Eles passarão, eu passarinho

O Facebook me traz no meio das centenas de assuntos que me interessam no dia a foto de um homem lindo. 17 “amigos” em comum. Curiosa, clico no perfil. Em um dos posts públicos ele está falando sobre usar uma saia para ir à Parada Gay deste final de semana, dos olhares no caminho, do seu sorriso em resposta e de como é “não ter que se fantasiar de hetero” ao usar uma vestimenta que se designou não pertencer ao seu gênero (discordo do resto do mundo, acho saia masculina sexy — mas também não sou hetero então, tergiverso).

Se fantasiar de hetero para “passar”.

Lembro dela, da amiga querida, do dia em que nos encontramos na Paulista e o brilho nos olhos dela estava um pouco apagado pela tristeza. Ela usava uma camisa jeans apertando os seios, um casaco folgado por cima, rabo de cavalo e um boné que não combinava com ela de forma alguma. “Você acha que eu engano? Preciso pegar um documento e eles ainda usam a minha identidade antiga”. Eu queria gritar com aquelas pessoas, eu queria ver quem ia ousar dizer uma vírgula que fosse fora do lugar na minha frente, eu queria causar, rodar a baiana, abraçar minha amiga. Mas tudo o que eu podia dizer é “Sim, está! Vai dar tudo certo!” e torcer para o tempo passar e ela poder finalmente trocar seus documentos.

Não poder “passar”, não poder ser invisível, causa mortes.

De saia não dá para se fantasiar de hetero para evitar homofobia.

Amarrar os seios e disfarçar o corpo para evitar a transfobia.

E ninguém sabe que desperdício é julgar o homem lindo, a moça trans e todas as outras pessoas que não conseguem se encaixar mesmo tentando muito. Eles costumam ser bem mais divertidos.

Like what you read? Give Lanika a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.