A Questão Negra no Brasil — A Questão Étnica como Expressão da Luta de Classes

I — O Problema

As classes dominantes brasileiras usam muito bem uma arte milenar: a dissimulação. Dissimulam a luta de classes, a submissão ao imperialismo, o racismo, etc.

Neste caso, daremos nossa atenção ao racismo. Esta questão, hoje, coloca-se como um assunto essencial para os marxistas brasileiros, pois, sem emancipar o trabalho de pele negra, torna-se impossível emancipar qualquer outro.

Além disso, a cooptação desse assunto pelos liberais, conhecidos como “pós-modernos”, faz com que urja uma solução correta, popular e revolucionária.

II — Origens históricas do racismo no Brasil

O racismo em colônias europeias na América tem uma origem de relativa fácil compreensão, bem como uniforme: justificação para a opressão.

O povo africano é inserido na América como objeto, no sentido mais literal possível, visto que as constituições pré-libertação definem isso categoricamente.

Para esses “objetos” foi negada a humanidade. O motivo material, a estrutura econômica que girava o mundo na época, ganhava mais força com essa maquiagem ideológica de desprezo, ganhando contornos ainda maiores como consequência.

Primeiro, com o monopólio religioso dilacerando os escravizados; segundo, com a própria identificação das elites americanas com os padrões europeus, brancos — coisa que naturalmente decorreu para as classes trabalhadoras “livres”, isto é, não escravizadas; terceiro, o estabelecimento sistemático de subjugação material pós-libertação, negando ao povo negro a dignidade material mínima; por último, uma mídia cínica e demagoga, que antagoniza o povo com o próprio povo.

Isto tudo, acumulado, gera o resultado atual: racismo institucionalizado, parte visceral da sociedade.

Isto é útil ao capitalismo burocrático brasileiro, que mantém uma etnia na miséria sistematizada, antagoniza a mesma com outras camadas da população, e cria um sentimento nefasto e sujo, o preconceito racial — a base capitalista para desunir o proletariado.

Na prática, um verdadeiro e diário genocídio à população negra.

III — Refutação às teorias liberais

Os liberais não demoraram, com todas as boas intenções, para vomitar seu veneno sobre essa questão.

Por isso, advogam que a emancipação negra nada tem a ver com o sistema econômico vigente, apenas uma etérea “cultura errada”, ou “falta de representação”.

Para combater esta cultura errada, basta, por conseguinte uma sistêmica transformação de negros em burgueses e muita representatividade.

As falácias aqui são bem construídas, pois possuem o mínimo de verdade.

No capitalismo burocrático brasileiro, é necessário sim lutar pela defesa diária das pautas do povo negro, tais como mínima dignidade material, representação e voz ativa na política, inserção real no trabalho, etc.

Isto, no entanto, não soluciona o racismo, oculta-o.

Tomemos, por exemplo, os EUA (exemplar muito mais desenvolvido de capitalismo, diga-se passagem). Recentemente, seu primeiro presidente negro foi eleito. Ao mesmo tempo, o país ainda tem a maior população carcerária negra do mundo, lida com violência policial contra o povo negro, etc., etc.

Numa palavra, essas pautas não acabam com o racismo no longo prazo, ao contrário, é o mínimo, apenas o primeiro passo.

Ora, seria muito pueril imaginar que mais burgueses negros ou mais participação de negros na política simplesmente eliminaria toda a estrutura que perpetua o racismo.

Ou seja, é preciso justamente atacar essa estrutura.

Para isso, as pautas de representação, etc., devem vir com as pautas de emancipação da classe trabalhadora como um todo. Somente assim, a equidade material, jurídica — prática — virá, já que à população trabalhadora pertence o próprio destino de emancipação, em conjunto e união indissolúvel.

Isso fica mais claro pelo seguinte: com o povo no poder, como existirá uma sistemática campanha anti-povo promovendo sua desunião e antagonismo?

A questão, longe de ser uma mera reivindicação equitativa à propriedade privada ou representação na ditadura burguesa, é, na realidade, a identificação de ausência de propriedade por todo o povo e a reivindicação da ditadura daqueles que, hoje, são os oprimidos.

IV — Refutação à subestimação da questão negra

Desiludidos com o “pós-modernismo”, muitos marxistas parecem ignorar a questão negra, suprimindo-a na pauta revolucionária.

Novamente, uma meia verdade. Logo, uma meia mentira.

A questão negra é uma questão de luta de classes, sim. Visto que, o povo negro mais oprimido é o que sintetiza, junto à etnia, a pobreza.

Entretanto, assim como a luta sindical tem especificidades — num primeiro momento — que nada conversam com as especificidades da luta estudantil, a luta negra possui pautas próprias, intrínsecas a este setor, que não podem ser ignoradas.

Ora, o constante genocídio e encarceramento da população negra, por exemplo, não pode ser ignorado e tratado como um “caso isolado”. É, na realidade, parte sistêmica da Ditadura Burguesa e, então, uma mazela capitalista, que não pode ser solucionada em sindicatos, universidades, etc., mas com o próprio povo negro organizado autonamemente e em luta.

Em suma, a luta negra é parte da luta de classes, todavia, não elimina suas pautas próprias, que devem ser endossadas e apoiadas.

V — Conclusão

Deixar de lado as besteiras liberais, adentrar e cooperar nas lutas justas do povo negro, esse é o caminho que todo marxista deve adotar.

Com isso, deve-se construir a Nova Cultura que precisamos, a cultura baseada no brasileiro como ser genérico, como proletário, como classe unida em sua ditadura.

Só desse modo será possível corrigir este revés vergonhoso à toda humanidade, que é o racismo.

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