Bola Fora

Encontrou em meio a bagunça que tirava da garagem uma caixa velha
e empoeirada. Coisas de 30, 40 anos atrás, da sua adolescência,
do colégio. Fotos antigas do casamento, ele ainda tinha todos
os fios de cabelo na cabeça, ainda podia sorrir.
Achou seus antigos cadernos do colegial, rabiscos ingênuos de alguém que ainda não fazia ideia do que era viver.
Foi até a cozinha escura, abriu a geladeira e se serviu de um copo
de leite. Sentiu-se um estranho na casa que lhe custou 30 anos de
trabalho.
Se sentou a mesa e começou a folhear ao acaso, relembrando os planos, achava que a essa altura da vida seria um velho feliz, prestes a se aposentar.
Filhos, netos.
Errou, apostou suas fichas em uma mão ruim. E o pior, ele viu as
cartas, ele tinha a vantagem sobre tudo. E fodeu com tudo.
Hoje era tudo cinza e infelizmente teve que chegar até o fundo
pra ver que tinha caído no poço. As suas coisas encaixotadas num canto, as fotos em que aparece foram retiradas da parede, porta-retratos tombados pelas estantes.
Engoliu o leite, o choro e o orgulho.
Começou a levar as caixas para o carro.
A cada caixa morria um pouco, mas era irremediável o fim. Era
hora de pagar pela péssima pessoa que se tornou.
Olhou o carro estacionando, era ela.
Tinham combinado que ele pegasse todas as coisas e deixasse a chave
na caixa do correio. Ela não queria vê-lo. Tarde demais, ele perdeu
um tempo sentindo pena de si mesmo na cozinha. Ela olhou pra ele
e bufou.

- Achei que tínhamos combinado que você não estaria aqui quando
eu chegasse — disse ela em tom de briga.
- Olha — começou — eu achei que daria tempo, sinto muito.
- Ah claro que sente.
- Putz, eu não quero brigar. Não faz sentido brigar agora.
Eu sinto muito mesmo, pelas coisas que disse e que você sabe
que não são verdade, que eu não penso tudo aquilo de você.
- Agora é fácil você dizer isso não é? Você parecia estar muito
seguro da sua opinião quando me chamou de “vadia dadeira filha da puta”.
- Eu… eu realmente sinto muito. Por tudo. E você não vai mais
ter problemas comigo.
- É? Por que? Tá pensando em morrer é?
- Eu só quero dizer que eu finalmente entendo, não vou atrapalhar
ou atrasar você de alguma forma. Nunca mais, é hora de eu começar
a pagar pelas minhas escolhas.
- Como assim? O que você quer dizer? Olha aqui seu velho besta
se você tiver pensando em fazer alguma besteira e me deixar na mão
você pode para com isso.
- Eu já disse, não vou te atrapalhar. Não se preocupe.

Colocou a ultima caixa no banco de trás. Entrou no carro.
Ela ainda estava ali parada com ar de tristeza.
- Eu sinto muito — disse, ligou o carro e saiu.
Olhou pelo retrovisor e viu sua vida ficando lá trás.
Sozinho no carro, dirigiu até um hotel qualquer.
Pegou um quarto qualquer.
Era assim que seriam as coisas agora, um punhado de “qualquer” e “tanto faz”.

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