SUPERADORAS PROFISSIONAIS (as relações abusivas e o que vem depois)

Sou uma delas com muito orgulho!
De uns cinco anos pra cá, cada vez que eu escuto ou leio um depoimento, um relato ou um artigo sobre o que as mulheres encaram em suas relações (de todos os tipos) ao longo da vida e identifico as situação de abuso, gaslighting, opressão e manipulação, me sinto no auge da carreira de superadora. Falo do que falo com as mulheres não porque conheço em tese, mas porque vivi. E quando eu digo isso os olhares mudam, como questionando a minha real sanidade mental, a veracidade das minhas narrativas ou o quão doentiamente mal resolvida e hipócrita eu posso ser em segredo. Não. Sou superadora profissional mesmo. Ainda que não tenha superado por completo a totalidade das experiências marcantes da minha vida, estou neste movimento, e consciente.
Filha de mãe abusiva com certo grau de psicopatia que só identifiquei depois de muitas formações em terapias e de muita informação a respeito do tema. Irmã mais nova de um machista abusivo. Cresci sem saber que abuso não é amor e achando que o abuso fazia parte das relações - muito embora eu não quisesse nem fosse fácil experimentar essa parte. Agradeço por não ter tido pai quando penso que ele poderia ter sido mais um abusivo na minha infância se tivesse vivido para isso. Não, não é drama. É vida real mesmo. E sei muito bem quantas mulheres passam por isso sob a vista grossa do mundo ao seu redor - sou terapeuta de muitas delas hoje.
Claro que até certo ponto da minha vida eu só tive relacionamentos abusivos, em maior ou menor grau, já que, fora o fato de um relacionamento abusivo destruir a nossa integridade, eu não podia identificar que o abuso era abuso, já que minhas referências de afeto eram abusivas e eu nunca tinha vivido outra coisa. Mas o importante é como saí da última relação abusiva da minha vida - com uma pessoa que reproduzia bastante o perfil psicótico da minha mãe (embora usasse de ferramentas diferentes).
Eu estava há três anos sozinha, cuidando dos meus dois filhos, e claro, carente. Não tinha muitas oportunidades de sair de casa já que tinha duas crianças pequenas e, como faziam todas as pessoas solitárias na época, entrava na sala de bate-papo para conversar - foi como escolhi começar meu processo de ressocialização após relacionamento frustrante + gravidez não planejada + rejeição social + depressão pós parto que resultou em dois anos de reclusão absoluta. Tinha um grupo de amigos, mais amigas do que amigos, e uma delas acabou me apresentando esse cara. Legal, divertido, simpático, culto. Cativante. E morava numa cidade próxima, ou seja, não estava difícil da gente se conhecer pessoalmente.
E foi assim que tudo começou, com um encontro - físico, químico, explosivo, mágico. Na pele e na conversa. Depois de um tempo de visitações, uma vez por mês ou menos, numa conversa ao telefone eu disse que achava melhor não me envolver num relacionamento à distância, pois eu estava precisando de companhia depois de dois anos e meio sozinha (sozinha MESMO, sem sequer um amigo, por conta do relacionamento anterior ter destruído todas as minhas relações), eu precisava de companhia, precisava sair do isolamento, refazer minha vida e minhas relações, voltar a ter contato humano além dos meus filhos pequenos. Mencionei a idéia de encontrar alguém para morar comigo, nem que fosse um inquilino pra um dos quartos da casa. Então houve o desespero, já que “inquilino” poderia ser homem ou mulher. Mulher podia, homem não. Eu ri disso, achei careta, ironizei, mas não dei importância. Mas, no fim das contas, ele acabou vindo morar comigo - mais para evitar que o inquilino se tornasse real do que por qualquer outra coisa. Mas ainda assim eu achei ótimo, já que o papo era bom e o sexo também, e havia também o sentimento crescendo.
As primeiras demonstrações de perfil abusivo me pareceram mais discursos de arrogância do que qualquer outra coisa, e eu rebati, mas não tiveram a importância que deveriam ter. Se referiam a invalidar meus conhecimentos e experiências nas nossas áreas de interesse comum e se colocar como infinitamente superior no assunto, mesmo sem ouvir o que eu tinha a dizer, de forma que qualquer coisa que eu tivesse aprendido com outras fontes ou outras pessoas não poderia sobreviver à comparação com o seu conteúdo - ou seja, daquele momento em diante, somente ele seria minha fonte de consulta e a única opinião válida no Universo. E isso, sem que eu percebesse, me colocava numa posição subalterna, na posição de discípula, alguém que não tem suficientes condições para pensar e agir a partir de seu próprio conhecimento.
