

Lá pelas 23h e tanto, fui finalmente atendida pela psiquiatra. Conversei com ela. Recebi um receituário junto com um nome.

Diagnóstico nº 1: depressão.

Esse diagnóstico não me era, de todo, estranho. Já tinha recebido ele uns quatro anos antes. O que pesou para mim foi o fato de, para aquela profissional, a minha condição demandar medicação.

Durante o final de semana, comprei o remédio. Na segunda-feira, comecei a tomar. Na mesma segunda, o chefe que tinha me pedido pra chegar mais cedo (o que, na época, lembro de ter pensado que era para compensar a minha não-ida na sexta e no domingo) me demitiu, explicando que não achava que eu estava evoluindo o que eu deveria ali.

Por causa do remédio, não consegui chorar. Eu queria chorar. Queria deixar que a tristeza e frustração de ter sido demitida de um estágio saísse pelas lágrimas.

Apesar de estar muito pra baixo e mal (afinal, estava tendo que lidar com um diagnóstico definitivo de uma doença mental e com uma demissão), não fui direto pra casa. Fui para faculdade, onde tentei mergulhar na semana de jornalismo que tava rolando.

Essa onda de dormência emocional foi seguindo até eu ter que voltar pra psiquiatra pra ver se eu teria que continuar com o remédio ou não.

Nessa brincadeira, o remédio foi “cortado” junto com um novo status mental anotado na minha ficha.

Diagnóstico nº 2: transtorno de ansiedade

Com essa nova categoria, não me estressei muito. Afinal, pensei eu, quem não tem um grau maior ou menor de ansiedade?

O tempo foi passando, as coisas acontecendo, novos projetos surgindo.

Até que meus pais começaram a se preocupar de novo. Achavam que o ciclo de dois anos atrás estava se repetindo.

Dessa vez, fui a uma nova psiquiatra. Ela foi anunciada como uma pessoa mais humanizada no tratamento (o que provou fato, OK?) e como alguém que lhe ouve.

Fui pra consulta pensando “isso é só mais um check up mental, né? Pessoas fazem check ups com cardiologistas, oftalmos, ginecologistas e clínicos gerais. Porque eu não posso ter com um psiquiatra?”

Aí é que entra mais uma graça da mãe natureza. Minha ficha, que já contava com dois nomes, ganhou um terceiro:

Diagnóstico nº 3: transtorno bipolar

Com toda certeza você já ouviu que o primo da vizinha da tia da sua melhor amiga era bipolar. Ou que era uma conhecida da manicure da sua professora de história.

Provavelmente, os cenários pintados eram mais ou menos assim: a pessoa não conseguia conter momentos de euforia ou raiva intensos e agia de uma forma que causou sua demissão/isolamento da sociedade/internamento num hospital psiquiátrico.

Como uma pessoa que ainda está em processo de aceitação desse diagnóstico, mas que consegue enxergar os traços dele em retrocesso, posso dizer, com toda certeza, que nem sempre é assim.

Nem sempre um bipolar vai chegar arrebentando a sua cara porque acordou do lado errado da cama. Do mesmo jeito que nem todo bipolar vai chegar dançando Lady Gaga num funeral. Temos limites e ainda respondemos às mesmas regras sociais que qualquer outra pessoa.

Isso quer dizer que não existem bipolares que ignorem regras sociais ou que usam o transtorno como um passe livre pra fazer absolutamente tudo o que der na telha?

Não. Existem casos e casos. Como tudo na vida. Sempre vai ter aquela pessoa que vai ter uma situação mais grave da doença e que realmente vai reagir mal em diferentes situações. Mas também vai ter aquelas pessoas que, como eu, entendem que existem regras sociais a serem obedecidas e que, no caso de descumprimento, as sanções também vêm.


Pausa para aliviar uma raiva:

Nesses momentos, eu olho para o personagem Pat Peoples, de O Lado Bom da Vida (escrito por Matthew Quick), e, internamente, fico chamando ele de imbecil.

Porque ele se usa de um diagnóstico real, que afeta Deus sabe quantas pessoas no mundo, pra ser um babaca grosseiro com as pessoas à volta dele. Ele acredita que a bipolaridade é, realmente, um passe livre para tratar mal amigos, familiares e até desconhecidos, podendo dizer, depois de uma imbecilidade voluntária, “ah, foi mal, era a bipolaridade falando”.

Obrigada aê pelo desserviço. Ajudou bastante em porra nenhuma. Só em espalhar babaquice.


Resumindo de uma forma mais amena o textão™:

  • Doenças mentais não são o fim do mundo. Podem parecer num primeiro momento (que pode durar horas, dias ou semanas), mas, quando você olhar para trás, vai perceber que não é assim tão desesperador e incomum;
  • Com o diagnóstico realmente aceito por você, vai parecer que chegou um filtro de “amizades”: as trepeças que não valem um centavo vão se afastar (e aqueles amigos que você imaginava que eram para todos os bares também). Os amigos de verdade vão ficar e te apoiar. E, em algum momento, você pode até fazer amigos justamente pelo seu transtorno;
  • Algumas pessoas vão repetir clichês de estereótipos batidos. Pra isso, só duas soluções: ou você tem uma conversa bem tranquila com essa pessoa, explicando que não é bem assim que o esquema funciona ou você ignora a pessoa, deixa ela falando asneira.
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