Emma Watson como Bela em A Bela e a Fera

Prestigiando Bela

Crescendo com A Bela e a Fera e impressões sobre a nova versão

Costumo brincar que a canção "A Whole New World" de Aladdin, foi a "Let it go" da minha geração. Muito bonita e emocionante, tocou até nas rádios no Brasil. É também impossível negar a influência de Jasmine nas brasileiras. Uma princesa com a qual muitas meninas daqui podiam se identificar, pois tinha cabelos negros e pele morena. Jasmine é uma personagem cheia de atitudes e personalidade forte – e em função dela, por dois Carnavais consecutivos, a fantasia mais procurada no Saara (mercado popular no Centro do Rio) foi com certeza a "odalisca azul". E como esquecer do sucesso estrondoso de O Rei Leão? Porém, quando penso em uma animação da Disney que tenha causado o mesmo impacto de Frozen no início anos 90, mais precisamente nas meninas, com certeza fico com A Bela e a Fera. Prova disso é toda essa animação em torno do lançamento da nova versão.

A Bela e a Fera veio logo após o chamado "retorno" da Disney (com A Pequena Sereia – responsável por reavivar a arte de animação após uma série de fracassos comerciais dos estúdios). O longa foi lançado no dia 22 de Novembro de 1991, pouco antes de eu completar 4 anos de idade, e marcou minha vida pra sempre.

Lembro de ir ao cinema assistir e foram muitos os momentos especiais relacionados à essa animação. Mas talvez o aspecto mais importante tenha sido a forte influência de sua personagem principal na minha formação como indivíduo. Além da minha mãe (que sempre trabalhou fora) Bela foi uma de minhas primeiras referências de mulher forte, destemida e independente (vale lembrar que aqui tenho sempre como base a versão da animação de 1991 da Disney, e não do conto original francês).

Pra começar, ela não é uma princesa, mas sim uma camponesa. Ser princesa de berço é completamente diferente de se tornar uma (casando-se com um príncipe). Esse fator pode parecer bobo, mas faz toda a diferença e é muito importante, pois passa a mensagem que a gente pode se tornar o que a gente quiser.

Seus cabelos castanhos e amarrados com um rabo de cavalo bem simplinho me deixavam feliz, pois na minha cabeça infantil, éramos fisicamente muito parecidas e por isso, eu podia “ser” a Bela quantas vezes quisesse. Perdi a conta de quantas vezes saí de casa pela manhã, caminhando e cantando pela vila onde morava com uma cestinha em mãos, imitando cada passo da sequência inicial do filme.

No início dos anos 90, antes de Mulan e Merida, Bela era, até então, a maior representação de coragem, inteligência e independência dentro das “princesas Disney” já criadas. Além de ser uma pessoa sem privilégios e que precisa ajudar seu pai nas tarefas de casa ("gente como a gente"), é apaixonada por livros. Hostilizada pelas pessoas de sua pequena vila, que não entendem “essa garota esquisita que vive no mundo da lua”, a moça, já no início do filme, se expressa – através de uma das composições mais geniais criadas pela dupla Alan Menken e Howard Ashman – dizendo o quanto não quer aquela vida pacata e tradicional de cidade de interior, e o quanto não quer casar e ter filhos com o galã mais popular da cidade, Gaston.

Sequência inicial de A Bela e a Fera, de 1991.

Na reprise da canção, ela frisa:

“Madame Gaston!”
Can’t you just see it?
“Madame Gaston!”
His “little wife”
No sir! Not me!
I guarantee it
I want much more than this provincial life!
I want adventure in the great wide somewhere
I want it more than I can tell
And for once it might be grand
To have someone understand
I want so much more than they’ve got planned”

A Disney, inclusive, escolheu justamente essa parte da canção para um dos teasers de divulgação do live action:

Um outro detalhe importante em sua personalidade é a mente aberta e a capacidade de respeitar (e amar) as diferenças. Bela enxerga além da beleza estereotipada quando se apaixona pelo ser mais improvável: uma fera profundamente perturbada.

É por essas e outras que fico irritada, e até mesmo emotiva, quando vejo críticas radicais em relação aos filmes e às princesas da Disney, argumentando que passam mensagens de machismo conformismo pra meninas. Afinal, assim como muitas outras mulheres da minha geração que hoje são independentes e atentas aos seus direitos, eu cresci com essas animações. Elas não me fizeram fraca. Acredito, então, que dentro do possível – e dentro da cultura e do pensamento da sociedade de cada década–, as princesas sempre nos passaram (até mesmo nos anos 1940 e 1950) autonomia. Elas foram protagonistas e, apesar da maioria se casar com um príncipe, suas jornadas e atitudes corajosas não foram diminuídas por esse “final feliz”.

