Tô colando aqui uma resposta que dei no Facebook, que mostra como uma mulher se sente.
Vamos lá: estupro enquanto recurso narrativo e motivador já foi usado como uma saída fácil até o ponto da saturação. Uma mulher em cada cinco é estuprada e QUASE NUNCA o estupro real aparece na ficção.
O estupro da ficção raramente ocorre com o personagem que é o foco da narrativa. Ele ocorre por um "vilão" contra um interesse afetivo do protagonista. A não ser que seja mulher, porque a mulher protagonista estuprada pelo vilão irá se tornar uma badass chick sedenta por vingança.
Mentira. Crueldade, até.
Para começo de conversa, a maioria dos estupros não é tão preto e branco como a narrativa cliché. É o babaca na festa que se aproveita da mina bêbada, que vai passar a vida inteira se culpando por isso. É o marido que faz sexo com o corpo da esposa enquanto ela está dormindo porque ele acha que ela é sua posse. É o amigo da faculdade que vai no seu apartamento para fazer um trabalho, pede para conhecer a casa e te agarra no quarto. É o namorado-quase-noivo que sem explicação nenhuma, no meio de um sexo que começou consensual, começou a espancar a namorada. O motivo ninguém nunca saberá e *não saber porque* faz com que ela não consiga se curar por décadas e tenha muita dificuldade em confiar nos outros.
O estupro é uma violação da segurança que você sente de estar sob controle do próprio corpo. É mais que uma violência física, ele é uma violação da alma, de quem você é. É uma ferida muito profunda que cicatriza muito mal. É que nem luto: você nunca vai ter aquela pessoa querida que morreu de volta na sua vida e anos depois ainda vai doer mas você tenta não pensar nisso no dia a dia para não enlouquecer. Mas aí vem uma notícia na TV ou um cheiro ou um jeito de alguém mexer o braço e a memória volta como se fosse ontem e é um soco no estômago e dá falta de ar e vontade de chorar desconsoladamente.
E, sim, homens também são estuprados e existem vários relatos na Internet de quão péssimos eles se sentem.
Tem que ser muito forte para superar um estupro mas estupro não é uma aranha radioativa que te dá super poderes e força sobre humana. Ao contrário, estupro quebra. A pessoa passa anos colando os cacos.
Eu estou de saco cheio do estupro como recurso narrativo. Existem infinitas outras formas tanto de violência quanto de motivador de vingança.