Filhos do Pai - O massacre das mulheres que não abortaram

Não Se Diz
Aug 25, 2017 · 9 min read

Essa narrativa é especialmente dedicada aos que são contra o aborto, àqueles que se dizem “defensores da vida” e aos que não querem falar no assunto. Eu quero falar. Quero trazer para vocês a perspectiva da minha experiência - que também deve ser a perspectiva de várias outras mulheres. Eu vim falar de quanta hipocrisia e machismo se esconde por trás dos tais valores “morais” e “religiosos”.

Eu tinha o aborto como um dogma na minha vida quando tudo isso aconteceu. Eu era “a favor da vida” também, por isso não quis fazer um aborto e paguei caro por isso. Vivemos em uma sociedade que atribui ao homem a propriedade sobre a mulher, seu corpo, sua vida e os filhos que ela gerar (e a vida deles também). Tive que entender, aos vinte e dois anos de idade, que o certo não era fazer o que todos dizem ser certo, que o politicamente correto depende de que sexo estamos falando e que a vida só tem o seu valor sagrado se for abençoada pela aprovação de um homem. Que o aborto só é crime, pecado e covardia quando é decidido pela mulher - que não é dona de si mesma, do seu corpo e nem da vida que gera - mas que quando um homem (proprietário de tudo isso) decide por um aborto, ele não é apenas lícito - ele é sagrado.

Chocante? Você acha que pode contestar isso? Não pode. Você com certeza já massacrou de alguma forma uma mulher que ficou grávida de um cara que preferia não ter esse filho. Mas eu ainda nem contei a minha história! E ela fala disso, do direito EXCLUSIVO do homem de conceder ou negar a vida a um filho. Do aborto de filhos vivos e do direito que somente eles têm de optar por deixar ou não uma criança nascer. Tomei uma consciência extremamente ampla do que significa machismo naquela época.

Eu tinha vinte e dois anos e era mãe de um menino lindo. Pensava um dia quem sabe ter também uma menina e “fechar a fábrica” com um exemplar de cada sexo. Mas, naquele momento recém-separada, isso não era uma possibilidade e nem sequer um projeto. Estava sanando as dores de um casamento surreal que só podia acabar e as dores de um relacionamento breve que veio depois e que, apesar de breve, mexeu profundamente comigo. Estava mergulhando no meu inferno emocional em busca de alguma luz no fim do túnel e me relacionar não era uma possibilidade. Ter uma criança era algo muito distante, sem prazo e fixado no “talvez”, com grande potencial de nunca acontecer. Até porque eu estava com diagnóstico de endometriose que tornava “impossível” engravidar, e ainda não estava em tratamento. Esse era o meu momento.

Mas eis que me aparece o ex - aquele do relacionamento breve - chorando as mágoas do fim do relacionamento com a namorada. Tão frágil e tão carente quanto eu estava na digestão da separação entre nós. E a recaída foi inevitável. A transa aconteceu. Não usamos camisinha (ele detestava), o coito foi interrompido e não era pra ter nenhuma consequência. No dia seguinte ele foi atrás dela e reataram, eu soube depois. Mas a vida prega peças e eu fiquei grávida.

Escondi a gravidez o quanto pude. Eu não queria aquele pai, mesmo que ainda tivesse que digerir meus sentimentos por ele. Só três pessoas sabiam, e essas pessoas se encarregaram de espalhar a notícia até que chegasse nele. Claro que ele propôs um aborto. Separado de um relacionamento breve comigo quase um ano antes, tentando construir um casamento e uma vida com uma nova pessoa, já com quatro filhos dele e dois dela para cuidar e uma longa fila de filhos abortados dentro e fora dos seus casamentos. Eu até entendo que ele não quisesse um filho naquele momento (uma das razões da briga com a mulher com quem ele se relacionava foi um aborto recente que ela foi obrigada a fazer porque ele não queria a criança), e principalmente que não quisesse um filho comigo, já que não ficou comigo antes. Mas EU queria aquela criança. Tinha certeza de que seria a menininha que eu estava esperando desde pequena. Eu aceitei o bebê, e com isso aceitei também criar esse bebê sozinha, sem o pai. Deixei isso claro desde o primeiro momento. Não estava pedindo nada, estava disposta a nunca pedir nada nem cobrar nada. Aquele seria o MEU bebê. Nem de longe um cara que batia em mulheres e colecionava abortos era o companheiro que eu queria ter na vida e o pai que eu desejava para qualquer criança.