Vale ressaltar também que Emma Watson, que tem participação ativa em causas importantes, como a igualdade entre gêneros, provavelmente não toparia interpretar a personagem caso a história não fizesse jus ao que ela defende e acredita.

O novo filme

Para a patrulha dos spoilers: não se preocupem, pois não entrego a seguir nenhuma informação que vá estragar a sua experiência (a não ser que você nunca tenha assistido à animação, é claro).

Na madrugada de ontem (15/03) eu estava prontamente na primeira sessão do novo filme, dirigido por Bill Condon. Meus olhos marejaram já nas primeiras notas do piano.

Pra começar, não recomendo o 3D, que na minha opinião, é desnecessário. Aqueles óculos sempre escurecem a tela e os efeitos não são grande coisa. Por isso, sempre que possível, prefiro assistir sem essas firulas. Mas no caso da estreia, só tinha essa opção.

Uma das minhas primeiras impressões (positivas) foi perceber que muito pouco foi modificado no roteiro da animação. Muitas das falas são, inclusive, as mesmas! Talvez porque A Bela e a Fera continua sendo uma história bem atual.

Nunca assisti ao musical da Broadway e desconhecia alguns pontos da história pessoal de Bela e do príncipe (como a morte de suas mães), que não são contadas na animação, por isso, achei bacana o novo filme trazer essas informações (que nos ajudam a entender um pouco mais sobre cada personagem).

Apesar da moda do século XVIII estar muito mais presente no figurino nessa versão, fiquei impressionada com a respeitosa e cuidadosa referência ao visual da animação original. Ela está ali o tempo todo, na cartela de cor, na direção de arte, nos pequenos detalhes. Mas senti falta especialmente dos vitrais, que me marcaram muito visualmente na animação original, mas não estão presentes no live action.

Também fiquei de leve decepcionada com a cena da biblioteca da Fera, que em mim causou muito mais impacto na animação. Deveria ser o mesmo no live action, afinal, é um dos momentos mais emblemáticos da trama. Mas essa é uma observação muito pessoal. Não entendi também a bookshop da vila (tão importante pra Bela!) ser substituida por uma simples biblioteca de igreja com uma gigante imagem de Jesus Cristo crucificado. Momento mais nonsense de todos. Vou fingir pra sempre que não vi.

Tirando esses deslizes, o filme é impecável e ainda conta com um time de atores de peso, como Emma Thompson e Ian McKellen. Não há muito o que criticar. Confesso que olhando com os olhos de quem sempre foi fissurada na animação, em certos momentos tive dificuldade de lidar com alguns detalhes diferentes, como o cabelo de Emma Watson ser mais claro e ter luzes (prefiro Bela com os fios castanhos escuros).

Ainda sobre Bela, é óbvio que a voz de Paige O’Hara (dubladora original) é insubstituível, mas Emma segurou bem a responsabilidade, e tornou mais doce a interpretação. Apesar da atriz dizer que essa nova Bela está um pouco mais forte e ousada, eu penso o contrário: a nova Bela me pareceu mais menina em alguns momentos.

Realmente entendo que a escolha de Watson pro papel foi ideal, por diversos motivos, mas durante o filme fiquei me perguntando se outras atrizes menos conhecidas, e com mais traços parecidos com os da Bela da animação, não poderiam ter feito também um ótimo trabalho. Fiquei lutando contra essas pequenas estranhezas durante o filme, amando e ao mesmo tempo me contorcendo um pouquinho, como se algo estivesse sendo mexido dentro de mim. Porque, assim como eu, acredito que muitos fãs de A Bela e a Fera (e de outras animações de sucesso) sentem-se “donos” daquela criação, afinal, nossas infâncias sem a participação dessas histórias e personagens definitivamente não seriam as mesmas. E também não seríamos as mesmas pessoas, hoje.

Saí feliz do cinema. Quase aliviada, na verdade, depois de conferir que um dos filmes mais importantes da minha infância teve uma nova versão à altura.

No mais, fica aqui a minha gratidão à Bela por tantos momentos bonitos e lições que me acompanham até hoje na vida adulta. E minha recomendação pra que meninos e meninas que ainda não conheçam a história sejam levados pra se encantar.

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