LEIA ESTE TEXTO ANTES DO NATAL

Atenção! Este texto é pesado e começa assim: família é foda.

Os irmãos são cúmplices, os pais (homem e mulher) transam, os tios são doidos e extrovertidos e um apoia o outro desde sempre e para sempre.

Quer dizer…

Eu conheço o prazer de comer almoço de vó, de subir na árvore com os primos, de ouvir histórias de avô, de comer bolo com a tia, chorar em casamento, chorar em nascimento e chorar de saudades.

Eu conheço também o desprazer de apanhar, de bater, de estar no meio de briga, de ouvir e fazer fofoca, de ofender e ser ofendida, da ordem, do discurso e do desamparo.

É sangue do meu sangue

Eu, sinceramente, não sei mais o que isso quer dizer. O que eu sei é que, por isso, existe em mim uma obrigação de me expor à situações em que eu sei que vou me sentir mal e, se eu não me exponho, a culpa me corrói.

E é por um pensamento torto desse, imposto por sei lá quem, que eu quase sucumbi a um desgraçamento mental cabuloso. Porque verdade seja dita: família sem laço afetivo é o relacionamento mais tóxico que a gente pode ter.

Em busca da homeostase

A Malaco diz que só estuda cérebro quem quer consertar o seu. A Malaco é muito sabida. E aqui começa a parte em que vou contar coisas que aprendi na pós de Neurociência.

A homeostase é o processo de regulação pelo qual um organismo mantém constante o seu equilíbrio. Para Gestalt, a homeostase não é só fisiológica, ela não se refere só a frio, calor, fome, sede, essas coisas. Ela é também psicológica. Achei um blog que chama Gestaltizando e nele está escrito assim:

Uma pessoa que se encontra com dificuldades na vida, que se encontra em momento de dor, sentindo-se deprimida, com fobias que não consegue explicar ou resolver, na verdade está numa busca desesperada por reestabelecer seu equilíbrio. Alguma coisa ou acontecimento, em algum momento, interrompeu a sua possibilidade de autorregulação com o meio, de satisfazer suas necessidades.

Vixe.

E ainda tem outra coisa. Aprendemos na aula que a gente tem, além das necessidades fisiológicas, 5 necessidades sociais. Vou bem copiar do livro Psicologia do Myers porque tá bonito lá:

  1. Segurança: sentir que o mundo é organizado e previsível;
  2. Pertencimento: amar e ser amado, pertencer e ser aceito, necessidade de evitar a solidão e a separação;
  3. Autoestima: realização, competência e independência, necessidade de reconhecimento e respeito dos outros;
  4. Autorrealização: necessidade de realizar plenamente nosso potencial individual;
  5. Autotranscendência: é a necessidade de encontrar sentido e identidade além de si, o significado de sua própria existência.

A ordem nem sempre é essa e todas, menos a autotranscendência, são necessidades que podem ser saciadas pelo ambiente, não precisa ser pela gente. O que importa é: se uma delas está num nível baixo, todas elas caem junto.

Eu, tu, elxs. Nós, vós, família.

O ser humano não foi feito para ficar sozinho. Acontece que eu não pedi para nascer, muito menos para ser companhia obrigatória de alguém. Eu nasci intransitivamente. E os ambientes em que me desenvolvi me fizeram tornar isso aqui. O que me obriga, então, a me encaixar numa forma ou grupo que eu não escolhi e que me faz mal?

R.: Nada. Nadinha

A cobrança interna de se fazer pertencer é destruidora. Naquela lógica ali, sem pertencimento, caem a autoestima, a segurança, a autorrealização, o significado de existência. Inclusive, eu já perdi o meu, mas eu já o achei.

Almoço de Domingo

Pode ser o mesmo sangue, a mesma infância, a mesma casa, mas as experiências às quais as pessoas são expostas modulam seu modo de pensar e agir. Não há nada que possa ser feito a respeito disso a não ser dialogar. O diálogo intermedeia a troca de experiências enquanto o discurso destrói e anula o respeito pelas diferenças. Se não há diálogo, não há amor. Não tem como haver.

E tudo bem. Não é preciso esperar que amor esteja dentro da família, afinal

O laço afetivo não é consequência do laço de sangue.

Entender isso é libertador.

Instantaneamente somem as cobranças internas, anulam-se as cobranças externas, a obrigatoriedade da presença e o falso sorriso. O pertencimento reaparece noutro grupo, a autoestima sobe e todo o resto entra em harmonia. A partir daí, fica tudo bem. “Homeostaticamente”.

Eu ainda ouso dizer até que é possível começar a construção de um laço afetivo, já que, a partir de agora, a gente entende que ele não vem de graça.

O meu lar encontrei nas pessoas que amei

(Francisco El Hombre — Minha Casa)

O Ministério da Saúde Mental Que Eu Acabei de Inventar adverte: a transição da percepção de família para formalidade é dolorosa e prejudicial à saúde. Só não é pior que a sua transformação em algo que você não é.

Vamos falar mais sobre isso?

Foto: Ana Pedroso https://www.instagram.com/anapedroso/

    Laíza Rocha Negrão

    Written by

    Brazilian + copywriter + french learner + neuroscience reader

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