Depois vieram as situações de machismo explícito - as clássicas - que também revidei (mas nem por isso mudaram) e às quais também não dei a devida importância, já que o mundo inteiro era machista mesmo:
- Eu era mãe solteira e deveria dar graças a Deus por ter encontrado um cara como ele, que estava fazendo o favor de me tratar como uma mulher direita e não como uma qualquer. Jamais iria encontrar outro que fizesse isso. Ainda mais com DOIS filhos! Quem poderia querer uma mulher “dessa” para mais do que uma trepada?
Apesar de eu pensar diferente e argumentar a respeito, meus argumentos não apenas não eram válidos, como também me colocavam diante de duas sinucas: 1) eu não tinha suficiente discernimento para saber do que estava falando; 2) eu estava sendo hostil e agredindo gratuitamente uma pessoa que só queria o meu bem.
- Amigos homens eram caras que queriam só me usar e faziam o teatro da amizade para isso, porque amizade entre homens e mulheres só era real se fosse “colorida”. Amigas mulheres eram pessoas que queriam nos separar porque tinham inveja do meu relacionamento ou porque queriam me arrastar para a putaria. Resumindo, nada de amigos e vida social. Eu era “ingênua” e ele estava “me protegendo”.
- Eu era “gorda” e devia estar agradecendo por ele “não se importar” com isso. Inclusive, andando juntos pela rua, ele fazia questão de virar e acompanhar as mais magras, e até mesmo mexer com elas, para deixar o mais claro possível que tipo de mulher ele achava interessante e de que tamanho era o sacrifício de “me aceitar como eu era”. Não que eu estivesse realmente gorda. E mesmo que estivesse! Mas ele queria que eu me sentisse em dívida por ele estar comigo, que eu acreditasse que não era digna de ser amada, que tirei a sorte grande por tê-lo encontrado, que apodreceria em vida sem ele ou então pior, que seria usada e abandonada sucessivas vezes por homens que não tinham um décimo da sua generosidade infinita, para que eu não reagisse mais a essas situações e me submetesse. Porque eu reagia. Eu argumentava.
E em todas as muitas situações abusivas, quando respondi e questionei o que ele dizia, ele era a vítima. Vítima da minha estupidez, do meu excesso de sensibilidade, da minha tendência ao dramalhão, da minha falta de bom humor, do meu exagero, da minha condição de perturbada emocional, do meu nível de exigência tão extremo que mesmo sendo um cara maravilhoso ele jamais poderia atender, da minha incompreensão, da minha idealização de príncipe encantado que fazia com que eu exigisse que ele se transformasse num boneco Ken. Ele era vítima. Sofria com a minha crueldade, com a minha ingratidão, com a minha incompreensão, com a minha total falta de entendimento da realidade. Eu realmente não merecia um cara tão legal! E então, após estes momentos de embate verbal,começava o jogo da frieza. Distância, indiferença, ausência e greve sexual, para demonstrar quanto mal eu fazia a ele até que me sentisse culpada o suficiente. Mas nunca era o suficiente. Ele se mantinha inflexível no distanciamento enquanto eu rastejava inutilmente em busca de atenção, e isso se estendia até que eu explodisse. E então, mais uma vez ele era a vítima. De uma pressão insuportável, de uma carência extremada, de uma exigência absurda. Eu tinha um grave problema e estava descarregando sobre ele, coitado, que fazia absolutamente tudo por mim e jamais era o bastante. Diante de qualquer situação que chamasse ao diálogo, ele encarnava o papel da criança oprimida e me deixava falando sozinha, para em seguida usar tudo o que eu tivesse dito contra mim, virando o jogo e me transformando no pior algoz que ele já tinha visto, enquanto ele, vítima, suportava minha crueldade porque me amava incondicionalmente. Ele era vítima porque ele jamais gritava, jamais perdia o controle - enquanto eu me exasperava diante das situações em que não conseguia me posicionar e me fazer entender. Não havia uma brecha por onde fazer valer a minha opinião, e eu sentia que precisava gritar para ser ouvida. Ele era vítima porque era uma pessoa equilibrada “tentando ajudar” uma louca fora de si; era vítima porque tinha uma paciência infinita para com os meus “arroubos emocionais”, que suportava pacientemente até que acabassem, para depois me convencer do quanto eu era louca, carente, perturbada e sem nenhuma condição de lidar com a realidade - e ele estava ali para me guiar, proteger, cuidar e amar “apesar disso”, como “ninguém mais iria querer”.
