A Questão Evangélica

L'ami du Peuple
Sep 5, 2018 · 3 min read

Nota: Este texto foi disponibilizado pelo militante da Liga Popular, S. A. Dias, à equipe que escreve para L’ami du Peuple, isto é, esta reprodução é devidamente autorizada.

Qual é a questão evangélica?
Consiste na resposta que os marxistas devem dar à ascensão das igrejas evangélicas, o que elas representam e qual a justa atuação em relação a este fenômeno.

A base material do Brasil é o capitalismo burocrático.
Baseado essencialmente no latifúndio, na lógica exportadora e no favorecimento do imperialismo e seus agentes, o Brasil cria uma massa de camponeses sem posse e trabalho, bem como cria uma massa de proletários que não fazem parte da indústria.

Estes segundos elementos estão aglomerados nas periferias.
O estoque da especulação imobiliária empurra estas pessoas para as bordas das grandes cidades.
Nestas bordas, um fato salta aos olhos: a diversidade e quantidade de igrejas evangélicas.

Mas, por qual razão estão lá e em tão gigantesco número?
A periferia concentra uma aglomeração de indivíduos unidos pela opressão comum que sofrem. Assim, surge a necessidade prática de coalizão, ou de união desses trabalhadores.

Esta união é vista, em primeiro lugar, nas lutas conjuntas e exemplares que as periferias realizam; em segundo lugar, pelo surgimento autônomo de organizações de coalizão orgânicas; em terceiro, pelo espírito de comunidade e coletividade que estes dois primeiros fatores geram.

Essas organizações autônomas representam uma forma de protesto e luta organizada, porém, não toda a forma de protesto. Há também o protesto silencioso e primário: a religião.

No mundo de opressões, o acalento do pós-vida surge como o primeiro fator determinante de união entre os oprimidos, assim como a força-motriz inicial do citado espírito de união e coletividade.

Marx chamou a religião de “ópio do povo” por este motivo, ou seja, por ser o protesto silencioso que une, no primeiro momento, oprimidos em seus anseios de libertação da opressão.

Tal é a razão da existência de tantas igrejas evangélicas nas periferias. Precisamente elas, pois, o catolicismo, ao longo dos séculos, afastou-se do povo carente brasileiro — colocando-se, ao contrário, ao lado das elites.

Todavia, o ascenso de discursos conservadores, de matriz religiosa, parece assustar certos setores da esquerda que, com isso, acabam por identificar os evangélicos como inimigos.

Esta visão é fundamentalmente equivocada.
No âmago, estes cultos concentram massas populares dispersas, buscando coalizão. A reprodução do discurso das classes dominantes no interior desses cultos é natural e verificável em qualquer organização espontânea das massas.

A tarefa dos democratas honestos, por conseguinte, não é tratar evangélicos como inimigos, contudo, entender que esse ascenso evangélico é um produto necessário da opressão das massas. É um grito silencioso por união.

A atuação marxista deve ser apenas uma: ligar-se às massas e, respeitando suas crenças, apresentar caminhos práticos efetivos para a superação da opressão.

É impossível cumprir essa tarefa e antagonizar com a fé do povo. O ponto principal da luta atual no Brasil não é a promoção do ateísmo, entretanto, a superação das bases materiais arcaicas aqui presentes que só oprimem o povo.

A construção de uma Nova Cultura, que combata os discursos preconceituosos estimulados pelas classes dominantes, pode e deve ser feita no seio das massas, com a condição que tais massas estejam dispostas a ouvir.

A superação prática e efetiva da necessidade religiosa só será realizada no futuro. Por ora, a resposta à questão evangélica é ir até as massas e organizar sua luta em sentido prático e material, respeitando o campo sagrado.

Como consequência natural do atual estado de coisas, é impossível antagonizar com a fé do povo. Mas, é possível entender que esta fé organizada em tanta quantidade representa um protesto que ainda não chegou ao nível indispensável para o combate à opressão.

Quer dizer: onde é que existam igrejas evangélicas em grande quantidade, existe opressão em grande quantidade.

A tarefa da vanguarda democrática está aí: apresentar uma proposta de luta efetiva.

Em síntese, se os progressistas de hoje continuarem com a tendência de interpretar o povo como bestial, feroz e conservador por excelência, nada disso poderá ser cumprido e a continuidade de discursos reacionários na classe dominada será culpa dos marxistas que não realizaram sua tarefa corretamente.

L'ami du Peuple

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O marxismo não só é um guia para a ação, como um convite à mesma.