Violência: Uma pauta que (por enquanto) acaba com todas as nossas energias

Certa vez um amigo me falou que, a pauta da violência consegue esgotar todas as energias produtivas de muitos moradores e ativistas das favelas do Rio. Desde então, sempre que me pego envolvida em alguma questão de segurança pública lembro desse diálogo.
Hoje, ser ativista e morar no Complexo do Alemão exige de mim foco, energia e muito amor. Explico: Sempre gostei de contar histórias de pessoas comuns, todo mundo tem uma história para contar. É essa gente sobre a qual gosto de falar, são essas as histórias que quero ouvir e escrever. Mas, no Alemão, ter foco e energia para retratar esses relatos têm sido cada vez mais difícil. Tem uma única história que há anos tem tomado o centro das atenções: A violência policial.
Ao mesmo tempo que me culpo por não conseguir ter energia para produzir conteúdo sobre as potências do Complexo do Alemão, sei que abandonando essa luta seria impossível travar qualquer outra. A violência e abusos cometidos pelo Estado ultrapassam o limite do impossível. Se existe um único direito violado diariamente na favela, esse direito é o de viver.
E me perdoe os meus amigos de luta, mas a culpa não é só da polícia. Na verdade, essa nem é uma luta em que existam dois lados. Nós não estamos lutando contra a PM, nós estamos lutando a favor das nossas vidas. Mas existe sim um único e grande culpado nisso tudo: O Estado. Seja pela mira do fuzil do policial, seja pela assinatura de um promotor do Ministério Público, é responsabilidade do Estado o que vem ocorrendo nas favelas.
Porque todos nós sabemos que as casas invadidas no alto do morro da Alvorada, no Alemão, só permaneceram invadidas porque eram no Alemão. Imagine o mesmo caso em uma cobertura no Leblon, por exemplo. Ficaria esta casa invadida 100 dias (ou mais)? Sabemos bem a resposta para essa pergunta.
Essa é uma luta difícil, amarga e que dificilmente comemoraremos vitórias. Porque mesmo que as casas tenham sido desocupadas, que os muros tenham sido derrubados e que as famílias sejam indenizadas, existe um único direito violado impossível de ser restabelecido: O nosso direito à vida.
As noites que passamos em claro, os dias que fomos acordados com nossas casas tremendo por causa do helicóptero da polícia, as vidas que são perdidas pela tal bala perdida, o transtorno psicológico que os sons de tiros causam em nossas crianças, esses, indenização nenhuma poderá reverter. Meu amigo estava certo, a pauta da violência realmente nos engole, mas eu ainda acredito que um dia poderemos pautar somente as boas e velhas histórias que merecem serem contadas. Com foco, energia e muito, muito amor pela favela.
Lana Souza é estudante de jornalismo, co-fundadora do Coletivo Papo Reto e estagiária do DefeZap.