A primeira árvore de natal que vejo no ano sempre me atravessa o bucho. Sinto na boca o gosto áspero das folhas falsas do pinheiro, engasgo com a poeira dos enfeites retirados da caixa. As luzes que envolvem o tronco da planta acendem em mim, uma por uma, minhas melancolias, que até o momento esperavam, enroladas umas nas outras por um fio difícil de desembolar.
Há alguns dias, ainda na primeira semana de novembro, saindo da Avenida Antônio Carlos e entrando em direção às vias que levam à Zona Leste de Belo Horizonte, avistei em cima de um prédio a primeira árvore de natal desse ano. Quantas vezes eu havia percorrido esse mesmo caminho, e quantas outras vezes antes com mais dúvidas, com menos tristeza, com esperança, com apatia, quantas vezes falando pra dentro, vendo pelo banco de trás outros cenários, o tempo esse monstro inofensivo, rodando macio por debaixo das rodas do carro, silencioso e gentil para que eu não o sentisse ou desse por sua falta.
A sutileza dos monstros, porém, não se alinha à perenidade e, diante do carnaval anunciado da árvore, o tempo derrapou, se agigantou, tomou forma de fera em cima do prédio da cidade, anunciou para mim seu segredo: escapei enquanto você olhava para dentro. No borrão distante das luzes compreendi mais um fim, outro inevitável recomeço, a cansativa missão que reside na espera: no ano que vem, ano que vem, para o ano que vem.
Sei que as árvores seguintes não espetam tanto quanto a primeira, pois esbarram na destreza com que se defende quem acordou. Mas toda vez que passo pelo espelho e vejo as luzes piscarem coloridas por dentro de mim, ou quando, no fundo de um copo em que acabo de beber percebo que restaram duas ou três folhas verdes sintéticas, penso que o ataque teria sido menos violento se eu ainda pudesse contar com aquele tempo físico que, como uma gárgula, anunciava sobre a Praça Raul Soares sua feiúra realista, em cima de um dos edifícios JK.
