© Copyright Naoko Takeuchi/PNP

A influência de Sailor Moon em meu trabalho artístico

Quando eu tinha 8 para 9 anos de idade, minha mãe, que na época trabalhava na TV Manchete, deu a notícia como se fosse um grande acontecimento: disse pra eu ficar ligada porque um desenho chamado Sailor Moon ia lançar, e eu ia amar! Ela realmente acertou em cheio: Sailor Moon não só foi uma de minhas primeiras paixões, mas também uma das minhas maiores influências artísticas.

A chegada de Sailor Moon ao Brasil foi um divisor de águas. Na mesma época, o SBT passou a exibir Guerreiras Mágicas de Rayearth (ou Magic Knight Rayearth, criado pelo maravilhoso grupo CLAMP, formado somente por artistas mulheres e também responsável por Cardcaptor Sakura) e fiquei simplesmente encantada com o "combo"! Eu já era muito fã de Os Cavaleiros do Zodíaco, mas Saori estava longe de ser um modelo de herorína. Além disso, quando Cavaleiros passava na TV, eu ainda era muito nova e não tinha tanta consciência de que aquele traço era diferente dos desenhos produzidos nos Estados Unidos, por exemplo. Não sabia o que era um anime, muito menos um mangá. E então, tud0 mudou.

Minha experiência com Sailor Moon não se limitou a uma temporada do anime exibido na TV Manchete em 1996. Fã que é fã quer mais, então, quando a primeira temporada terminou e ficamos a ver navios (a série só voltou a ser exibida anos depois, no Cartoon Network), eu fui em busca de mais informações.

Havia uma banca de jornal do lado do meu prédio que era praticamente o meu passeio favorito. Nela, descobri a Animax. A revista foi o meu primeiro contato com o mundo dos mangás e da animação japonesa. Virei uma colecionadora. Na época, não existia essa facilidade toda de mangás sendo vendidos em banca de jornal ou livrarias (pelo menos não no Rio) e, lembrem-se: a internet era discada! Então, a Animax se tornou o meu guia e praticamente meu único contato com o que havia de mais novo nesse universo. Nas páginas, eu descobri a diferença entre mangá e anime, aprendi o nome dos criadores dos desenhos que eu assistia na TV (também adorava Yu Yu Hakusho!) e finalmente descobri o que acontecia na sequência de Sailor Moon. Outra coisa muito bacana da Animax é que ela publicava desenhos de leitores, e meu sonho era ser boa o bastante pra ter coragem de enviar um também. E então, comecei a praticar.

Algumas das minhas edições favoritas da revista Animax, guardadas até hoje.

A arte de observar

Apesar de Walt Disney também ter um papel crucial na minha formação artística, posso dizer que eu aprendi a desenhar de verdade com Naoko Takeuchi, criadora de Sailor Moon, e os chamados shojo mangas (mangás direcionados para o público feminino).

Uma das lições mais importantes foi a observação. Por serem desenhos muito ricos, era quase impossível reproduzir o trabalho de Takeuchi sem prestar muita, mas muita atenção mesmo, em cada detalhe. E eu era disciplinada. Passava horas copiando uma imagem, lado a lado, porque não admitia simplesmente colocar o papel por cima. Aquilo não era desenhar. Eu queria ser tão talentosa quanto Naoko e deveria conseguir desenvolver meu traço sozinha. Era praticamente uma meditação diária — eu não passava um dia sem pegar no lápis!

Abaixo alguns dos meus primeiros desenhos de Sailor Venus (minha sailor favorita):

Desenhos de 2000 (coloridos) e desenho de 1998 (no centro).
Desenho de 1999, quando tinha 12 anos. Um dos meus favoritos!

Passei tantos anos olhando fixamente para aqueles desenhos que acabei trazendo muitas de suas características para o meu traço e, posteriormente, para o meu trabalho como fotógrafa e diretora de arte. Sailor Moon — assim como muitos shojo mangas – é um mangá lúdico, com traços leves, cheio de cabel0s longos e coloridos, olhos expressivos e longas pernas! Minha fixação por figuras longilíneas, portanto, não foi uma influência das revistas de moda, mas sim das meninas de Naoko. Curiosamente, as japonesas são todas baixinhas (assim como eu). Talvez venha daí a fixação pelos metros de perna, que junto aos olhos grandes transformam os personagens em figuras exóticas. A fórmula deu tão certo que não há como negar que até mesmo animações ocidentais como FROZEN tenham hoje forte influência de animes como Sailor Moon. E não só nas proporções dos personagens...

