Os caminhadores da pracinha

Como correm os intrépidos atletas das nove horas da manhã

Esses dias fui na pracinha. Água de coco e sol matutino: nada melhor para começar o dia. Eis que me deparo com os Corredores. Ou, melhor dizendo, Caminhadores da pracinha. Após alguns minutos de apurada observação, concluí que estes nobres indivíduos se dividem em algumas categorias:

O Sofredor

É aquela pessoa que está sempre com uma expressão de sofrimento no rosto — não importa se ela está caminhando, correndo ou até mesmo parada. Ela está sempre sofrendo — se não pelo esforço, então pelo sol, pelo calor, ou pelo mero fato de existir. A sobrancelha franzida, o rosto contraído, os dentes aparecendo e aquela expressão de quem acabou de empurrar um container na aula de CrossFit são, na verdade, seu modo padrão. Se você vir uma dessas pessoas na pracinha, não entre em pânico: ela não está prestes a ter um infarto (ou talvez esteja).

O Casal

Eu não entendo pessoas que caminham a dois. Pior ainda se esses dois forem um casal. Normalmente eles vão lado a lado — e alguns ainda conversam. Enquanto correm. Eles estão aqui para provar que, sim, é possível amar alguém mesmo depois de ver essa pessoa completamente esbagaçada apenas por subir uma rua com inclinação de 2°. (E pra jogar isso na sua cara, claro).

O Furioso ou o Determinado

Também tem aquele caminhador que anda furiosamente. Aliás, ele não anda, marcha. Bate os pés com força, tem o rosto contraído em eterna expressão de cólera, olha para todos ao redor como se fosse exterminá-los — afinal, são apenas meros obstáculos em sua caminhada diária de nove horas da manhã. E todos sabemos como ele na verdade não está ali para relaxar, entrar em forma ou, simplesmente, aproveitar a paisagem. Não: ele está ali para andar. E andar é uma missão importante. Saia do caminho dessa pessoa.

O Passeador de Shopping

É o oposto da pessoa acima. O Passeador de Shopping até saiu para entrar em forma, fazer exercícios vigorosos, aumentar a frequência cardíaca e os níveis de endorfina. Acontece que… olha ali uma árvore! E o que é que eu vou comer hoje no almoço? Espera, essa música não tá boa… Que vento bom… E, nessa história, o passeador de shopping desceu a uma velocidade de -45km/h… e é bem provável que ele esteja exatamente em frente ao Furioso (que, obviamente, está furioso com essa vicissitude da vida). Quando o passeador de shopping acaba sua caminhada, ele acha que já entrou pra vida fit — mas, na verdade, estaria andando mais rápido se de fato estivesse no shopping.

O Pônei

Não sei bem como denominar essas pessoas. Elas não andam, mas também não correm… elas trotam. Mais ou menos como um potro recém nascido trotaria — passos minúsculos, arrastando os braços como duas barbatanas e colocando o máximo de peso possível na panturrilha e nos joelhos antes de dar o próximo passo. O ritmo utilizado pelo Pônei é o mais cansativo e doloroso possível — por esse motivo, sua expressão facial pode ser parecida com a do Sofredor, mas não se engane: o Sofredor já sofre demais somente andando, ele não será tão ousado a ponto de trotar.

E, finalmente… O Atleta

O nome já diz tudo. Esses são os que realmente correm na pracinha. Aqueles de passo largo, ritmo acelerado, que provavelmente só estão ali porque era o local mais próximo para sua atividade aeróbica (mas não necessariamente mais adequado, dados os personagens que lhe fazem companhia).

Que conste nos autos que, até hoje, só vi um exemplar desses na pracinha.


Ah! E, de bônus, a menina de uns 3 anos que andava de bicicleta, acompanhada pelo pai, que disse "não apressa eu" quando ele tentou dar impulso às suas heroicas pedaladas. Me identifiquei.