O extremo do extremo foi maltratar o meu filho e praticar abusos psicológicos para que ele se afastasse de mim e eu não gastasse tempo e atenção com nada nem ninguém além dele. Enfim, ele tinha que ter total domínio - intelectual, social e emocional, além de também controlar o meu tempo, minha atenção, minhas roupas, minha sexualidade e toda a minha individualidade: tudo tinha que ser e estar da forma que fosse conveniente para ele.
E a folga, a extrema folga de um imperador que nasceu para ser servido, diante de seu império já conquistado:
Sem trabalhar, sendo sustentado por mim, ele não podia colaborar com os cuidados da casa, pois “não era bichinha para fazer serviço de mulher”, porque “não tinha obrigação de cuidar do filho dos outros”, porque “não foi criado para ser empregada doméstica de mulher folgada”. Então eu me sobrecarregava com o trabalhar fora, cozinhar, lavar a louça e a roupa, etc. Reclamar disso era “pressão psicológica” sobre ele, fruto da minha visão deturpada de realidade e do meu “caráter mimado”. E é claro que eu não dava conta do recado. Mas TINHA que dar. Afinal ele abriu mão de emprego, de projetos, estava sem fazer nada do que gostava, como viajar e fotografar, para assumir uma mãe solteira gorda que nem sabia fazer “papel de mulher”. Eu não fazia mais do que minha obrigação em pagar essa dívida sustentando financeiramente, cuidando dele como um bebê e, claro, me desdobrar também para providenciar as viagens e materiais de fotografia era o mínimo que podia fazer.
Eu sentia no meu íntimo que algo ali não estava certo, mas não conseguia identificar o quê. Me sentia estilhaçada mas não entendia porquê. Não conseguia enxergar a situação como um todo e muitas vezes ficava confusa diante das circunstâncias, me sentindo muito mal e experimentando uma culpa e remorso que não se encaixavam com o que a razão me dizia. Ao mesmo tempo em que no fundo eu “sabia” que algo estava fora de lugar naquele relacionamento, também confiava inteiramente naquela pessoa e nas suas boas intenções - ele gerava um conflito dentro de mim (é o que chamam gaslighting). Eu podia identificar o seu despreparo para lidar com as relações mas não podia confiar na minha visão sobre como um relacionamento deveria funcionar; conseguia identificar grosserias e palavras de depreciação mas não conseguia dissociar isso da culpa que ele me atribuía; enfim, eu não tinha mais nenhuma confiança na minha percepção da realidade. Tinha entrado no jogo dele e não sabia como sair. Eu era culpada por não merecer e tinha que fazer por merecer um amor que jamais havia se manifestado - porque eu não via, não valorizava, não reconhecia. Era uma infinita lista de exigências e obrigações que eu tinha que cumprir para merecer algum retorno que jamais chegava independente do meu esforço. Eu estava sempre em dívida por algo que ele dizia estar me dando e que eu sequer sabia o que era.
Então eu entrei em pane. Meu organismo estava em colapso, meu emocional confuso e adoecido, minha mente saturada, e um milhão de culpas me assombravam em relação aos filhos que ficaram sem a mãe - e a cura dessas relações ainda tem estrada pela frente, mesmo depois de anos. Olhei ao meu redor e me vi em frangalhos, minha vida arrasada e meus filhos em estado de depressão e isolamento. Eu queria fugir. E fugi. Não para muito longe mas para o começo do respirar, para onde eu deveria ter ido ao decidir que minha reclusão precisava acabar. Fui procurar amigos.
Passei a levar os meus filhos para a casa da avó nos finais de semana e não voltar para casa. Ia encontrar amigos e passava todo o final de semana na companhia deles. Não tinha condições emocionais de me reaproximar dos meus próprios filhos, tinha esquecido a mãe que um dia eu fui, tinha me esgotado tanto que não tinha nada pra dar. Eu precisava me abastecer antes. Precisava reencontrar referências sobre mim mesma. Eu não estava totalmente consciente de nada naquele momento, mas estava obedecendo o impulso de ir, ir, ir, só ir...
