amarrotada

e, antes de levantar queria saber: alguém de joelhos está caindo ou levantando?

e quando caiu, la no fundo olhou para a gota de água que caia, ela também, incontinente num mesmo lugar, formando uma pequena depressão no chão. olhava para cada gota e via o que sobrava daquilo que já se fez morada — seu corpo, sua carcaça, sua caixa de pandora que nunca fora aberta.
e pensava com era possível ter cultivado cada pedaço de desejo sem nunca ter possuído a capacidade necessária para fazer deles árvores com raízes inquebrantáveis.
faltara-lhe sangue.
faltara-lhe seiva.

e hoje faltava-lhe ar.

e olhando cada gota finalmente via o que nunca viu, finalmente reconhecera no seu reflexo aquilo que realmente era. Sempre achou o que via no espelho um engodo mal contado para satisfazer o desejo tão vezes raso e tão vezes profundo de ver a si mesma.
fábula. ilusão. embuste. cada dia pronunciava algo ao se despedir daquela que ficava por trás do vidro.
mas lá, naquele fundo, sentada, olhando cada gota, ela vira. ela via.
havia ainda alguém ali. um alguém cheio de vincos dos anos amassados no fundo de uma pele. no fundo de camadas de temor, em camadas de fraqueza, de covardia. em camadas desejos sem oxigênio.

amarrotado
- amarrotada.

perdera o cinismo tão familiar.
ganhara a
ganhara o que?
não soubera. não sabia. talvez nunca saberia. ou talvez como as gotinhas, uma a uma, obcecadas e impertinentes, de tanto cair passassem o concreto — mesmo que antes virasse lama.

mesmo que antes virasse lama.

e, antes de levantar queria saber: alguém de joelhos está caindo ou levantando?

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