De início, ele pareceu aceitar apesar de preocupado. Tentou negar a paternidade com base no “coito interrompido” para tranquilizar a si mesmo. Telefonava constantemente para conversar, algumas vezes sobre a paternidade, outras vezes para insistir no aborto e pressionar. Eu não queria fazer um aborto. Preferia não ter ficado grávida naquele dia, mas não me via arrancando de dentro de mim a criança que também era minha,e que eu passei a desejar a partir do momento em que soube que existia, independente de quem fosse o doador do sêmen.

Isso se desenrolou entre nós dois, na tensão de conversas breves e ríspidas, por um curto tempo - até que uma alma super benevolente resolveu ir contar para a mulher com quem ele vivia que uma outra mulher estava grávida de um filho dele. Então começou a pressão de verdade. Ele me ligou para dizer que queria vir na minha casa com ela, porque ela queria me fazer perguntas, queria entender como tudo isso aconteceu, e implorou para que eu mentisse e dissesse a ela que usamos camisinha e que ela arrebentou. Consenti. Não estava nos meus planos que ele assumisse a paternidade publicamente, não estava nos meus planos causar mais sofrimento para aquela mulher que tinha acabado de fazer um aborto contra a vontade, não estava nos meus planos mentir. Mas se uma mentira inocente poderia de alguma forma diminuir a dor dela, por mim tudo bem - mas até isso veio a ser usado contra mim depois. Admirei a fibra dessa mulher, que aquele cara definitivamente não merecia. A conversa foi dura, difícil, pra todos os envolvidos. Mas sei que para ela deve ter sido um dos piores momentos que ela já viveu. No rosto dela dava pra ver a angústia e a dor claramente estampadas.

Mas depois disso, para se esquivar publicamente da responsabilidade, que estava publicamente exposta, era preciso usar de todos os privilégios e recursos que os homens possuem para impor sua decisão. Ou seja: era preciso convocar todo o coro de homens e mulheres machistas para me obrigar a fazer aquele aborto, custasse o que custasse. Se fosse preciso, era chamar todos os cidadãos de bem da cidade para me dizer que eu NÃO tinha o direito de deixar essa criança nascer - porque O PAI não queria. E se o pai não queria, ela não devia nascer.

Nunca pensei que fosse ver o que vi e ouvir o que ouvi, muito menos de tanta gente, muito menos tão unânime. Todos - todos MESMO - foram contra a continuidade dessa gravidez. Religiosos, moralistas, feministas, conservadores, artistas, amigos e familiares, e até mesmo a minha mãe, kardecista, moralista e “defensora da vida”, que me ensinou a abominar o aborto, me consolou dizendo que não era problema eu fazer um aborto se o pai não queria a criança, era só pagar na próxima encarnação. Não, não é piada! Ela nem sequer pensou que eu poderia ter que pagar nesta mesmo, saindo arrebentada de um açougue clandestino, e convivendo com um peso enorme na minha cabeça pelo resto da vida.

A partir daquela conversa, eu era a (filha da) puta que seduziu um pobre coitado para dar o golpe da barriga e destruir sua família, de propósito. Que estava empurrando goela abaixo de um pai de família e sua esposa um filho bastardo, para tripudiar sobre a coitada da mulher. Que sabia muito bem que um homem “não podia evitar” quando uma vagabunda se oferecia, e se aproveitou disso para armar uma cilada. Que queria a qualquer custo ficar com ele e por isso se recusava a fazer um aborto. Que ele não tinha tido escolha na hora de fazer a criança porque ele “era homem” mas eu tinha escolha e estava sendo uma grande egoísta e uma tremenda mau caráter. E não era justo que eu impusesse essa criança a ele - mesmo que eu estivesse optando por ter a criança sozinha. Existir era um direito que só o homem poderia conceder a alguém. Quando a mulher se mete a achar que pode discernir sobre isso, não importa qual seja a sua decisão, é uma afronta.

Eu estava grávida e queria que a criança nascesse sem a autorização do pai. Vi todas as minhas crenças sobre o direito à vida, a sacralidade da vida e etc serem ridicularizadas e tidas como “desculpa esfarrapada para a minha maldade” por alguns e como “infantilidade” por outros. Porque - me diziam - era óbvio que isso tudo não era real nem nunca foi. Só eu não sabia? Ou estava fingindo não saber porque era conveniente para mim?