Ele não era o tipo do cara violento, que batia na mesa ou ameaçava fisicamente - a violência dele consistia em ser uma vítima e me fazer crer que eu era louca, que eu fazia mal para ele, que não era digna do imenso e incondicional amor que ele me dedicava, e colocar minha sanidade mental e emocional em xeque. Cenas de violência e explosão desconstruiriam totalmente a estratégia, então muitas vezes, diante da necessidade de diálogo, ele simplesmente silenciava, para depois entrar no estado de absoluta indiferença. Isso “facilitou” muito, pois ao menos, quando eu voltava para casa, não aconteciam aquelas cenas de Tarantino. Só encontrava um cara com uma atitude de total alheamento, tentando me punir, e que depois viria lamentar por eu ser tão má e egoísta, me advertir sobre os amigos que queriam me usar sexualmente e as amigas que queriam nos separar e sobre os caras na rua me olharem como “mais uma vagabunda se oferecendo” - como eu podia ser tão inocente a ponto de não perceber tudo isso? Era claro que sem a orientação e proteção dele eu iria me foder muito na vida. Só ele se importava comigo de verdade. E eu não dava valor… Nem sequer reconhecia o valor que ele tinha por não me agredir fisicamente como “qualquer homem faria”.
Um dia conheci um cara num barzinho, na mesa de amigos, e mesmo sem sentir o alarme da paixão, resolvi dar o beijo que ele mostrava querer. E foi o começo da libertação. O começo de perceber que eu não era tão pouco assim que ninguém mais aceitaria. O começo de sair do círculo vicioso de ser diminuída e culpada por não gostar de ser diminuída e culpada. O começo de perceber que eu não era louca, não devia nada e merecia mais. Essa situação de passar os finais de semana fora se estendeu por quase dois meses. E os beijos no cara do bar também. Era a fonte de energia e nutrição que eu precisava - uma dose de reforço semanal para a doença de dependência que tinha instalado raízes profundas no meu terreno já bem preparado para conviver com o abuso.
Quando rompi, rompi com tudo. Não, eu não comecei um romance com o cara do bar - ao contrário, rompi com ele primeiro. E na semana seguinte, rompi com os quase cinco anos de convivência com o cara “mais legal do mundo”.
Entrei em uma rotina de trabalhos com Ayahuasca durante meses. Conscientizando, limpando, rompendo elos. Vomitando, cagando e expurgando. Eu sabia que dessa vez não iria dar conta de mim mesma somente com os meus próprios recursos como tinha feito antes em outras situações - que muitas vezes foram “resolvidas” aos trancos e deixaram sequelas mascaradas que me deram muito trabalho. Eu estava determinada a sair daquele estado de vida. Em pouco tempo, eu tinha reequilibrado a minha saúde física e mental, tinha emagrecido e voltado ao meu corpinho dos quinze aninhos de idade - e ao meu espírito de quinze anos também: voltei a sorrir, a perfumar a cama para dormir só comigo, a abraçar meus filhos, a conversar com as pessoas sem neuras e fazer amigos, a andar de bicicleta e patins, a levar meus filhos na pracinha, a balançar na rede, a cantar e a compor música (e as músicas falavam de transformação, de renascimento, de reencontro comigo, de novos caminhos, de se curar, de receber a vida - era o que eu estava vivendo). Tudo ia muito bem.
Mas aí a vida vem e puxa o tapete, acho que para propor um teste final e ver se a gente passa, ver o quanto das lições a gente realmente aprendeu e até que ponto estamos realmente prontas e despertas para entrar pela porta do novo. Não cabe contar a sucessão de desgraças que me atropelou em quatro dias catastróficos em que eu tive que lidar com o que há de pior no mundo, na sociedade e no ser humano, sozinha mais uma vez na vida - e na condição de mulher, que torna tudo ainda pior. Me senti sozinha e perdida num mundo tremendamente hostil e diretamente hostilizada por ele. Num turbilhão de problemas graves, que iam desde ter passado por um assalto e ter todo o meu salário roubado (por um vizinho) até ter sido denunciada como conivente com abuso sexual dos filhos (pelo mesmo vizinho) e ter de provar que a denúncia era falsa, entre mil outras coisas que aconteceram ao mesmo tempo, eu estava confusa, insegura, com medo e vulnerável. Neste momento, encontrar qualquer pessoa que pudesse me parecer familiar era um alívio. Qualquer um teria sido um lar pra mim naquele momento. E assim foi que eu reencontrei o cara “mais legal do mundo” com quem tinha vivido quase cinco anos. E no meio de tudo isso, no meio de todos os problemas que estavam me esmagando, de todas as mudanças que estavam acontecendo, ele chegou dócil e afetuoso como nunca tinha sido, dizendo que me ver como eu estava naquele momento era tudo o que ele sempre quis - claro, “esteticamente correta” e completamente vulnerável, era um sonho de consumo mesmo. Até o cafuné que eu nunca tinha ganhado durante todo o relacionamento eu “mereci” naquele momento - mas foi a única vez. Ele parecia ter se transformado por completo naqueles meses de separação, assim como eu estava fazendo. Acabei aceitando retomar a relação.
