Aquarius e o rosto no cinema
O rosto é um fato social. Porém, houve uma fase do cinema em que diretores perturbavam o público com o rosto humano ideal. Eram formas-máscaras, arquétipos do rosto humano como no teatro grego: impossível arrancá-los da memória após o filme. A imagem da cara humana passava por um filtro de prazer imediato que conduzia o olhar do espectador a um estado hipnótico. Era o caso de Greta Garbo, por exemplo, um rosto-essência, que faz parecer que não há ninguém ali. Não há um rosto, mas uma Ideia do feminino.
O movimento nos transforma em seres singulares. A mediação com o mundo é dupla: nos desenvolvemos como nós mesmos ou como outro, ou nos ultrapassamos ou nos refletimos a partir do outro. Assim nos constituímos a partir de nossas experiências na vida, assim conhecemos o mundo, criamos afetos e inventamos saídas para organizarmos nossos interesses. E o rosto, como forma paradoxalmente fixa e mutável, reflete esses afetos e capacidade de afecções na vivacidade do olhar, no modo como se curvam as narinas e as sobrancelhas, na maneira como os vários temas possíveis do rosto harmonizam-se e constroem um corpo, um estilo. O rosto-objeto de Clara em Aquarius é individualizado por várias temáticas particulares: a mulher-elite, a mulher-brasileira, a mulher-desejante, a mulher-livre. Os olhos negros e enormes destacam-se simultaneamente como feridas e direção de forças. Esculpido por uma vontade de vida, o rosto incomoda por conter um tipo de encadeamento que não entendemos de imediato por conter possibilidades infinitas. Mas, quando Clara aparece decidida a lutar pela permanência de si tal como é, por seu apartamento, seus discos, suas memórias (a personagem não é “analógica”, ela é passional), conseguimos compreender por alguns instantes a função daquela imagem, seu rosto como um fato que carrega uma linha do tempo conflituosa.
Não à toa Clara é crítica de música, única expressão artística que só pode ser pura forma. A música não representa nada, a não ser afetos. Ela pode ouvir música no carro com os amigos ou em casa após uma experiência ruim de rejeição, seu momento sempre será prazeroso, pois escutar os sons que lhe agradam remete ao curso habitual de suas paixões, de sua vivência, de suas parcialidades. Esse é o problema da vida em sociedade: formamos um conjunto de sujeitos parciais, mais simpáticos a uns do que a outros. Sujeitos que, em conjunto, só podem ser contradição e violência, luta perpétua pela manutenção das próprias paixões. E Clara, viúva e sobrevivente de um câncer, poderia facilmente ceder à força dos inúmeros movimentos contrários aos seus interesses — não somente da construtora, mas também das inúmeras formas de crítica que o mundo dirige a uma mulher com seus traços afetivos. E Aquarius é sobre isso: sobre uma mulher que soube integrar suas paixões de maneira inventiva, formando um corpo moral próprio, capaz de sustentar um modo singular de sentir. Seu rosto é cinema porque retrata um imaginário para o qual transporta os tempos e as paixões mais distantes, construindo e mantendo em si aquilo que julga como seu próximo, como seu semelhante. Ela não precisa dos filhos para não se sentir sozinha pois seu critério de relações é a simpatia e o interesse: o sobrinho, o salva-vidas, a empregada, as amigas, alguns familiares, os rapazes que trabalham na construtora e que não se esqueceram da mulher que perguntou e guardou seus nomes. Os filhos, por ironia ou não, às vezes não compartilham as mesmas simpatias dos pais. E assistimos também aos seus medos: a doença, o corpo mutilado, a antiga empregada negra (e a culpa por ser parte da elite em um país desigual). Suas tensões e o modo como se mantém em embates internos e externos estão todos lá, naquele rosto no centro do mar.