Corpo, Amor e Tesão

Minha relação com o corpo se transformou muito ao longo da vida - a relação com o meu corpo e com o corpo alheio. E como consequência a minha relação com o sexo, o desejo, a minha própria sexualidade, também. Tudo foi se transformando em outra coisa. A gente dificilmente para pra analisar o que a experiência faz com a nossa sexualidade, e o corpo é um tema que fica em terceiro plano, naquele lugar das coisas que não é de bom tom observar ou mencionar.

Já fui consumidora de corpos, consumidora da beleza dos corpos padronizados, consumidora de pessoas e de energia sexual, no exercício da pegação desenfreada e da sexualidade mecânica, quando a relação com o meu corpo era de valorização e busca da perfeição estética e eu exigia isso do corpo alheio para ser digno de ser desejado por mim. Nesse tempo, meu contato e minha relação com o corpo eram tão superficiais que o exercício da minha sexualidade se resumia em ser bonita, em cultivar paranoicamente a forma, e nisso eu desconhecia o toque, o contato, a intimidade, qualquer outra coisa além do básico animal. O que me atraía no outro era a plástica irretocável, condição irredutível para ter valor aos meus olhos, porque o valor que eu era capaz de atribuir a mim mesma dependia completamente de estar dentro das mesmas exigências. A vida foi abrindo portais diante do meu caminho, de forma que eu não pudesse optar entre atravessar ou não e fosse sugada através deles em direção a uma transformação que me tornou irreconhecível por dentro e por fora. Claro que eu, a despeito de ser obrigada a atravessar esses portais, não fui obrigada a me transformar com a experiência - e faço questão de valorizar o meu mérito nisso, a minha coragem, ousadia, abertura, as profundidades que sou capaz de desbravar. Eu tive o tempo todo a opção de ser uma vítima do destino, e minha escolha sempre foi outra.

Eu tinha vinte anos de idade quando decidi ter um filho. Meu corpo perfeito e trabalhado de bailarina, ciclista, ginasta, patinadora, trilheira, poderia perfeitamente gerar sem ser afetado por isso. E ter um filho, eu descobri depois, era pra mim naquele momento uma forma de encontrar algum valor mais profundo para a minha existência e para aquele corpo. Mas um acidente de carro se colocou no meu caminho e mudou as possibilidades, abriu um leque maior. Grávida, inválida, deitada numa cama e no máximo sentada numa cadeira de rodas enquanto o meu corpo passava por todos os processos hormonais de uma gestação, eu fui dos 56kg de músculos diariamente lapidados aos 96kg constatados no pós parto. Quando saí da invalidez, eu e meus 1,58m de altura, não me reconhecia e não tinha nenhuma das referências anteriores de valorização de mim mesma. Aquele corpo não era eu. Mas, ainda assim, eu não o recusei - e não recusei porque tinha internamente a certeza de ser capaz de lapidá-lo novamente. Porque, morando naquele corpo, eu não seria merecedora dos corpos que eu cobiçava, eu não seria mais cobiçada como um corpo consumível. Com o passar dos meses, com o retorno à vida e ao movimento, eu vi que isso não seria tão fácil quanto eu pensava. Eu estava sim, emagrecendo, lentamente, à custa de medicamentos, mas estava, e no processo fui me deparando com outras mudanças que a gestação imprimiu no meu corpo além do ganho de peso e que seriam irreversíveis. Estrias gigantescas e abundantes por toda parte tinham gravado um mapa hidrográfico no meu corpo, tinham transformado minha barriga de tanquinho em um amontoado de peles que ficavam mais soltas a cada quilo perdido. Buguei: Emagreço e viro uma senhora de oitenta anos de barriga enrugada ou permaneço gorda? O que seria esteticamente melhor - ou menos pior? Aí vem a notícia do médico. As lesões do acidente exigiam que eu cuidasse do meu peso com urgência e mantivesse o máximo de 59kg pelo resto da vida, se quisesse continuar de pé. Do contrário, a cadeira de rodas aguardava o meu retorno logo ali, sem data definida, mas certo como dois e dois são quatro. A vida impôs a escolha para mim. Nunca mais biquíni - pensei. E pensei que nunca mais ia fazer sexo na vida. Não antes dos oitenta anos. Naquela época eu não tinha condições financeiras de pensar em uma cirurgia plástica, mas tinha toda a disposição de fazer uma intervenção invasiva e perigosa como essa em prol do que eu valorizava como beleza.