No exato momento em que ele se sentiu novamente o “dono do pedaço” (assim que ficou oficializado o aceite), colocou as garras de fora e mostrou realmente a que veio. A primeira atitude que ele tomou foi de jogar o meu gato para fora da minha casa, com extrema estupidez (e demonstrando pela primeira vez um potencial violento), garantindo que ele não voltasse, pois ele odiava gatos e não era obrigado a suportar essa bosta de animal sujo e irritante. Fiquei indignada. Reagi, dizendo que a casa era minha e o gato era meu, e que se não quisesse conviver com gatos era só voltar para a casa dele. Na minha casa mandava eu. Vítima de novo, ele estava me fazendo um favor ao me livrar de doenças, trabalho extra e sujeira, que o gato era ladrão de energia, e, como sempre, estava sendo mal interpretado e agredido gratuitamente.
Eu tinha voltado ao grupo de estudos virtual onde debatia sobre meus assuntos de interesse há vários anos, e ao saber disso, ele também não gostou da idéia pois havia abandonado o grupo durante o período de separação. Em tom áspero me disse que, se soubesse que eu tinha regressado ao grupo, teria entrado novamente também, para que eu não “ficasse à mercê dos caras”, já que eu não tinha discernimento suficiente para perceber suas más intenções para comigo. Eu também tinha marcado um encontro com duas pessoas desse grupo de estudo (um casal) para nos conhecermos, na minha casa, na véspera do meu aniversário, em alguns dias. Foi outra luta. Eu tinha que cancelar, porque não tinha pedido a autorização dele para isso. Não perguntei a ele se queria conhecer alguém ou se concordava com a situação. Não pedi permissão para marcar uma reunião na minha própria casa. Mais uma vez, eu era adulta e tinha direito às minhas próprias decisões, a casa era minha e eu receberia quem eu quisesse - e se ele não quisesse participar era só sair. Vítima de novo. Coitado dele, estava só tentando me proteger, afinal eu nem sabia quem eram aquelas pessoas e o que queriam de mim, e não tinha o menor cabimento o “homem da casa” deixar a mulher sozinha recebendo visitas, e o que essas pessoas pensariam dele se não estivesse lá - olha em que situação constrangedora e humilhante eu o estava colocando! Ele teria que refletir muito antes de chegar a uma decisão a respeito desse encontro.
Bati o pé. Já estava decidido e marcado e a única decisão que cabia a ele era a de estar lá ou não. Eu tinha colocado coisas em movimento na minha vida e não estava disposta a parar. Se adapta ou sai. Então ele resolveu estar. Claro que ele se vitimizou por isso até o último segundo e também depois, por ter sido “obrigado” a fazer algo que não queria só para “me proteger”.
Mas isso foi só o começo de uma série de encontros com cada vez mais pessoas daquele grupo. Para dali a três meses, estávamos marcando mais um, em outra cidade, outro estado. E lá fui eu fazer um contato mais pessoal com as pessoas que iria encontrar, fora do grupo, para conhecê-los melhor. Então a bomba estourou.
