Toda Nudez

Meu corpo não atende ao padrão, ele já passou por um afogamento, um acidente fatal de carro, três gestações e amamentações, uma crise renal e quatro cirurgias (numa delas eu estive no limiar da morte). Este mesmo corpo que hoje transita nu pelas florestas da Serra da Mantiqueira, cheio de cicatrizes, estrias, celulites. Eu não apenas “moro” neste corpo, eu realmente OSTENTO este corpo, com muito orgulho. Este corpo que resiste, persiste, se regenera, se adapta, sobrevive, vive e pulsa, vibrante. Tenho uma imensa gratidão por ele, me sinto honrada por habitar num corpo tão forte e tão determinado a viver - e a viver bem. Este corpo que depois de tanto ser quebrado e reconstruído, com parafusos e pedaços de ferro, ter ficado torto e ser desenganado pela medicina, ainda dança, pratica montanhismo e ensina os habitantes de outros corpos a amarem a corporalidade da vida. Esse corpo que se consolidou como milagre e que eu aprendi a reconhecer como um lugar sagrado, para desgosto de muitos que acreditam que o corpo é sujo, feio, vergonhoso e deveria ser escondido. Meu corpo é livre. É um corpo de animal terreno feito sob medida para abrigar um aspecto da divindade. Ele está aqui para existir e para que eu exista.

A sociedade abomina a corporalidade da vida, que é onde a vida acontece, e objetifica o corpo, dizendo que apenas os corpos que atendem ao padrão de beleza vigente tem o direito à nudez, para serem consumidos em sua nudez. Minha nudez não é para o consumo de ninguém, é para o meu conforto, é para viver minha naturalidade existencial. Uma simples foto das minhas costas nuas na mata, na capa do meu perfil do Facebook, foi um deus nos acuda de incômodo pelo meu “exibicionismo desnecessário”. Não era um nu erótico, nem sequer era um nu artístico, era simplesmente minhas costas nuas na natureza, que é o que eu experimento no meu cotidiano e, saibam, recomendo como prática de libertação em vários aspectos. Aceitem seus corpos. Percam o medo de estarem nuas. Quando levo outras mulheres para vivências terapêuticas na floresta, não aviso que vão encontrar um lugar de banho, não recomendo levar biquíni. Tiro minha roupa e ostento minhas cicatrizes, estrias, celulites, com toda a naturalidade que isso representa na minha vida, e as convido a permitir que seus corpos fiquem também livres dos elásticos, botões, zíperes, presilhas, bojos - os estribos e arreios feitos para aprisionar os corpos dos animais humanos no cárcere da vergonha. E fotografo. Sem erotismos, sem nada. Só aguardo aquele momento de estarem à vontade dentro de seus corpos, à vontade em voltar para a naturalidade da nudez, de experimentarem a liberdade de não necessitar espremer barriga, levantar peito, esconder marca, e capturo-as em seus corpos, esbanjando alegria, liberdade, beleza, com aquela expressão de alívio que só eu (e posteriormente elas) posso ver. É mágico. E para a maioria delas, é a primeiríssima vez que algumas partes de seus corpos recebem o Sol. Para a grande maioria, é a primeiríssima vez que se sentem à vontade com a sua nudez, e que não se envergonham de outra pessoa estar vendo essa nudez. Não, a nudez não será castigada - não se depender de mim - muito menos pela vergonha, pelas comparações. Ela será abençoada e sagrada. Ela será um momento de reconectar-se ao corpo, a si, ao que há de mais divino e bestial na existência.

Meu corpo e eu temos um nível de conexão que deixa as pessoas pasmas, na mesma medida em que me pasma ouvir de tanta gente que não sente sede, fome, sono, frio, calor, tesão, dor, prazer, ovulação, cansaço. Eu sinto tudo isso e sinto que meu corpo quer se mover ou quer parar, que ele quer este parceiro sexual e aquele não, que ele precisa de um pouco mais deste alimento e um pouco menos daquele outro. Que ele vai adoecer ou está prestes a se curar sozinho, ou que precisa de tal coisa pra facilitar a cura. Com o tempo eu compreendi que as pessoas não estão autorizadas a se conectar com seus corpos. Eles devem ser desprezados ou consumidos sem ter papel nem relevância, devem ser motivo de culpa e vergonha e não de gratidão e honra. E aí acontece que as costas nuas de uma terapeuta na capa do perfil do Facebook é algo que a desmoraliza, e não que a engrandece. Porque o corpo é imoral. Porque ela está oferecendo seu corpo para consumo. Porque essa é a perspectiva de quem não aceita ter um corpo que não atenda aos requisitos para ser consumível e portanto deve ser aviltado pela depreciação. Essa é a perspectiva de quem abomina morar em um lugar tão deplorável como um corpo, com seus pelos, dobras, cheiros, fluídos, peculiaridades e potenciais. Mas não é a minha. Eu sou um animal humano - e um animal da floresta - que acha que os corpos são tão divinos em sua forma e conteúdo que é um sacrilégio consumi-los e um verdadeiro pecado depreciá-los. Rejeitar o corpo é rejeitar a vida, a criação, e todos os aspectos do Sagrado - é profaná-lo, no sentido de apartá-lo de sua natureza milagrosa e sagrada.

Um corpo é um ecossistema completo em si mesmo, auto sustentável, impecável. Ele está totalmente equipado para uma vida sadia, prazerosa e gratificante; é capaz de superar limitações, suportar condições adversas, se adaptar ao meio externo e readequar o meio interno para lidar com qualquer coisa. Ele acopla uma alma imaterial e permite sua manifestação material, ele cria novos corpos para dar vazão a outras almas, ele se regenera, se cura, se limpa, faz tudo sozinho se estiver sendo bem tratado. Mas não nos sentimos no direito de tratá-lo bem. Não conseguimos ver no corpo o milagre que ele representa, após tantos séculos de negação e de associação da “carne” ao pernicioso, ao nocivo, ao demoníaco. Como, então, nos permitir abraçar nosso corpo, abraçar nossa vida (que é proporcionada por este corpo), abraçar a nós mesmas que o habitamos para brilhar, e contemplar o corpo verdadeiramente, para além da análise comparativa do quanto ele pode valer como objeto de consumo, para além da estética plastificada, para além da vergonha pelo pecado original? Como aceitar a vida e a nossa própria presença no mundo sem aceitar o corpo?

Por favor, não julguem seus corpos. Fiquem nuas mais vezes. Vão para a natureza refazer o elo com sua própria naturalidade. Mas não me peçam para negar o meu corpo, para me negar a nudez sem pretensões. Isso não vai acontecer e, se depender de mim, seremos muitas subversivas multiplicando mundo afora a vivência de experimentar um corpo sagrado, com ou sem roupa, em qualquer formato, de qualquer cor, com qualquer idade, em qualquer lugar. Mas principalmente, naquele lugar íntimo onde somos deusas vivas e não poderemos jamais ser profanadas.

Lara Félix