Chegar aos 59kg levou anos e, no trajeto, mais uma gestação, três anos depois do nascimento do primeiro filho. E nessa segunda gestação outras mudanças permanentes aconteceram. Meus seios fartos e turbinados, o único orgulho do meu corpo que me restava, no secar do leite materno mediante o nível de estresse físico, mental e emocional que tive de enfrentar naquele período, murcharam. Pronto. Não bastava a barriga, agora tinha também os seios de uma senhora de oitenta anos. Nunca mais biquíni, nunca mais sexo, nunca mais espelho, nunca mais queria ser vista de novo, nem por mim. Sutiãs de bojo e ferrinhos me disfarçavam sob a roupa, mas eu sabia. Eu me via mentalmente o tempo todo, e me via como um corpo inapto para o tesão alheio, incapaz de gerar desejo, de não ser um impacto visual broxante. Encarei níveis extremos de auto rejeição e fui ao fundo da depressão, sem a menor vontade de existir. Nesse ponto da minha vida, eu lamentava profundamente que o mundo fosse tão superficial quanto eu já tinha sido e valorizasse tanto a aparência do corpo das pessoas a partir de um modelo. Eu queria ser vista para além do meu corpo, da minha forma, e achava que tinha deixado de ser superficial. Eu queria ser vista através da minha ‘feminilidade’ (do que eu pensava que isso era) - e isso me fez desenvolver uma expressão exagerada de sensualidade como forma de compensar minha aparência, e quando cheguei enfim aos 70kg, eu era uma sedutora profissional, especializada em toque, em tesão, em ser desejada, irresistível, em proporcionar prazer em níveis absurdos através de todo o corpo e com todos os sentidos (e obtê-lo também), em adivinhar e realizar fantasias, em me sentir um poço sem fundo de poder porque tudo isso me dava um suposto poder sobre os outros, e era uma compensação por ter um corpo “deformado” que eu não era capaz de amar e que estava, em tempo integral, maquiado por lingeries “de babar”. A esta altura, minha sexualidade era quase um vampirismo, onde eu me alimentava internamente da devoção das pessoas ao prazer que eu era capaz de proporcionar e da sensação de poder que isso me dava.

Então veio a doença. Física mesmo e, claro, emocional, mental, espiritual. E, com o desengano da ciência médica, a busca pela cura através da espiritualidade, me proporcionando um profundo contato com minhas sombras, a redescoberta do meu propósito abandonado e, com isso, a reconexão com a minha própria vontade de viver e com o prazer que pode ser obtido fora do sexo com a auto realização, com o auto amor - e com o amor. A cura veio acompanhada por um chamado de mudança de vida e por ultrapassar, sem nenhum esforço, a meta dos 59kg e chegar aos 54kg, cagando e andando para minha barriga e seios de velha de oitenta anos. Eu estava feliz e grata pelo meu corpo funcionar. O corpo, meu e alheio, ganhou outro significado pra mim. Passou a existir conteúdo dentro da forma. Passei a desejar as pessoas e não a estética corporal delas. O tesão vinha de dentro e se manifestava através do corpo e não em função dele. A conexão com o meu corpo se transformou a ponto de sentir o meu útero escolher o parceiro e só fazer sexo com aqueles que reverberassem no meu ventre, entregando a alma que estava dentro do corpo a experiências que transcendiam o prazer físico. Eu me redefini nesse período da minha vida. Eu redefini todos os meus conceitos e todas as minhas preferências e exigências caíram por terra. O espelho realmente se quebrou. As verdades sobre mim, sobre o mundo, sobre o corpo e sobre a sexualidade morreram e deram lugar a outras. O corpo alheio não era mais objeto de consumo, porque o meu corpo não era. E ainda assim, um certo receio, um certo pudor sobre a minha aparência ainda me gerava vergonha. Nada de biquíni pra mim.

Mas as mudanças tinham me levado para um caminho sem volta. E nesse caminho eu encontrei a floresta. E na floresta, eu encontrei uma irmã. E ela me despiu definitivamente - da roupa, da máscara, da rejeição ao meu corpo que me causava medo de ser rejeitada, de ser comparada, da prisão em que meu corpo estava, da prisão em que minha mente estava em relação ao que as pessoas eram capazes de valorizar em mim. Na floresta ninguém estava me vendo. Só ela me via. E ela tinha um olhar generoso, gentil e profundo que me admirava para além das marcas de vida na minha pele. Que via toda a beleza do meu ser e também toda a feiúra do meu ser com igual amor e aceitação. Eu aceitei ser aceita. Eu me integrei com ela, com a floresta, com meu corpo, com minha sombra, comigo mesma. E nada de biquíni pra mim - eu fico nua mesmo, se houver abertura para isso em quem estiver comigo. Sem problema nenhum. E, sabe, depois disso, meu corpo mudou bastante. Minha pele reagiu positivamente a todas essas mudanças e melhorou muito. A barriga não deixou de ser enrugada, mas tem um aspecto beeeeem melhor. Os meus seios voltaram a ser cheios, mesmo em menor volume, e me orgulho deles de novo, aos quarenta anos de idade; saio por aí sem sutiã, ostentando para mim mesma esses seios de meia idade que amamentaram três filhos, desceram até as profundezas da minha sombra e emergiram novamente banhados de vida e de beleza. Não que isso importe tanto hoje, só pra não deixar de dizer que o próprio corpo se transforma através do que acontece dentro da gente. Seios e ventre têm uma conotação de grande relevância para a vida íntima da mulher… São uma metáfora de imensa potência. Eu morro de tesão por mim. E pela alma das pessoas que brilham, cujo brilho sai pelos poros, cuja pele sorri em meio às marcas de suas histórias, transbordando vida em abundância, seja qual for a sua forma. Isso é tesão de verdade. É na alma que acontece. Minha alma sente tesão pela sua e isso se expressa na corporalidade que trouxe nossas almas até esse ponto de encontro. Eu nunca mais fiz sexo na vida, só amor. Mudou tudo. E continua mudando. E só melhora, cada vez mais.

Lara Félix