Conversei com duas pessoas pelo MSN, um homem e uma mulher, que eram amigos e receberiam o restante das pessoas que estivessem dispostas a ir. Conversar com a mulher não era problema. Mas com o homem sim. Estava terminando a conversa e fechando as janelas do computador quando me dei conta de que ele estava atrás de mim, lendo a minha conversa, me espreitando com uma expressão profunda de reprovação e cólera, como se eu estivesse cometendo um crime. Fiquei indignada mais uma vez. Quis tirar satisfação dessa atitude. Vítima de novo. O coitado só estava tentando evitar que eu fosse seduzida por um desses malandros da Internet, que usam o chaveco esotérico para pegar as vagabundas. E com certeza o cara estava achando que eu era uma delas. O discurso se inflamou e partiu para o “direito” dele de controlar tudo o que eu fazia. Então eu disse a ele que aquele relacionamento acabava imediatamente e sem volta. A discussão piorou. De acordo com ele, ao fazer isso eu estava assumindo estar interessada naquela pessoa, eu o estava “humilhando publicamente” diante de todo o grupo de estudos em que ele estaria fazendo “papel de corno manso”, e isso justificava perfeitamente a vigilância que ele estava fazendo sobre mim - ele tinha toda a razão, afinal eu era “mulher dele”. E além disso, eu era tão boba e incapaz de enxergar e interpretar a realidade que estava sendo seduzida por um canalha, e ia virar “mais uma vagabunda comida e cuspida” sobre a qual ele com certeza iria contar vantagem publicamente depois, diante do grupo inteiro, onde nós dois iríamos passar muita vergonha.
Para mim bastava. Era a gota d’água que faltava. Ali mesmo, menos de um mês depois de ter retomado aquela relação, eu não queria mais isso na minha vida. Definitivamente, eu tinha encerrado este ciclo e queria entrar em outro, e era muito claro para mim que ele não estava disposto a me acompanhar. Ele queria restabelecer a relação no seu próprio molde, que não era bom para mim. Passei no teste da vida neste momento: diante de todas as tentativas de me submeter eu tive a lucidez para perceber e dizer não. Disse não pela última e definitiva vez - ou ao menos eu achava que seria, porque as coisas ficaram muito estranhas.
Ele se recusava terminantemente a ir embora da minha casa. Dizia que não iria embora “da casa dele” nem “me deixar à mercê dos gaviões”. Eu mantinha a decisão de fim e o afastamento físico condizente com ela, mas não tinha muito o que fazer. Me informei sobre o que poderia fazer legalmente para que ele saísse da minha casa e soube que isso envolveria um longo e complicado processo judicial. Enfim, teria que encontrar o meu jeito de resolver isso.
E, enquanto isso, era bastante pressão. Ele era vítima. Expulso de sua casa e de sua família, tratado com frieza, rejeitado e incompreendido. Continuava a fazer cobranças e exigências como se nada estivesse acontecendo, e eu tinha que, quase que diariamente, dizer mais uma vez que não existia mais relacionamento e que eu queria que ele fosse embora. Mas, independente do que eu dissesse, ele não ia. E fazia longos discursos sobre estar sendo “jogado na rua” depois de “tudo o que fez por mim”, porque eu estava “sendo manipulada” para abandoná-lo e não me dava conta, e que ele ficaria ali até o fim para “me proteger”, porque era leal a mim mesmo que eu estivesse cometendo um erro naquele momento, e que eu iria me arrepender muito e voltar para ele, e ele estaria ali do meu lado naquele momento, de braços abertos para me consolar.
Tudo isso era exaustivo, mentalmente e emocionalmente. Eu já não sabia como fazer com que ele entendesse a situação. Ele adotou a postura de fingir que não havia nada acontecendo, que continuava sendo o meu companheiro, e ponto final. Eu ainda não tinha uma leitura lúcida de toda aquela situação e do relacionamento, estava sendo empática com os sentimentos dele e achava que tinha a obrigação de fazer com que ele compreendesse o meu lado e fosse empático comigo também. Não havia alguém com quem eu pudesse conversar e expor o que estava vivendo, alguém que pudesse me ajudar a centrar e tomar decisões em relação ao que fazer, e sem perceber eu ainda estava dentro do jogo, mesmo que estivesse tentando sair dele, pois não tinha consciência de que era um jogo de poder o que ele estava fazendo. E três meses se passaram nessa situação. O encontro de quatro dias do grupo, que havia sido marcado três meses antes, chegou.
Ele decidiu não ir porque eu não aceitava chegar ao encontro ao lado dele como esposa, e isso se tornou uma espécie de chantagem, como se a presença dele lá fosse importante para mim e não para ele, e ele estava impondo a condição de que eu deveria aceitar retomar o relacionamento para que ele comparecesse. No fim, fui sozinha. E lá, realmente começou um envolvimento com um dos participantes do grupo.