Crystal Tokyo em cena do anime
Palácio de gelo de Elza, em FROZEN

Luz e cores

Outra coisa que aprendi com Naoko foi como trabalhar a luz. Lembro da dificuldade de fazer a finalização do desenho, principalmente quando estava copiando uma foto do anime com aqueles reflexos marcados nos cabelos. Descobri, então, que ajudava bastante pensar de onde estava vindo a luz, e assim comecei a exercitar também a minha pintura com lápis de cor.

© Copyright Naoko Takeuchi/PNP
Foto do editorial Voar Livre, para a edição #19 da revista aLagarta

A forma como Takeuchi trabalha com a luz em suas artes é muito especial e felizmente, conseguiu ser bem reproduzida também na televisão. Tenho certeza de que foi de Sailor Moon que herdei esse minha preferência pela luz natural na fotografia, assim como a leveza obrigatória no trabalho final.

Neo Queen Serenity em Sailor Moon Crystal
Editorial Pela Toca do Coelho, fotografado para aLagarta #20

E não posso esquecer da importância das cores! Como pode-se reparar, o que não falta em Sailor Moon são cores, do cabelos das meninas até as roupas e apetrechos pós-transformação. Quando estourou a onda das fotos lavadas e com cara de analógicas, estilo VSCO, tive dificuldade de me adaptar e experimentar aquele tipo de pós-produção que todo mundo estava fazendo, tamanha a influência do universo colorido e vibrante da série.

Transformações de Usagi e Chibiusa no anime dos anos 90
Estado Primitiva, editorial fotografado para aLagarta #13
Anime Codename Sailor V
Foto do editorial Belle de Jour, para aLagarta #18
© Copyright Naoko Takeuchi/PNP
Foto do editorial Le Temps de l'Amour, para a edição #12 da revista aLagarta

Liberdade

Lembro até hoje de um croqui que desenhei, quando tinha uns 14 anos, no qual minha modelo mostrava um "side boob" em um top decotado. Meu pai achou que estava explícito demais e não entendi a crítica. As roupas de minhas meninas sempre tiveram decotes, fendas e transparências, mas eu sempre conseguia manter o equilíbrio. Também nunca tive vergonha de fotografar corpos nus, de forma que a nudez nunca era pejorativa em minhas fotos. Eu conseguia manter a leveza, afinal. Essa foi outra forte influência do shojo manga no meu trabalho, pois a nudez e a abordagem da sexualidade como algo natural estão presentes em muitos mangás e animes, sendo eles feitos "para garotas" ou não.

Sailor Mercury em sua transformação
Editorial Lady in the Water, aLagarta #2

Há quem pense que uma história como Sailor Moon não passa de um "mangá açucarado e bobo para meninas". De fato, muito foi censurado quando o anime chegou por aqui nos anos 90. Porém, além de um leve toque de sensualidade, a história original guarda muitas surpresas: é cheia de mensagens positivas de força, coragem, fé e, principalmente, amor e liberdade. De casais homossexuais à heroínas trans, até a tradicional 'família margarina', cada tipo de relação é representada na série. Tudo isso, acredito, contribuiu para a formação de uma geração de jovens artistas, que hoje se manifestam com muito mais liberdade.

Sailor Neptune e Sailor Uranus em Sailor Moon Crystal

As aventuras, desafios e relações de Usagi e suas amigas sailors nunca estiveram tão atuais. Não à toa, depois de completar 20 anos (em 2012) Sailor Moon ganhou uma bela repaginada: foi lançada a série Sailor Moon Crystal (que tenho acompanhado aqui), a versão em português do mangá, que também foi redesenhado, e uma exposição no Japão. Vida longa!

_

Post originalmente escrito para o blog da revista aLagarta.

Clique aqui para ler mais um ótimo post, do GWS, sobre a influência de Sailor Moon.

Like what you read? Give Carol Lancelloti a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.