15 milhões de méritos

Cresci no quintal da casa dos meus avós. E nesses lugares — geralmente — a gente aprende que, pra viver pra sempre, a gente precisa ser quem a gente deve ser e sentir o que a gente deve sentir. Ser e sentir. As estranhas sensações de impasse que começam a pegar-me pelos quatro pontos cardeais do organismo. São essas estranhas sensações, ou talvez, essa dificuldade, que explora Charles Brooker e os co-escritores de Black Mirror no segundo episódio da série.
A dificuldade de ser e sentir. De não se deixar extasiar pelas histórias de quem nunca conhecemos. De não experimentar o tempo de um jeito descompromissado com a verdade científica, e por fim, não pôr a mão na massa, não agir, não tocar a história, não ter um lugar pra chamar de meu. Talvez, parte dessa resistência e negação se deva a inteireza que esse pronome — meu — nos custe.
Aprendi, nesse mesmo quintal, que todo escândalo gera indignação, perplexidade ou sentimento de revolta. Escândalo é quando perdemos a unidade explosiva que co-move todas as nossas ânsias. Escândalo é o que se dá diametralmente oposto ao que nosso corpo ruge. E a organicidade do tempo nos escandaliza e, por vezes, nos devora, escandalosamente.
A agressão da selvageria operacional se confirma quando esgotam todos os meus desejos identitários, quando perco em mim e no outro. Quando são lançadas as cobranças de metas. O cumprimento de objetivos. As listas. Os modelos gestacionais. A gélida meritocracia que nos põe em lugares distantes e inconcebíveis, antes que nos seja dado o direito, seja qual for.
A ansiedade é o preço do mérito. É a sombra de nosso “eu ideal”, paralisante, que nos impede de tentar — e ironicamente, de arriscar chegar mais perto de quem queremos ser. Que a gente possa lançar uma luz sobre ela, e viver, para que o pulsar seja generosamente maior que 15 milhões de méritos.