Eu recebi dúzias de telefonemas com esses conteúdos. Recebi pessoas na minha casa que vinham só pra cuspir tudo isso e me dizer que, se eu tivesse um pingo de vergonha na cara, ou de dignidade, ou de moral, ou de decência, ou de decoro, e até de piedade cristã, eu faria um aborto. Para ser uma “mulher decente” eu tinha que fazer um aborto. Pronto. O aborto era a única escolha aceitável nessa situação. Não fazer esse aborto era assinar um atestado de próprio punho em que eu me reconhecia uma puta, canalha, golpista, mau caráter, sem coração e sem escrúpulos, incapaz de amar ao próximo. O pior exemplar da escória humana. Seis meses e meio de telefonemas assim.

A pressão foi esmagadora mas eu preferi passar o resto da minha gravidez absolutamente sozinha - e nos raros momentos de encontrar com alguém engolir todos os desaforos e agressões possíveis e imagináveis - a fazer aquele aborto que para mim era algo inconcebível naquele momento da minha vida. E assim foi.

Entrei em depressão, mal fiz o pré-natal e, para melhorar tudo, eu morri por alguns segundos na mesa de parto com uma hemorragia que (literalmente) lavou de cima em baixo o médico, a enfermeira e a sala de parto inteira. Quase não saí viva dali. E não tinha NINGUÉM comigo. Nem um parente, nem uma amiga. As enfermeiras me pediam o telefone de alguém caso precisassem chamar pois eu ainda estava em risco e eu não tinha nenhum pra dar. Me perguntavam o telefone do pai e eu não tinha um pai para chamar. Depois de dois dias, soro num braço e sangue no outro, acho que alguém resolveu dar pela minha ausência. Chegou a enfermeira, toda contente, me dizendo “viu? A menina tem pai sim e ele chegou pra conhecer a filha! Você vai ver, ele vai se derreter quando olhar pra ela”...

Porque o homem é tão bonzinho, né?

Entrei em pânico. Minha vontade era de pegar a minha filha e sair correndo dali. Mas eu estava prostrada, verde, fraca. Mal podia tomar banho sozinha. Ele entrou, sem dizer nada, pegou a minha filha e levou pra perto da janela. Eu não podia ver de onde estava na cama. Ficou com ela por um tempo que me pareceu uma eternidade, me torturou até ficar satisfeito. Depois voltou para devolver a criança e dizer “Pensou que eu tinha jogado pela janela? Não. É linda igual à mãe. E aliás, parabéns pela SUA filha”. E saiu.

Pessoas me ameaçaram caso eu pedisse exame de DNA. Caso eu pedisse qualquer coisa. Eu me recolhi por muito tempo dentro de casa. Não conseguia confiar em ninguém. Tinha medo de deixar qualquer pessoa chegar perto da minha filha. Me agarrei a ela vinte e quatro horas por dia com medo de que alguém pudesse ser capaz de matá-la. A depressão pós-parto foi cruel e durou cerca de um ano e meio - em que eu fiquei absolutamente sozinha e reclusa. Reconstruir a minha vida foi bem difícil. Nenhum dos lugares e nenhuma das pessoas de quem eu já tinha gostado estava disponível para me acolher. Eu, a criminosa de sangue frio. Eu, a puta golpista. Eu, a culpada por todas as coisas ruins que aconteceram na vida daquele pobre e inocente homem de bem. Eu, desprovida de piedade cristã. Graças a Deus! Eu com a minha filha!

Não me venham com esse discurso de que a mulher que aborta é um ser humano egoísta, irresponsável, que não quer arcar com as consequências dos seus atos, que é capaz de matar um inocente para fugir das responsabilidades e por isso merece cadeia. Nada disso é reprovável quando o comportamento é de um homem. O homem tem o poder divino de vida e morte sobre os filhos, ele pode ser egoísta, irresponsável, matar um inocente para fugir das responsabilidades e consequências com a bênção e o aplauso de todos. É a mulher que não tem o direito de decidir. O homem sempre teve. E quando a decisão é dele não é assassinato, não é pecado e não é covardia. É certo, é justo, é bom. Os sentimentos do homem são os únicos que importam - nem a tal da “vida” é tão sagrada quanto sua vontade. Tenho certeza de que vocês já massacraram mulheres que não abortaram e louvaram homens que abortam.

Lara Félix

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