A reputação de Taylor Swift

Eu gosto da Taylor Swift. Acho que ela é uma das artistas mais incríveis da geração dela (e como essa é uma grande safra de artistas pop ela acaba sendo uma das artistas mais incríveis de todos os tempos), especialmente por saber escrever sobre sentimentos comuns como poucos.

Eu demorei a me render ao fenômeno. No começo da carreira, quando ela ainda era a “princesinha country”, as músicas não me pegavam muito, até prq não é exatamente um estilo que eu acompanhe ou ouça com regularidade. Mas desde aquela época, Taylor já era pop. Vale aqui ressaltar que “pop”, pra mim, não é um estilo, mas um formato. Feito pra agradar massas, feito pra vender, desenhado para o sucesso. (Nirvana é pop, Marilyn Manson é pop, Rolling Stones é pop pra caramba, convenhamos.) Mas enfim, a veia pop já estava ali, mas como ela não fazia “música eletrônica”, digamos assim, ainda não era rotulada como tal.

Com o passar do tempo, ela foi evoluindo — pessoal e musicalmente (graças à deusa, nossas popstars envelhecem e isso é ótimo) e foi se aproximando de um som mais eletrônico, radiofônico e, bem, pop. A figura também foi empopizando: os vestidinhos e a cara de fofa foram ficando de lado, enquanto a faceta fashion, descolada, jovem, cool foi tomando conta.

Quando ela cantou que sabia que o boy era problema, ganhou meu coração de vez. Aquela performance no Victoria’s Secret é maravilhosa. Teile me ganhou ali.

Ela é IMENSA. Sempre foi grande, mas a transformação sonora pela qual sua carreira passou fez com que ficasse ainda maior. Convenhamos, a tal “música pop” é muito mais universal que o country-pop do começo. Taylor foi construindo um império que evoluiu. Envelheceu com seus fãs, que se identificam com o que ela escreve. É impossível não se identificar com as letras dela, ela fala sobre sentimentos tão humanos. Quem nunca se apaixonou pela pessoa errada, ou pela pessoa certa, ou foi pra balada com as amigas, ou ficou admirando alguém em segredo e sonhando com um futuro impossível? E, acima de tudo, quem nunca quis se vingar de um desafeto que atire a primeira pedra.

IMMA LET YOU FINISH

O incidente com Kanye West no VMA foi a grande catapulta que colocou Taylor nos holofotes. Até então ela era a princesa country que dominava um outro lugar na música pop, não era esse furacão que conhecemos hoje — e o caminho que ela traçou desde então se baseia em se vingar pela humilhação pública que sofreu. Sendo muito sincero, se fizessem isso comigo eu também viraria uma máquina de vingança, esfregando meu sucesso e meu merecimento na cara de todos (sentimentos comuns, lembra, especialidade da casa). E ela está, o tempo todo, dizendo que não quer participar dessa quizumba toda, mas todo mundo insiste em colocá-la no centro de um monte de dramas, então ok, olha o que vocês me forçam a fazer — BOOOOM toma aí um sucessão mundial.

E de sucesso ela entende. Tudo, absolutamente tudo o que ela faz é sucesso absoluto e os números são sempre altos. Parte porque a legião de fãs que a acompanha ao redor do globo é imensa, parte porque a imprensa e a indústria querem saber o que ela está fazendo.

Quando lança uma música ou um disco novo, ou quando faz um post em suas redes sociais, todos se perguntam: “sobre quem ela está escrevendo agora?”. E isso faz com que, o tempo inteiro, estejamos interessados no que ela vai dizer, em quem ela vai jogar um shade essa semana, o que ela tem pra contar sobre o último boy que namorou. Compositora calculista (suas fórmulas sempre funcionam), escreve canções baseadas em suas experiências, sem citar nomes, colocando uma pista ou outra em um canto escondido da música (às vezes nem tão escondida, como na música/clipe de “Style”, que não precisa muito pra saber sobre quem se trata); e isso é suficiente para que um milhão de teorias sobre ela sejam feitas.

