Minha avó fez uma cirurgia
60 anos e 20 minutos. Essa é a diferença exata de idade entre eu e minha avó. Ela nasceu no dia 05 de outubro de 1934. Eu à meia noite e vinte de 6 de outubro de 1994.
Há muito mais do que os anos que nos separam, como a distância geográfica e como enxergamos o mundo.
Quando nova, minha vó perdeu a visão de um olho. Sempre disse que foi pela toxoplasmose transmitida pelos animais domésticos, das quais nunca foi fã.
Logo, como passei boa parte da minha vida morando com ela e em quartos compartilhados com parentes, nunca tive um Rex, uma Belinha, um peixinho Nemo que fosse.
Nada mais lógico que, na vida adulta, eu compensasse com uma cachorra de 45kg, e uma busca desenfreada por individualidade e dormitórios solitários.
Não só pelas gerações, em que minha vó nasceu no entreguerras e eu no máximo vou ao Rio de Janeiro, mas há muitas diversidades que nos cercam.
Na família, eu sou conhecida por ter risada alta e temperamento explosivo, nem parte do grupo de WhatsApp eu faço mais. Minha avó é pacificadora, espírita, criou cinco filhos, alfabetizou adultos mesmo depois de aposentada, e engoliu muitos sapos quieta.
Não tenho medo de arriscar a dizer que talvez por isso tenha tido que operar o esôfago duas vezes.
Em sua melhor idade, pegou meus piores anos de adolescência. Embora eu não tenha sido necessariamente rebelde e tenha passado muito tempo no computador vendo desenho, ainda sou difícil com discussão sobre noticiários, hábitos notívagos e questionamentos.
Ainda me pego pensando por que raios eu não tinha a chave de casa.
Não seria uma boa metáfora dizer que saí do colo ou sinto falta da comida da minha avó, porque nunca fomos disso.
Nossa relação tinha mais a ver com a admiração de que embora calma e discreta, ela pintava as unhas das mãos e dos pés de um vinho metálico.
De quando ela voltava do Centro Espírita e mesmo com o orçamento apertado, dividia um sonho de padaria comigo escondido.
Do silêncio que compartilhávamos lendo o jornal de domingo. Dos olhares que trocávamos quando alguém falava abobrinha na mesa da copa, sempre com banquinhos para acomodar todo mundo.
Saí da cidade e da casa dela com um abraço raro e "você ainda vai ser escritora".

Desde então, nosso contato é mais por telefone e eu virei visita. Agora ela tira os panos do sofá para me receber e faz questão de lembrar que eu tomo Nescau, não Toddy.
Quando deixei o cabelo da cor do dela, mencionei que muitas pessoas mais velhas diziam que quando eu tivesse fios brancos de verdade, me arrependeria:
"Ah, mas velho é tudo chato".
Entre as trocas de telefone, fui hospitalizada. Recebo uma ligação e ouço uma voz preocupada: "não esquece que a vó te ama".
Quando saí, era eu que digitava os números para saber mais e tirar a vergonha desse eu te amo que custava a sair.
Hoje a vó esqueceu que é domingo e não passa novela. Outro dia ela queimou os dedos no fogão. Peço para falar diretamente com ela no telefone e minha garganta tornava-se o pior ambiente para alguém com claustrofobia.
Viajo, sou visita novamente e sentamos para tomar café. As pessoas insistem que ela sente e seja servida. Mas espera, precisa pegar a faca da manteiga, do requeijão, "a véia comprou aquela máquina de café de cápsula, você quer?".
— Cadê a colher do açúcar? Esqueci.
— Deixa que eu pego, vó.
— Eu esqueço as coisas, mas é porque eu tô cansada. E todo mundo fica me tratando igual criança.
O constrangimento é mútuo. Ela me mostra o Whey que toma para repor as proteínas e conta dos outros "véios da natação".
Tempo depois, meu telefone toca e minha mãe pede para eu fazer uma oração. Minha vó de 83 anos vai operar.
Vou à igreja e não sei o que dizer, acendo uma vela azul escura em frente a um copo de água. Replico toda e qualquer fórmula religiosa que conheci e choro ansiosa para receber notícias.
Esse ano vamos comemorar nosso aniversário juntas.
