REFLEXÕES SOBRE O EGOÍSMO E O AMOR-PRÓPRIO.

Em um curso que fiz sobre Comunicação Não Violenta e Neurociência na Casa do Saber ouvi de uma brilhante neurocientista que lecionava na Universidade de Chicago uma definição chocante, lúcida e pouco articulada em nossa sociedade:

O egoísmo é nossa condição inata. Até mesmo quando praticamos altruísmo, estamos sendo egoístas.

Me feriu. Eu que sempre fui entusiasta do voluntariado era então apenas refém do meu próprio egoísmo?! Mas como poderia ser considerada ruim aquela minha nobre atitude de doação só porque ela respondia, em sua essência, à uma condição que me faz humana?

Eu já construí casa para uma família de uma comunidade em um final de semana. Já doei comida, já mobilizei pessoas, troquei conhecimento, abri a porta da minha casa, negociei plataformas, doei meus aprendizados profissionais, dediquei meu tempo, investi dinheiro, usei até a minha própria imagem para ofertar o produto alheio. E tudo pelo meu próprio egoísmo… Quem diria?!

Doeu, mas não me fez sofrer. Machado de Assis concordaria comigo em questionar se realmente esse egoísmo é ruim uma vez que acaba por privilegiar o outro e me conectar com algo maior do que meu próprio umbigo.

Fui fazer o que mais gosto de fazer no mundo: estudar o sentido mais puro dessa nova realidade e criar uma teoria própria para guiar minha própria jornada. E é isso que vim dividir nesse texto — uma TEORIA, uma ideia, que está em validação prática na minha própria vida há algum tempo — só que atualmente de maneira mais consciente e consistente.

Se você chegou até aqui, acompanhe meu raciocínio comigo e vamos do começo: Qual é o significado da palavra egoísmo?

Segundo o dicionário: Hábito ou atitude de colocar os interesses, opiniões, desejos, necessidades próprias em primeiro lugar em detrimento do ambiente e das demais pessoas.

Ok, vamos partir do princípio exposto acima de que TODOS NÓS temos esses hábitos e atitudes em nossa própria natureza antes de sair julgado isso moralmente. Isso posto, posso começar minha narrativa.

Sou fã e entusiasta do autoconhecimento, nunca economizei na hora de decidir fazer um curso, ir em um evento ou comprar um livro sobre o tema. E antes de me embriagar na ideia de acreditar que o autoconhecimento tem a ver com a gestão das minhas vontades, rapidamente, entendi que o autoconhecimento estava muito mais ligado com a minha capacidade de encarar meus demônios de frente e quem sabe aprender a regula-los do que com o que me dava ou não prazer.

Todos nós temos nossa própria batalha travada nessa existência, mas enquanto alguns soltam as suas armas para apontar culpados, outros verificam como podem atirar melhor da próxima vez, entendendo e aceitando o que os enfraqueceu no passado, não deveria mais atingi-los.

Passei a preferir os “egoístas” em detrimento daqueles que culpam. Passei a preferir aqueles que cuidam de si e oferecem sua melhor versão em detrimento daqueles que buscam no outro o preenchimento e as respostas para suas próprias lacunas e cicatrizes.

A busca pelo autoconhecimento é um processo por si só bastante egoísta. Onde você se dedica a mergulhar sozinho em uma jornada sombria atrás do seu maior inimigo e o encontra muito bem acomodado dentro do seu próprio umbigo. Me arrisco a dizer que se você olhar com cuidado perceberá que ele se fortalece com cada dia desperdiçado em sua rotina inconsistente.

Quando você aceita enfrentar suas próprias sombras percebe diariamente que sua maior e mais perigosa armadilha é você mesmo, e nesse momento algo poderoso acontece: os culpados desaparecem! O pai ausente, a mãe exigente, o bullying na escola, o ex-namorado… Nada disso é tão destrutivo e nocivo quanto você mesmo.

É preciso se despir e apontar o dedo veementemente para o espelho, porque apenas com a coragem de enfrentar nossos defeitos é que conseguiremos encontrar a cura — se é que ela realmente existe.

Quando cheguei nesse ponto, talvez entorpecida por essas duras conclusões, talvez envergonhada pela minha pequenez, talvez humilhada pela minha própria vaidade ou talvez apenas com medo das feras que encontrei passei a ficar curiosa sobre as verdadeiras expressões do egoísmo.

Comecei a pensar que já que possuo tantas necessidades, deveria me dedicar a atende-las. Comecei a aceitar que não controlo nada e nem ninguém, e por isso deveria estar minimamente atenta a mim mesma, e ao me abastecer devidamente pararia de tentar culpar ou modificar o outro.

Percebi que se tivesse um saldo positivo comigo, teria dinheiro para compartilhar. Percebi que com meu prato farto, seria mais fácil dividir. Percebi que se estivesse inteira, poderia somar. E com meu coração em paz, oferecer escuta não seria mais uma disputa interna contra minha vontade de falar.

Percebi que se respeitasse minhas necessidades em primeiro lugar e nomeasse gentilmente esse ato egoísta de amor-próprio teria mais condições de me fortalecer e oferecer o meu melhor para as minhas relações. Seria cuidando bem de mim, que estaria oficialmente capacitada para cuidar melhor do que quer que fosse.

Se não for generoso comigo, como serei com alguém? Se não puder ser exemplo vivo daquele que sonha e se esforça pra realizar como irei fortalecer o outro? Se não vivenciar a disciplina como poderei sugerir esse caminho a alguém?

Decidi me esvaziar das necessidades básicas para me encher do que importa. Decidi dormir bem, comer bem, ler meus livros, artigos, assistir meus teds, seriados, cuidar da minha saúde física e mental e me dedicar às tarefas e ao lazer que me propus viver antes mesmo da luz do sol nascer e de me atrever a sair de casa.

Para assim poder efetivamente SERVIR aquele com quem irei me relacionar. Podendo, quem sabe, logo depois de assumir, aceitar e viver meu próprio “egoísmo”, experimentar a honrosa oportunidade de contribuir, de me doar, estando inteira, completa e em minha melhor versão para o mundo com que me conecto lá fora.

Acredito nessa teoria pelo simples fato de que a mesma neurocientista que me empurrou com força para fora da minha ilusória zona de conforto, me acolheu quando disse: “Felizmente, nós somos o único animal capaz de transcender nossas condições inatas”. E por conta disso, assumo meu compromisso pessoal, intransferível, egoísta e público: “Transcenderás, ou morrerás tentando.”