Voltei debaixo de um turbilhão de perguntas, foi uma semana de interrogatórios invasivos. Eu estava decidida a não dizer nada a respeito do envolvimento que tinha começado, por medo de que ele pudesse estragar tudo de alguma forma, e ao mesmo tempo, também encontrar o caminho para que ele fosse embora e me deixasse tocar a minha vida do jeito que eu quisesse. Então, numa conversa com uma das amigas que estavam no encontro, ela me convenceu de que era importante que eu expusesse para ele a real situação para que ele se desligasse. Imediatamente eu fui fazer isso. Então ele teve a primeira reação agressiva para comigo. Tão explosiva que eu fiquei por alguns segundos sem ação diante da surpresa. Ele gritava me chamando de vagabunda e dando tapas na minha coxa, esbravejando várias ofensas, dizendo que eu realmente era uma puta, uma mulher fácil, que essa era a razão para que me vigiasse pois aí estava, mesmo ele sendo o cara “mais legal do mundo” tinha sido enganado e traído pela “esposa vadia”. Nesse momento eu reagi. Me levantei e dei o “alto lá”, porque eu não era vagabunda, nem puta, nem vadia, nem tinha enganado ou traído ninguém, pois já fazia três meses que tinha encerrado a nossa relação. Então o susto foi ainda maior, pois, segundo ele, eu não perguntei se ele queria que o relacionamento acabasse e, portanto, não estava nada acabado, pois só acabaria quando ele concordasse com isso. A decisão de separação CABIA A ELE, NÃO A MIM! Indignada, eu questionei se por acaso ele achava que eu era um objeto de propriedade dele para não ter voz ativa na minha própria vida e não ter direito a fazer escolhas sobre o que queria ou não queria para mim. Perguntei que parte do “eu não quero mais”, do “acabou” e do “quero que você vá embora” que eu tinha repetido durante três meses ele não tinha entendido, porque uma coisa era ele querer fazer de conta que não tinha nada acontecendo, outra coisa era isso ser realidade. Uma coisa era ele querer reatar comigo, outra coisa era me obrigar a engolir isso contra a minha vontade. E, segundo ele, eu estava tentando obrigá-lo a engolir o término da relação contra a sua vontade - ele era vítima.
Apesar da discussão ter sido chocante, me trouxe a noção de que ele era realmente uma pessoa com problemas em relação à posse, mais do que eu tinha podido perceber até então. Mas, enfim, eu tinha dado o que ele queria - uma desculpa para o papel de vítima que ele viria a encenar dali em diante para todas as pessoas que nos conheciam, perante as quais eu seria pintada como a mulher vulgar que não dava valor ao príncipe encantado - mas isso é uma outra história dentro dessa história (a história de como as minhas velhas e novas relações sociais seriam afetadas pela capacidade dele de manipular as pessoas através do vitimismo e da mentira e de como as pessoas reagem diante disso, e principalmente, do valor completamente nulo que a palavra de uma mulher tem quando um homem diz o contrário; descobri que grande parte das pessoas sequer se preocupa em ouvir a mulher, o homem é inquestionável) - mas ao menos consegui que ele fosse embora da minha casa, que era o primeiro objetivo. O que veio depois, foram resquícios do poder de manipulação e controle estabelecidos em cinco anos de convivência da qual eu ainda tinha que tomar consciência integral para poder me desvincular. Mas sim, essa relação acabou e não teve retorno. E sim, eu pude, aos poucos, gradualmente, me limpar e limpar o meu terreno interior - e ainda estou limpando - para experimentar relacionamentos que não fossem baseados em dominação, controle e jogos de poder. É possível.
Tudo isso pode parecer um imenso drama pelo simples fato de não haver violência física, mas a verdade é que houve violência psíquica, e que, embora suas marcas não sejam visíveis, elas existem. E não são fáceis de se identificar nem se apagam. A gente aprende a cicatrizar, aprende a reler, aprende a mudar paradigmas, a se desvincular, a fazer escolhas diferentes, a se posicionar melhor, e essas marcas mudam de significado. E no final, esse significado é o que realmente importa. Superar não é maquiar as marcas que a vida faz. É vivê-las a partir do seu novo significado. E nisso eu - e tantas outras mulheres que conheci depois de me tornar terapeuta feminina (não por acaso) sabemos bem. Somos superadoras profissionais de nós mesmas. Mesmo que a gente leve bastante tempo (e leva!) para conseguir entender e organizar esse entendimento e encontrar esse novo significado. E, enfim, perder o medo e a vergonha de contar a nossa história.
Lara Félix