Em um vídeo, antes de cantar uma versão ótima de “Blank Space”, ela comenta a composição da música.

“Nos últimos anos a mídia teve essa fixação maravilhosa em me pintar como uma psicopata que sai com todo mundo. É maravilhoso, eu adoro isso. Ficou um pouco fora de controle durante uns anos — todas notícias eram sobre “Taylor Swift está saindo com um cara. Cuidado, cara!”. Todas descreviam uma personalidade que é bem diferente da minha personalidade de fato. No começo achei estranho, mas depois pensei que essa personagem era interessante: ela viaja ao redor do mundo, coletando homens — e ela pode capturar qualquer um. E quando eles vão embora ela fica mal e depois pega o próximo, e chora em uma banheira chique coberta de pérolas. E aí eu pensei ‘eu posso usar isso’”

É perfeitamente compreensível, portanto, que na divulgação do “Reputation” ela escolha não conversar com a imprensa, nem dar nenhuma entrevista oficial. Anunciou que a obra falaria por si só e que isso é tudo que as pessoas teriam.

Eu entendo Taylor. Se todas as minhas palavras fossem distorcidas, eu também não gostaria de dar entrevistas que não serviriam, na prática, pra muita coisa, já que cada um vai criar uma nova narrativa a partir do que eu disser. Bruno Mars e Ed Sheeran (pra usar equivalentes contemporâneos) construíram suas carreiras sobre músicas sobre relacionamentos, com textos tão intímos quanto os de Taylor, mas nenhum dos dois recebe tantas críticas pelos conteúdos de suas obras. Eles estão livres para namorar quantas pessoas quiserem, durante o período que quiserem, e em seguida compor um hit baseado naquela experiência — e não tem que dar muitas satisfações sobre isso. Já Taylor é cobrada por cada frase que diz.

Sabe quem faz isso magistralmente? A Beyoncé. Ela não dá entrevistas há anos, não comenta seus lançamentos, não fala sobre os conceitos dos vídeos. A obra dela fala por si só e isso é tudo o que temos. Temos os discos, os clipes e as fotos combinadinhas do Instagram dela.

Meu problema com a Taylor é que ela não parece sustentar a imagem que criou. A “Nova Taylor”, enquanto conceito, é genial. É maravilhoso que ela se rebele contra o sistema machista que a diminui o tempo inteiro mesmo sabendo que ela é uma das maiores compositoras da sua geração. E mesmo sem entrevistas, sem exclusivas, sem aparições, ela vende muito, vai para o #1 e todo mundo só fala sobre ela. Gênia, parabéns.

OLHA O QUE CÊ ME FAZ FAZER

Eu só acho que o produto final (o disco, os vídeos, as apresentações ao vivo) ainda está um passinho atrás do discurso. Eu tava esperando o “Lemonade” da Taylor, um disco que fosse tão incrível e ao mesmo tempo tão forte. “Reputation” é absolutamente bem produzido, as letras são boas e, apesar de bobas (ou por causa disso), grudam eternamente na cabeça. Queria que ela tivesse lançado um álbum que fosse melhor que o “1989”, que é impecável. Mas ela ainda não deu conta, e tá tudo bem.

De qualquer forma, a reputação da Taylor segue intacta. Gostem(os) ou não, ela manda no mundo e faz o que quer. Numa indústria onde os meninos estão acostumados a brincar livremente, ela dá a volta em quem a critica e mostra que, ainda que entregando um trabalho abaixo do esperado, o mundo ainda é dela. E vai continuar sendo por, ainda, uns bons anos.

“Reputation” é o disco que a gente queria, depois de acompanhar essa história toda desde 2009? Não, certamente. Mas é o disco que nós merecíamos e precisamos nesse momento.

Vai que é tua, Taylor.