Medo do medo
Eu levanto da cama, e temo que esteja nublado. Sabe como é, dias fechados transmitem tristeza. Abro o guarda roupa, e temo escolher a roupa errada, afinal, nunca se sabe o que o dia nos reserva. Saio de casa, e temo encontrar o cachorro que late incansavelmente toda vez que alguém passa. Na hora de atravessar a avenida, temo que um carro apareça sem que eu perceba.
Todos esses temores, e são apenas 9hrs da manhã, ainda há muito o que enfrentar até o dia acabar. Mas essa batalha travada contra os medos vai além de 24horas: quando permitido, eles invadem a mente, os sentidos, as ações, a vida.
Como já revelado, tenho bastante medo de cachorro. Espalho por aí que se existe mesmo outra vida, com certeza eu fui morta por uma mordida no calcanhar vinda de um cãozinho bem feroz numa rua qualquer.
Quando criança, desenvolvi os medos mais absurdos possíveis (ao menos segundo a visão de meus pais). Tinha medo de que a qualquer momento cortaria meu pulso, e minha veia estouraria e eu morreria de hemorragia. Foi bem difícil passar o intervalo da terceira série inteira sentada observando aquelas crianças correndo, brincando de corrente, sem cuidado algum com a integridade de seus pulsos.
Temia também, sofrer de hipertensão, e além de constantemente sentir meu coração acelerado, sentia que estava batendo nas costas. Ingênua… Mal sabia que esse órgão desenvolveria medos muito maiores dali a um tempo.
Desenvolvi com o tempo — e graças às desilusões — o medo da solidão. Imagino o quão triste deve ser uma vida sozinha, sem amigos, sem família, e sem um amor. Temo não encontrar — ou encontrar, mas estar ocupada demais com algum item da minha frenética rotina e acabar deixando passar — um amor verdadeiro. Que me desculpem os autossuficientes, mas para mim, ter alguém com quem dividir os bons e maus momentos da vida, é encorajador.
Inclusive falando de vida, tenho pavor de pensar em uma vida em vão. Eu acordo fazendo planos, e durmo pensando neles! Tenho tantos sonhos, vontades, e também disposição para realiza-los, que me sufoca a hipótese de não tornar isso tudo real, inclusive por fatores que estão além de meu alcance, como a efemeridade da vida. Afinal, nessa noite de sábado estou aqui, escrevendo esse relato. Amanhã posso não estar — e automaticamente, também não estará nada daquilo tudo que gastei um bom tempo planejando e imaginando.
É, até pareço uma colecionadora de temores de todas as formas, cores e sabores. Eles são bobos, absurdos, individuais, coletivos, momentâneos e duradouros. Apenas são.
Mas pensando bem, não tenho medo de altura. Nem de barata. Nem do escuro. Mas tenho um grande pavor: tenho medo de ter medo. Oras, ter medo é normal. Mas é preciso saber reagir a eles.
Sendo assim, espero que para cada dose de medo, eu tenha uma dose em dobro de coragem. Afinal, como diz um livro que particularmente gosto muito, a esperança é a única coisa mais forte que o medo.