“Centro” e “Isentões”, Demagogia Ideológica

Ao longo da história, toda classe oprimida desenvolveu seus métodos de luta, bem como estabeleceu sua interpretação de mundo, sua teoria. 
As classes dominantes, ao longo da história, fizeram o mesmo. Desenvolveram métodos particulares de opressão, além disso, impuseram à sua época a própria ideologia, a própria inversão da realidade, para acomodar as consciências dos oprimidos, e, ao mesmo tempo, justificar a opressão.

No mundo atual, os despossuídos, cada vez mais, agudizam as lutas contra os possuidores. Logo, imprimiram uma nova teoria ao seu mundo, novos métodos de combate à opressão — a ideologia dos explorados.

Esta ideologia moderna dos despossuídos possui um nome: marxismo. É a teoria proletária que corresponde aos interesses dos trabalhadores e clarifica o caminho para a resolução da luta de classes como um todo.

Mas, se de um lado os explorados da atualidade desenvolveram sua teoria de mundo, os exploradores também. Os burgueses enterraram a justificação espiritual para o direito à opressão, transformaram isto em um remoto e ancestral “mérito”; os burgueses acabaram com as ilusões feudais do cavalheirismo, e as ingenuidades do cristianismo primitivo e suas falas em ajuda aos miseráveis, ao contrário, advogam ativamente pelo egoísmo e reclamam da indulgência de quem cavucou a própria cova para a pobreza.

Os burgueses imprimiram com tanta eficácia a sua ideologia, que toda sua ciência, imprensa, filosofia, psicologia e economia confirmam, como uma verdade pré-histórica dada, a existência perene de ricos e pobres, a força de vontade como fundamental para o acúmulo de riqueza, a propriedade privada como direito natural e absoluto, a concorrência no mercado como elemento de desenvolvimento tecnológico, etc.,etc.

Tudo parece muito razoável. A competição, de fato, soa como elemento para desenvolvimento; mas a pobreza que a anarquia de mercado gera é intolerável para alguns; de igual maneira, alguns falam sobre como somente reformas fizeram a vida dos oprimidos melhorar, não a violência pregada pelo marxismo, etc.

Por consequência desse cenário, alguns progressistas tendem a adotar lentes burguesas para a ideologia proletária e, sem entender o marxismo com tal — como de fato ele é — , ao mesmo tempo discordando do atual estado de coisas, pedem um meio-termo ideal entre os “humanismos” da esquerda e “o frio e tecnológico” avanço capitalista.

Novamente, tudo parece muito razoável. Especialmente num mundo onde somos instruídos à fuga de conflitos violentos, deixar passar, conformar-se, ter fé no trabalho, na propriedade ou em Deus.

Voltemos ao começo e analisemos a origem das teorias e interpretações de mundo dos oprimidos e dos opressores. 
Os oprimidos desenvolvem uma interpretação da realidade que combate a opressão por, precisamente, viverem este desconforto contínuo chamado opressão. Trata-se, assim, da verificação prática de uma realidade que urge mudança. Esta realidade é interpretada como tal — isto é, há uma tomada de consciência —, é definido um caminho e, enfim, começam as ações de mudança.

Em outras palavras: a verdade prática, justa e materialista, é sempre revolucionária.

Já a ideologia dominante junta em si uma série de inversões da realidade, para justificar a opressão, dissimulando suas contradições, e relacionando, falsamente, certos fenômenos como causa e efeito, ou leis universais
Por conseguinte, teremos não que a concentração de riqueza nas mãos de poucos gera pobreza, mas que a pobreza simplesmente sempre existiu — é uma lei natural, eterna; também teremos que a competição gera desenvolvimento, não o acúmulo de conhecimentos gradual ao longo da história e seu desenvolvimento.

Trata-se, sempre, de inverter ou deformar o mundo real para encaixar justificativas aqui e acolá da melhor maneira possível, ou aparentemente melhor.

Agora, voltemos a quem procura o meio-termo ideal.

O “meio-termo” é, para a ideologia do oprimido, um estado transitório, possível apenas na paz temporária que existe entre uma crise e outra dum sistema recheado de contradições materiais. Portanto, é inadmissível no sentido absoluto, e somente possível no breve intervalo entre conflitos.

Para a ideologia dos opressores, este meio-termo que, na realidade, jamais mobilizará sindicatos, agremiações juvenis, entidades democráticas populares, etc., é uma “Parcela Silenciosa” que, em sua omissão, reafirma e mantém o status quo.

Isto posto, perguntamos: a quem serve este meio-termo?

Aos oprimidos, que nada conseguem de apoio às suas lutas, e testemunham estes “isentos” alimentarem um descrédito constante aos seus justos combates contra a opressão? 
Ou às elites dominantes que nesta omissão prática de tomada de partido contam com um banco de reservas de reafirmadores passivos de seu mundo?

A resposta é clara: “isentões” ou “centristas” são os unicórnios do nosso mundo. Apenas servem às classes dominantes sem, em discurso, almejarem tal coisa.

Por buscarem sempre uma posição idealizada de “ausência de extremos” e “clareza objetiva”, sentem-se isolados e “únicos”, sem perceberem que nosso mundo é feito de matéria, não de ideias. Sendo estas últimas secundárias em relação aos desenvolvimentos da realidade, e discutíveis apenas quando viram prática, que só podem servir (direta ou indiretamente) aos oprimidos ou opressores.

Refutar esta baboseira, denunciar esta sutil expressão da ideologia das classes dominantes, esta é a função incansável de todo aquele comprometido com a vitória do proletariado e o estabelecimento de sua ditadura.