Festa sem comida não é festa

Minha revolta com comemorações sem conteúdo nutricional

(Arquivo pessoal)

São cinco horas da tarde, eu estou aqui sentada comendo meu lanche e me perguntando: quando foi que festas se tornaram tão chatas?

Calma que eu explico. Lembram daquelas festas de criança — brinquedo, pula-pula, cama elástica, cachorroquentealgodãodocepizzaescondesconde? Então — quando foi que essas festas se tornaram vamos-ali-num-barzinho-tomar-uma, com um bando de adultos na casa dos 20-ou-30, meio assim entediados e pedindo cerveja atrás de cerveja pra se embriagar logo e tornar a conversa mais legal? Porque, todo mundo sabe, na verdade ali estão todos muito enfastiados e pensando mas-por-que-eu-vim e em como poderiam ter empregado melhor o dinheiro gasto no couvert ou em qual foto postar em qual rede social para mostrarem que, sim, eles saem de casa.

Pensando bem, talvez seja só eu pensando isso. Talvez eu seja só chata. Ou talvez eu me importe demais com comida. Porque a maior frustração que eu tenho hoje em dia — certo, talvez não a maior, mas é que pra esses textos a hipérbole funciona bem — é quando me convidam pra festa sem comida.

Festa. Do aramaico antigo “lugar para onde as pessoas vão para comemorar algum evento especial… comendo.Da última vez que eu chequei, não significava “lugar aonde as pessoas vão para se embebedar e fingirem que são menos enfadonhas do que são.” Quando foi que “diversão” passou a ser sinônimo de “vamos esperar que o álcool torne essa conversa interessante” quando as pessoas nem conseguem se escutar — graças ao formato esdrúxulo das mesas — e mal se conhecem direito?

Não que eu tenha nada contra bebida, não tenho. Não mesmo.

O que eu tenho contra o mundo, na verdade — ou pelo menos o mundo do pessoal acima dos 18 (16? 12?) anos — é que as pessoas não colocam mais comida em festa. Aniversário de Fulano? Ah, vamo ali num barzinho. Formatura de Cicrana? Ah, vai ter um drinque ali não sei onde. E a comida? “Ah, se você é esfomeada come em casa!” Então quer dizer que eu vou sair da minha casa para ir à sua comemoração, e… você não oferece nem um bolo com café coado? Nem uns biscoitos maizena? Como diria minha vó: é muita falta de estilo.

Nem precisa ser um bolo tão sofisticado assim, juro (Pinterest)

Pra não dizer que não cheirei as flores, eu já fui em barzinho. Mais até do que gostaria. Cheguei lá e o prato de filé cortado com batata frita custava um braço de recém nascido — e não enchia a barriga nem do mencionado recém nascido. Só a porção de batata frita (sem o filé!) já acabaria com o meu orçamento de combustível pro mês inteiro. Foi aí que minha mãe me disse que “ninguém vem pra barzinho pra almoçar.” Era meio-dia. Antes ela tivesse me avisado com antecedência, que eu ficava em casa.

Para não mencionar a abominável música ao vivo. As pessoas que inventaram música ao vivo em ambientes fora de shows deveriam ser condenadas ao ostracismo. Quem é que escuta alguma coisa quando tem alguém cantando Velha Infância a 35cm de distância da mesa onde você está sentada? Eu, surda de um ouvido, certamente não. Provavelmente já respondi “sim” até a propostas de sequestrar filhotes de Shih Tzu pro mercado clandestino uzbeque por não ter escutado direito nessas ocasiões. Socorro.

Minha cara quando me fazem perguntas em ambientes com música ao vivo (Happy Feet)

Cadê os pula-pulas, as camas elásticas, os “como é seu nome, menina?” perguntados aos gritos no meio do empurra-empurra e de você tentar não quebrar a cabeça por causa dos pulos do menino maior que todo mundo no castelo inflável? E os quebra-paus de festa de criança? (Tudo regado a brigadeiro, claro, e não a petiscos. Detesto petiscos.)

Talvez eu esteja idealizando demais a coisa. Na verdade, eu odiava festa de criança quando era criança. (Odiava qualquer festa). Talvez eu só tenha mantido a mesma tendência de evitar aglomerações sociais sempre que possível — ainda mais quando elas não envolvem comida. Gente, melhorem! Tragam o feijão, o churrasco, o pão de alho! Isso sim é festa.

E não esqueçam o bolo.